Resposta

hanekeApesar de adorar filmes, não vou muito ao cinema, e com o tempo, vou ficando mais ranzinza. Não quero ter ninguém comendo pipoca ao meu lado, tomando refrigerante ou mascando chiclete. Aí me lembro de eu menino, chupando Drops Dulcora e comendo cigarro de chocolate… e vejo que estou é mesmo chato.Aceitando meu destino, armado de um saco de pipoca e de uma coca-cola (“santa incoerência”), procuro meu lugar marcado e ali permaneço.

O filme tem um nome sugestivo, “Amor”, e como tento compreender o inexplicável, espero tranquilo uma fábula carinhosa, de um casal que se deixa envolver pelo sentimento do título. Leio pouco as sinopses para não revelar o final dos filmes, crime que não cometerei contra aqueles que me leem. Mas a película francesa me traz reflexões profundas.

Em pouco tempo, me esqueço de minhas guloseimas e me deixo levar por Jean-Louis Trintignant (Georges) e sua amada Emanuelle Rica (Anne), e viajo ao centro de suas vidas. O diretor do filme, Michael Haneke, nos mostra o tempo e o que este faz com nossos sentimentos. E o faz sem nos pedir licença, sem nos indagar se deveria fazê-lo.

No filme, o casal, que junto há muitos anos vive a paz de um amor maduro, se depara com o imprevisto da vida. As escolhas e os desejos dos dois os colocam em lados opostos. Mais de uma pergunta paira no ar:

— Qual desejo devo preservar?

— O desejo do outro é que determina o caminho que devo seguir?

O homem, treinado para satisfazer as vontades daquela que ama, vacila diante daquilo do que não quer se afastar. A angústia das escolhas surge diante dos meus olhos! O outro me liga ao mundo, é a ponte segura que atravesso durante o dia e pela qual retorno tranquilo à noite. É em seus braços, ou ao lado de sua respiração serena, que consigo repousar. Aquilo que me ameaça se afasta diante de sua presença. Só, eu não seria capaz de enfrentar as minhas próprias dúvidas e desilusões. Diante do que desconheço, por onde caminhar?

Existe a ameaça real, esta que persegue a minha própria existência desde que nasci. Mas ela se encontra guardada em outro lugar. A presença da amada é que afasta o dragão, e não um falso herói como eu empunhando uma espada com a própria mão.
Algo surge sem aviso e movimenta o mundo mágico protegido, modificando o presente e ameaçando o futuro. O protagonista se encontra, assim, desvalido, entre aquilo que deveria estar, mas não se encontra mais no lugar.

O filme segue seu percurso silencioso dentro da sala escura de meus sentimentos. Nas imagens da vida, se desdobra uma pergunta:

— Posso abrir mão de meu desejo em nome do amor?

É o amor que me pede que me entregue à sua vontade. Que clama por uma prova que não posso realizar! E há pouco eu corria ao seu encontro, e ali, naquele ponto, compreendia as coisas mais simples que antes não conseguia explicar. Quando a história chega ao final, saio para a rua. Respiro fundo…

Procuro a mão da amada, e vejo que ainda há tempo! Só não há resposta que defina o futuro diante do outro e elimine a angústia do viver… Não há lugar para ocupar… Pois o desejo já está lá!

 

 

3 comentários em “Resposta

  • 03/02/2013 em 19:25
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    A verdade é que existe uma época na vida para td. Uma para ser babaca, outra para fazer “M”, outra para casar e ter sexo e agitar as noites, e outra para simplesmente se olhar um ao outro e falar foi bom. o resto e demagogia sentimental.

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  • 01/02/2013 em 20:16
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    Oi Gustavo.
    Parabéns pela crônica.
    Fui assistir a este filme e saí tendo de respirar muito fundo para não desabar!
    É muito difícil não encontrar mais nosso lugar, nosso elo com a vida!
    beijo grande

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    • 03/02/2013 em 13:27
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      Oi Vera
      Que bom que vc gostou.
      Vi o filme, O Lado Bom da Vida e fiquei mais animado.
      Veja se gosta.
      Bjo,
      Gustavo.

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