Refluxo nacionalista

Alan e seu "quick mortar" hoje de manhã

Que Alan nunca aceitou a vitória de Obama há quase 4 anos, entre outros motivos pra contrariar a minha torcida apaixonada, não é novidade pra ninguém. O problema, meus amigos, é que entra ano e sai ano, ele não se conforma com a derrota de jeito nenhum. E não está sozinho nisso, gente, não.

Tem uma turminha nos Estados Unidos, coisa que a gente nem fica sabendo se não for “do meio”, que excede de longe aquele direitismo normal de gente velha, sabem como é — já dizia o outro: jovem que não é de esquerda não tem coração, velho que não é de direita não tem cérebro —, com uma perpétua teoria de conspiração que vai se tornando cada vez mais louca.

Não sei se vocês sabem, mas na quinta-feira passada um desses mais brilhantes extremistas   — brilhante até no som do nome: Breitbart; quer dizer, brilhante pra turma deles lá —, jovem, de apenas 40 e poucos anos, bebeu um vinho num bar até as onze da noite e enquanto caminhava para casa caiu morto, assim, sem mais nem menos, sem bala perdida nem nada disso, de “causas naturais” — segundo o Alan e outros da mesma laia, um eufemismo para “digitalis”, por exemplo, aquele veneno poderoso que não deixa traço.

O caso é que o cara tinha dito no ar uns 4 dias antes que ia provar no dia 1º de março — mesmo dia em que morreu e claro que não é coincidência —, que Obama não era americano, era maconheiro, corno, punheteiro, esse tipo de coisa (nem vou dizer preto pra não ferir susceptibilidades), e que aparecia nesse vídeo de seus tempos de escola com dois explosivos terroristas, aquele Bill de sempre e uma tal Bernadete, ops, Bernadine, afirmando que seus inimigos não perdiam por esperar, que ele ainda ia acabar presidente dos Estados Unidos ou algo sim.

Ora, meus amigos. Perguntei pro Alan:

— Querido, imagine essa hipotética situação: você está muito bem em Harvard, exibindo a sua genialidade única, quando chega um sujeito, te atira um tomate na cara e te chama de baixinho, vesgo, e… judeu. O que você faria? Diria para a sua “corte”: “Filhos da puta, não perdem por esperar! Eu ainda vou acabar presidente dos Estados Unidos!” (informações de coxia: judeus e baixinhos, como vocês sabem, embora raramente sejam negros jamais chegarão à Presidência dos Estados Unidos).

Tenho que dar um desconto. Depois que Breitbart morreu, Alan, coitado, ficou muito acabrunhadinho. Então propus uma aposta. Como daqui a poucos dias o tal vídeo de escola parece que vai ser exibido de alguma forma , ele me disse as seguintes coisas, não nessa ordem necessariamente: que Obama será vetado como candidato à reeleição; que Obama será assassinado; que haverá guerra civil nos Estados Unidos, pô. Peraí.

Eu disse pra ele, mas, querido, pega leve. Vamos deixar de fora essa coisa de guerra civil, nós não queremos que você perca a sua mínima chance de vencer a aposta, né? Ele riu. Ainda bem. Em tempo: o valor clássico das nossas apostas aqui em casa é um dólar, mas Alan quando perde nunca me paga. Tchvók* desgraçado.

O negócio é que com toda essa tristeza nacional(ista), Alan sofreu uma recaída daquela mania que ele tinha de querer transformar o Brasil nos Estados Unidos. Quando construímos a casa, vocês se lembram, me deixou quase louca com suas pesquisas de materiais de construção na internet, dizendo que tudo que existia… nos Estados Unidos existia aqui também. Vai nessa.

Pois na mesma quinta em que nosso querido Breitbart falecia, aqui em casa estourava uma bomba, não uma bomba terrorista, mas uma bomba d’água, a bomba da cisterna. Estávamos aqui muito bem quando de repente, não mais que de repente, sem que nada se ouvisse, a bomba parou e a água acabou, sabem como é, paraíso tem dessas coisas. Telefonei para o milagroso “Tavinho”, nosso bombeiro hidráulico e eletricista de predileção.

Como vocês podem imaginar, o Tavinho é a antítese de um bombeiro hidráulico americano, sujeito abonado, bem-vestido e especializado, um deles, vocês se lembram, virou celebridade durante as últimas eleições americanas e Obama escapou por pouco de entrar pelo cano por causa dele. Pois chega o Tavinho bem avantajado, com o rego da bunda aparecendo no topo do bermudão azul e branco, havaianas, sem camisa, vocês sacam o tipo. Só de olhar pra ele Alan tem arrepios. Olha a bomba, olha o disjuntor, diz que deve ter “colado o induzido” (nada de rebimboca, graças a Deus), tira a bomba de dentro da cisterna e leva pro “especialista”, já me prevenindo: “Acho que a senhora vai ter que comprar uma nova, aí por uns 700 pau.”

Mas apesar do que Alan sente, o Tavinho é boa gente, como é praxe aqui na região serrana. Retornou umas duas horas depois, dizendo que eu tinha muita sorte, era só sujeira, o cara tinha passado um “bom-brilzinho” e a bomba tinha voltado a funcionar. Ufa. Grande Tavinho. Não só é um sujeito bonzinho como ainda me deu um canteiro inteirinho de “cebolinha de jardim”, que agora vive florido de amarelinho. No Brasil é assim. Fica todo mundo amigo.

O problema é que uma desgraça nunca vem sozinha, já dizia aquele tal de Murphy, ah, não foi ele não? Começando a bomba a funcionar, encheu a caixa d’água de algas acumuladas e, enquanto muito aliviada eu tomava um bom banho ao final do expediente, lá pelas dez da noite de quinta-feira… o aquecedor parou. Tive que enxaguar os longos cabelos com água gelada, evocando todos os palavrões do meu vocabulário minguado pra poder aturar o frio danado. Argh.

No dia seguinte, chamei o Guilherme, “gazista” (sic) local, tido como o sujeito mais competente da região em termos de aquecimento a gás. Enquanto o Guilherme não vinha, pois estava em Pedro do Rio, Alan sentou-se em frente à internet. Dali a pouco, me manda o link para um vídeo no YouTube explicando como são limpos os aquecedores nos Estados Unidos, no próprio local, com uma espécie de bomba portátil e uma mistura de vinagre com água e sei lá o quê.

— Mas, querido, você pretende fazer isso sozinho?

Neca de pitibiriba.

Chega o Guilherme, todo desengonçado, mais ou menos da nossa idade, óculos de fundo de garrafa e um português bem mais macarrônico do que o normal, o barrigão pra fora do cós da calça descaída, a camiseta listrada meio puída… vocês sacam o tipo. Alan arrepiado. Vem com um ajudante a tiracolo e vai logo dizendo que tem que levar o aquecedor embora. Alan fica branco de raiva, e puto… comigo, porque ele quer porque quer que eu ensine o Guilherme a consertar aquecedor com bombeamento de vinagre, e eu… nem morta que vou ensinar o sujeito a fazer seu próprio serviço.

Guilherme sai pela porta da frente carregando o aquecedor, deixando atrás de si aquele característico odor de escapamento de gás e um Alan cada vez mais nervoso.

— BOILER A GÁS É BOILER A GÁS EM QUALQUER LUGAR DO MUNDO!!!

Bom. Teve que se conformar. Dali a umas 4 horas, antes que anoitecesse, conforme o prometido, voltam Guilherme, ajudante, as calças caídas e a camiseta puída… e o aquecedor consertado, tinha por dentro uma sujeira vermelha, algo meio grudado, o que seria aquilo? “Algas”, esclareço, aqui tem de montão, coisa de poço, sol e natureza, sabem como é, não se pode ter tudo. Outros têm que se conformar até hoje com a água malhada do Rio Guandu, não é mesmo?

O caso é que apesar de o Alan estar tão chateado, o aquecedor ficou perfeito; mas ele, vocês sabem, jamais aceita que está errado, e continua até hoje abrindo e fechando as torneiras da casa pra ver se encontra alguma coisa encrencada. E agora, pra compensar tanta aposta derrotada, encasquetou que quer consertar sozinho o rejunte dos degraus da escada. Foi ao Google, pesquisou um material lá de base acrílica hiper-resistente que vem numa bisnaga, imprimiu tudo e levou na Só Sucesso, a uns 10 minutos de carro daqui de casa. Nada. Ele explica ao sujeito que “mortar” [argamassa] é “mortar” em qualquer lugar do mundo, que tem que ter uma areia fininha, um concreto assim e assado e aceitar pintura por cima, mas o atendente… nada. Nunca ouviu falar de semelhante coisa, traduzido pelo Google como “Quicrete 60”.

Pobre Alan. Imaginem se Obama é reeleito e ele tem que se conformar com as belezas do Brasil por outros quatro anos… O que salva é que ele agora arrumou um gato, Clinton, o único gato malhado — malhado no sentido de vira-lata, claro — que come salmão e filé mignon, ô vidão, onde já se viu? Só no Brasil mesmo, terra de bondade e fartura, onde em se plantando tudo dá. Aqui em casa, pelo menos.

E um bom domingo procês.

 

*Bem, pra encontrar e eternizar em crônica esta preciosidade linguística que é “tchvók” — sei lá se é assim que se escreve, vovó, vocês sabem, só falava, não escrevia, e não encontrei esta grafia em lugar nenhum —, tive que ligar pro meu tio lá no Rio: em iídiche, é aquele sujeito que não paga suas contas, um tratante, não cumpre seus compromissos, Alan dito e escrito, não é mesmo?

 

 

 

9 comentários em “Refluxo nacionalista

  • 04/03/2012 em 14:17
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    Oi, Noga!
    Acho suas cronicas o “maior barato”…
    Parabéns!
    Quanto ao Clinton, o original também é muito “cativante”, que o diga a Mònica… rsrsrs…
    Bom Domingo
    Raul Augusto

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  • 04/03/2012 em 12:15
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    Ah, pois é, não posso mais dizer que não gosto de bicho… o diabo do Clinton é muito cativante…

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  • 04/03/2012 em 12:08
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    “O que salva é que ele agora arrumou um gato, Clinton, o único gato malhado — malhado no sentido de vira-lata, claro — que come salmão e filé mignon”
    AMEI ISSO!
    Parabéns, a cronica desta semana esta D+.

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  • 04/03/2012 em 11:53
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    Noga!
    Não entendi!
    Clinton não é democrata!
    O Alan além de ser “tchvók” é vira casaca!
    Bjo,
    Gustavo.

    P.s Adorei!

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    • 04/03/2012 em 12:05
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      Como assim, Clinton não é democrata? Não é republicano, vc quis dizer, mas é um gato, né? Além do mais, fui eu que dei o nome, pq um dia era Charles, no outro Jack, e no outro “animal”. Não aguentei.

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  • 04/03/2012 em 11:52
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    Noga, diz pro Alan que o Brasil é a grande teta de uma vaca profana, de longe os brasileiros são todos macacos, a capital do Brasil é Buenos Aires, mas quando chegamos ao Rio de Janeiro e nos deparamos com aquele espetáculo da natureza, e nos aproximamos dos nativos, constatamos que os brasileiros são humanos e cheios de defeitos, feito o Obama… e tudo que é humano é normal…

    Salve

    Carlos

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    • 04/03/2012 em 12:07
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      Uai, Carlos, e ele num tá “mamando”? (O Alan, digo)

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  • 04/03/2012 em 10:16
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    Noga, querida.
    Hoje você está imperdível!
    Entre o brasil e os Estados Unidos existe a América Latina, (Sul, Central e México)! kkkkkkkkkkkk
    Diga para o Allan.
    beijo grande

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    • 04/03/2012 em 10:19
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      Obrigada, Vera! Bom domingo procê! (O pobre do Alan tá lá, rejuntando)

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