Recordar é trair

Alan sentado à mesa de jantar discorre longamente sobre a morte do homem condenado por seu apego ao chip de computador, segundo ele fim inevitável, pra dizer o mínimo, de nossa vã civilização conectada, a toques de vírus que a custo sobrevivem dentro do cérebro de alguma lagarta da qual se alimentam até que a matam, simbiose perfeita, enquanto a minha mente rarefeita se solta e vagueia à revelia do timbre de voz — impositivo e titubeante em um só movimento — que me condena, permeia, é, já amei este homem, amo ainda, quem sabe, mas ando exigente, intrépida, em ponto de fuga.

Pois é. Essa mania de pública vivência nos engessa a vida, cá entre nós. Como confessar um delírio que por si já nos intimida, e ainda por cima confessá-lo assim, cândida e globalmente?

Minha mente se solta e viaja no tempo até muito tempo atrás, sentada no chão no quarto dos meus pais. Dizem que a memória me falha, mas revejo tudo, em mínimo detalhe, a cor do tapete e o toque da madeira enquanto falo ao telefone com fio, em chamada de longa distância à revelia de meu pai, com meu primeiro namorado (tínhamos muito assunto, francamente), mas, pai, ele está pagando a ligação! O que mais poderia estar incomodando ao Abraão? Uma saudade pungente enobrece tudo, pai, mãe, o amor do garoto, todos mortos ou quase.

Eu o conhecera recostado no último banco de um ônibus paulista, revejo a cena com tons impressionistas: o chapéu marrom — duro, de aba, coberto de escudinhos como na época se usava — derrubado na testa, os jeans desbotados, dezesseis brilhantes anos, a camisa xadrez em tons de azul e cereja e muito mais, a frase solta que me serve de escolta, nossa, há quanto tempo isso não me perturbava: “Palavra que eu adorava aquela franja que você usava” — e que meu pai, por sinal, condenava, dizia que por causa dela eu ficaria cega. Delícia.

Penso no garoto que me deixou, nas cartas lindas que ele me legou e que num acesso de fúria destruí. Para sempre. Irremediavelmente. Lembro-me tão bem disso quanto de que, por conta de nosso desencontro, tive um precioso encontro com a mãe amorosa que nunca soube estar ali pra mim, a não ser com a honrosa exceção daquela noite na cozinha em que meu mundo tinha encontrado um fim, o primeiro abandono que sofri e o leite que ela esquentou pra mim.

Penso no garoto e nos dois dentes da frente tendo entre eles um vê invertido quebrado que lhe dava, dá, um charme a mais, será que ele também se lembra tão bem assim? A dor me faz voar longe, alto, onde a realidade se esconde de mim; tento ver no brinde sagrado de sábado outro sorriso, um rosto diferente: teria sido melhor do que este conflagrado casamento? O outro também rezava tão bem, me lembro bem, depois da refeição o Birkat Hamazon* de cor do começo ao fim, nossa, será que ele se lembra tão bem assim? Da serenata de Beatles que ele cantou pra mim?

Pois não faz muito tempo o reencontrei, os mesmos dentes, o mesmo ar de garoto, mas por dentro com certeza algum coração roto, como todos nós. Meu amigo mineiro se surpreendeu, quando me leu, com a força, o frescor, o ofensivo ardor adolescente que imprimi ao sexo maduro em meu romance real, ao nosso, digo, de Alan e meu, uma rara história de amor que hoje ameaça esboroar-se no patético destino de toda maturidade humana comum, habitualmente tediosa, seca, amargosa, que sina, hein? Fujo dela com fervor.

E no refúgio em que me aconchego, entregue à fantasia insana, refugo, enceno a lenda pregressa onde todo amor tem a primazia; vejo-me casada, como nos tempos de cólera de Garcia, com aquele namorado da adolescência, depois que as perdas da mais profunda vivência nos atirou finalmente nos braços procrastinados um do outro, tantas vezes desprezados por outros e também um pelo outro.

Mas qual. Cada vida é sempre a mesma vida, e aquele senhor vetusto, que aos meus olhos da memória parece o mesmo garoto, deve dia após dia reclamar de dores, incômodos, horrores, francamente, como é duro envelhecer!

A cada dia que passa menos vida por vir e pouca chance de graça; a não ser que, por um desvio irônico do destino, duas almas que se deixaram partir por quase nada tenham se mantido internamente incólumes, frescas, em algum recôndito ponto inteiras emocionalmente, virgens, intocadas, à espera de um milagre de ficção que as reconduza antes da morte ao encontro fatal…

Respiro fundo e me levanto da mesa. À guisa de rebeldia, evito a sobremesa; não me entrego como de hábito ao triste desencontro verbal que ao longo destes tantos anos tornou-se banal, desprovido de qualquer interesse, tornando-se finalmente apenas aquilo que realmente é: um mero desencontro cultural que o assombro da internet fez passar por irrelevante e natural, mas que aparentemente não é.

Contra tudo o que Alan desejaria — ao perdão de que gostaria, mas que nem morto pede, e que sem pedido formal faço questão de não conceder —, em vez de sentar-me com ele na franca intimidade de um bíblico dia de descanso, pego o notebook desafiadoramente, um texto me assalta, digo, preciso render-me, ele me critica, me reflete ridícula sem conseguir fazer-me rir como habitualmente, em seu gestual estudado de mímico criativo, “tão importante ela, diz que escreve, que é escritora”, emocional excretora, goza, vai, enquanto opaca frente a ele e transparente frente a mim mesma me deparo com o pecado explícito que não é servido à mesa: recordar é trair.

E um bom domingo procês.

*oração judaica cantada para dar graças após as refeições

 

 

Um comentário em “Recordar é trair

  • 02/10/2011 em 17:03
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    Noga querida.
    Assisti na sexta feira um filme que embora lindo, me deu uma tremenda tristeza. Amor Eterno. Duas pessoas que se amaram na juventude, se reencontram no final da vida. E se apaixonam novamente! Será que só acontece na ficção? Estou na esperança de que na vida real também aconteça. A esperança é a última que morre!
    A tremenda tristeza que me trouxe o filme foi ver que os italianos tem razão quando dizem que “la vecchiaia é brutta”! (espero ter escrito certo)
    bom final de domingo. beijo grande

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