Recado para Judas

ecclesiastes“O livro de Eclesiastes faz parte dos livros poéticos e sapienciais do Antigo Testamento da Bíblia cristã e judaica, vem depois do Livro dos Provérbios e antes de Cântico dos Cânticos. Tem seu nome emprestado da Septuaginta, e na Bíblia hebraica é chamado Kohelet. Embora tenha seu significado considerado como incerto, a palavra tem sido traduzida para o português como “pregador” ou “preletor”. Faz parte dos escritos atribuídos tradicionalmente ao Rei Salomão, por narrar fatos que coincidiriam com aqueles de sua vida.” (Fonte: Wikipedia)

Todas estas considerações são pessoais. A Bíblia, do ponto de vista literário, é uma coleção de diversos tipos de livros com temas diferentes. No livro de Jonas, por exemplo, Deus nos mostra que tem senso do humor:

“Deus fez crescer uma aboboreira sob a cabeça de Jonas… Na alva do dia seguinte Deus preparou um verme para secar a aboboreira. E mandou um vento oriental e o sol feriu a cabeça de Jonas…” É uma forma histriônica de se manifestar.

Eclesiastes é meu livro preferido na Bíblia. É irônico, realista e com os pés na terra. Inicia-se com uma frase esmagadora:

“Vaidade de vaidades, disse o Pregador; vaidade de vaidade, tudo é vaidade.” (1:2)

O que nos leva a considerar que saber muito, conhecer as verdades da vida, traz sofrimento.

“Porque na muita sabedoria há muita tristeza, e quem aumenta a ciência aumenta a dor.” (1:18)

Acredito que muitos de nós nos questionamos como é possível que pessoas sem qualidades, e até com muitos valores negativos, possam ter sucesso nesta vida. O pregador nos responde:

“O sábio tem seus olhos na frente, mas o néscio anda nas trevas, mas também entendi que a mesma sorte sucede a ambos.” (2:12)

Trocando em miúdos, não existe uma recompensa neste mundo pelas coisas boas ou más que fazemos, pelo menos recompensa divina. Estamos à mercê da sorte, como tem que ser. Uma das passagens mais profundas e fortes é esta, que nos deixa realmente pensativos, questionando muitas coisas:

“Porque o que sucede aos filhos dos homens, e o que sucede aos animais, a mesma coisa lhes sucede: Como morrem uns, assim morrem os outros, e todos têm a mesma respiração; o homem não tem mais que o animal. Porque tudo é vaidade. (3:19) Todas vão para o mesmo lugar; todos são feitos do pó e todos ao mesmo pó voltarão. (3:20) Quem sabe se o espírito dos homens vai para cima, e se o espírito do animal vai para debaixo da terra? (3:21)”

Se alguém em nossa época ou no passado escrevesse alguma coisa similar, seria considerado herege, com toda certeza. O nosso pregador era um homem que tinha passado por muitas experiências na vida, de forma atrevida para sua época, coloca de forma clara a realidade social, que ainda hoje vivemos.

“Também vi os ímpios, sepultados com honra; mas os que frequentavam o lugar santo foram esquecidos na cidade em que atuaram com retidão. Isso também é vaidade.” (8:10)

A profunda reflexão que desejo passar para todos nesta Quaresma é que avaliemos nossas metas, objetivos e valores, numa sociedade extremamente mercantilista, que nos fez crer que ter mais é sinônimo de felicidade. Isso é uma grande falácia para nos fazer consumir. O escritor desses aforismos nos leva ainda mais longe: nossas dúvidas e questionamentos são os mesmos de há muitos séculos.

“Vi, além disso, debaixo do Sol, quem nem sempre é dos ligeiros a carreira. Nem a guerra dos fortes, nem mesmo dos sábios o pão, nem dos prudentes as riquezas, nem dos eloquentes o favor; porém, todos têm a oportunidade e os infortúnios.” (9:11)

Qual a finalidade da vida? O que devemos esperar de nossa passagem fugaz por esta terra?

“Por isso eu louvo a alegria, já que o homem não tem outro bem debaixo do Sol, antes que coma e beba e se alegre; pois o acompanha em seu trabalho nos dias de sua vida que Deus lhe concede debaixo do Sol.” (8;15)

“A vaidade é o leitmotiv da nossa civilização, um teatro de marionetes do absurdo. Alguns homens traíram sua espécie, corrompendo o sentido de Liberdade, Justiça, Democracia, Deus, Inferno e Pecado transformados em meros verbetes para serem usados pelo poder e por construtores de deuses. Percebi claramente que a única forma de lutar contra o mal era destruir a fonte que o alimenta…” (Do romance Gangue)

Lembrem-se de que não somos eternos, e da mesma forma que a Judas, o que estamos fazendo nos será cobrado no último instante de vida.

Sim! O recado é para ti, que roubas da nação e de teu irmão, que enganas teu semelhante escondendo-te atrás de deuses para abocanhar seus trocados, que prometes o que não pode ser cumprido para te erguer sobre os homens. Não importa se és rei ou rainha, grande politico ou empresário, líder de alguma religião… Aos olhos da morte, és um simples mortal!

Meus amigos, talvez o pregador esteja certo. Tudo é vaidade. Vamos viver nosso dia como se fosse o último, sem nos preocuparmos demais com tantas veleidades. Nós que estamos próximos do final da viagem meditamos sobre essas coisas, como este homem que em tempos distantes chegou a estas conclusões.

Lembro o famoso ditado: “Carpe Diem” — uma frase em latim de um poema de Horácio, popularmente traduzida para “colha o dia” ou “aproveite o momento”. É também utilizada como uma expressão para solicitar que se evite gastar o tempo com coisas inúteis… sem medo do futuro.

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