Ré confessa

Confesso: desta vez não fui. Todos que me conhecem estavam esperando minha presença, já que sempre estive lá, mas, desesperançada, desta vez fiquei em casa acomodada em minha tranquilidade, esperando mais uma frustração. Mas ora vejam, para minha surpresa, em muitas cidades do país viram-se umas cabecinhas aparecendo de dentro do lamaçal, tais como flores de lótus. Vinham com suas carinhas pintadas de verde e amarelo. Senti um sopro de orgulho.

Nosso povo, hoje tão voltado para dentro de seus pequenos prazeres, sem saber de sua efemeridade, finalmente resolveu reagir. Sem liderança política, sindical ou qualquer outra, somente amealhados nas redes sociais, foram às ruas protestar contra a corrupção. Que alegria!  Da próxima vez estarei lá, bem na frente, como sempre. Vou procurar na minha caixinha de maquiagem meus velhos potes de cremes verde e amarelo e levarei no bolso para espalhar pelas ruas. Vou vestida de preto, pois estou de luto pela morte da vergonha. Deixarei o branco para o réveillon, pois pedir paz vestindo branco nos remete a um rebanho de carneirinhos que ao primeiro barulho se dispersam. Vou de cabeça erguida, na certeza de que estarei lutando pela dignidade e pela ética. Vou com meus amigos, pois procuro me cercar de gente do bem, Berenice, Bea, Verinha; Ana Maria vai acompanhar de cima, vou com minha família que procura pautar sua vida dentro dos preceitos de honestidade.

Quando organizamos uma reunião para falar sobre ética e cidadania, orientados por um certo ex-presidente professor, percebemos que estas andam de mãos dadas, pois aqueles que praticam a cidadania visando sempre o bem da comunidade a que pertencem, seja ela um condomínio, a rua, um clube, uma cidade, um país ou o mundo, têm sempre que estar orientados pela ética, pelo respeito ao próximo, procurando participar sempre para que seus pares menos favorecidos tenham oportunidades de acompanhar o andamento da sociedade a que pertencem, não destoando, e assim não necessitando violar nem as leis nem a própria ética, que é um conjunto de orientações que regem a vida em sociedade.

Quem conseguiu chegar até aqui sem se aborrecer muito, vai ganhar um refresco. Vou contar um caso que aconteceu comigo na semana passada e que trata justamente da convivência dentro de uma sociedade.

Cheguei ao clube naquele dia, estacionei junto ao meio fio — me preocupando em estar dentro do pequeno espaço demarcado que me cabia, lembrando-me do próximo a estacionar. Saí do carro, andei alguns metros e vi que tinha esquecido algo. Voltei a tempo de ver alguém chegando num carrão e fazendo barbeiramente uma baliza, batendo com violência na frente de meu carro. Bati no vidro para avisar e recebi como resposta uma gritaria cheia de desaforos. Quando eu avisei que aquele senhor que pensava ser um garotão — pois a atitude, apesar dos cabelos grisalhos, era a de um moleque adolescente — havia batido no meu carro, ele foi para  frente, engatou a ré e bateu com mais violência ainda; acelerava freneticamente para mostrar toda a sua virilidade.

Saiu do carro e continuou gritando comigo, dizendo que eu nada  tinha a ver com isso já que o carro nem era meu, pois ignorava dentre outros milhões de coisas que o veículo me pertencia. Quando se deu conta de que era, começou a gritar impropérios que não repetirei para poupar os leitores daquilo que eu tive que ouvir. Ah! Mas, eu não sou mulher de ficar quieta. Acredito nas instituições e chamei a segurança. Agora estou aguardando que aquele sócio seja exemplarmente punido.

O que mais me irrita é que eu estava adentrando o clube para trabalhar no Departamento de Assistência Social daquela entidade. Ninguém merece.      

 

 postado também no meu blog

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

11 comentários em “Ré confessa

  • 31/10/2011 em 09:40
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    Se gostam de crônicas, convido vocês para o lançamento de “Crônicas e contos cruéis no dia-03/11/11 (Livraria da Vila; Al. Lorena, 1731 SP SP); visitem tb o meu blog(ieccmemorias.wordpress.com) que sempre publico as crônicas da Priscila, antiga colega de escola.
    Abraços, wilma(schiesari-legris)

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  • 24/10/2011 em 19:06
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    Oi, meus parabéns! Quando possível me diz o nome do “cavalheiro” sócio que cometeu esse absurdo! Não precisamos de gente assim no Clube!
    Abs
    Hans

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  • 23/10/2011 em 16:28
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    Olá Priscila,
    Suas crônicas são sempre instigantes. Ética e cidadania estão cada vez mais em baixa. Precisamos sim, pegar nossas tintas verdes e amarelas e ir à luta. Precisamos também não deixar passar essa coisa de velhos adolescentes que se ainda tem o centro da terra no próprio umbigo! Fez muito bem de fazer o barraco!
    beijo grande

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  • 23/10/2011 em 15:03
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    Querida Pri,
    É inacreditável o que aconteceu.
    Penso sempre nas crianças, já que tenho 2 filhos pequenos, que ficam sujeitos a serem atropelados por pessoas como este sr.
    Ele deveria ser expulso do clube.

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  • 22/10/2011 em 19:57
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    Querida Pri: Não vale a pena se estressar, infelizmente tem gente que SEMPRE se acha melhor que todos.

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  • 22/10/2011 em 11:52
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    Obrigada por me comparar à inesquecível D. Lurdes. Também me orgulho de nossa amizade.

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  • 22/10/2011 em 08:41
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    Eita mulher de fibra, acho que por osmose adquiriu um pouco de sangue Urucuiano, talvez da amiga Lourdes que ja se foi, mas é assim que se faz, não se abaixa a cabeça nunca e bola pra frente, tenho orgulho de ser seu amigo.
    Saudações Urucuianas
    Hosana Faria

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  • 22/10/2011 em 00:56
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    AFFFFFFFFFFFFFFF…CADA UMA!!!!! NINGUÉM MERECE MESMO!!!
    ESQUECE ,NÃO VALE A PENA!!! BJS

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  • 21/10/2011 em 19:49
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    Sabe de uma coisa?
    Ja participei em outras oportunidade, mas como voce, nesta vez fiquei em casa.
    Na próxima, farei tudo para estar presente.
    Agora…
    Quanto ao que aconteceu no clube, voce foi muito boazinha, deveria fazer um B.O. na delegacia de polícia também, para que ele seja punido pela “sociedade”.

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  • 21/10/2011 em 17:22
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    Suas crônicas ficam a cada semana mais divertidas e interessantes! Parabéns pelo tema, parabéns pela oratória, e parabéns pelo netinho lindo (bom, não podia deixar passar!). Só não tenho mais orgulho, porque acho que o cidadão bem merecia uma chavada no carro… brincadeira (bom, que merecia, merecia)… nossa função é respeitar as regras, e continuar acreditando que as autoridades farão o melhor para os cidadãos de bem, e punirão os que erram!

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  • 21/10/2011 em 17:17
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    O meu comentário para o relatado na sua crônica, Priscila, é “SEM COMENTÁRIO”. O fato descrito fala por sí.

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