Ravi, o pintor do Ganges

por Manuel Funes*

I

Ravi, era este seu nome, sempre tinha sido um pintor. Conta-se que ainda no ventre sua mãe se incomodava com os movimentos esquisitos das pequenas mãos. Ao nascer, o que mais chamou a atenção foi o formato longo e perfeito de seus dedos, os movimentos coordenados que rabiscavam o ar; no verso seus olhos se perdiam observando alguma coisa imaginária, parecia estudar detalhadamente tudo que o rodeava. Em um dos momentos notáveis, aos três anos pegou no chão da cozinha um toco de carvão e começou a desenhar rostos com perfeição; ao final todos se reconheceram com admiração nos traços negros, alguns até queriam arrancar as lajotas para levar para casa e pendurar na sala.

Astrólogos e magos do Reino o visitaram, suas exclamações de assombro e incredulidade redobradas. Maravilhoso! Esta criança é a reencarnação de Shiva! Os mais desconfiados falavam coisas assustadoras: Possessão do Demônio! As ninfas do lago lançaram feitiços nele!

Com o tempo, sempre é assim, as pessoas achavam natural que as pinturas de Ravi fossem mais reais do que a própria realidade. Suas telas exerciam uma atração poderosa em alguns e repulsão insana em outros. Ravi brincava com os elementos da natureza, sem malícia ou surpresa. Todos nós em algum momento perdemos essa habilidade, somos por algum motivo obrigados a abandonar este mundo mágico, mas com ele isso nunca aconteceu; cresceu em talento e técnica, porém seu coração puro e sua visão da realidade permaneceram.

Sua mãe o levou para estudar com um grande mestre da pintura, Abha Abha. Apresentou o filho, suplicando que fosse recolhido como aprendiz, Abha Abha aceitou, já que tinha escutado falar de suas habilidades extraordinárias, mas, como podemos saber que coisas fora do comum gravitam em torno desses seres dotados, que vêm à terra por um destino insólito?

Após alguns dias, Ravi retornou a casa, mostrando sinais de tristeza e confusão extremas. Sua mãe em vão tentou descobrir os motivos. Curiosa, viajou até a aldeia onde o mestre morava para descobrir o que tinha acontecido. Ao chegar sua surpresa foi imensa, longas faixas de tecidos pretos cobriam as janelas, olhares assustados fincavam-se nela. Ficou petrificada com os gritos dos moradores: “É ela! É Ela! A mãe do maldito!”

As vozes vinham de todos os lados e a turba a rodeava de forma ameaçadora. Um dos alunos se adiantou olhando-a com furor, “teu filho trouxe desgraça!” Ela perguntou com voz tremula, “me diz, o que fez meu filho para ganhar tanto ódio e recriminação?” E o rapaz, em lagrimas, “teu filho, mulher, é a causa da morte de nosso Mestre!”

“Ravi nunca mataria uma criatura deste mundo, eu sei!”, disse a mulher, jogando-se no solo e cobrindo seus cabelos com terra. Os lábios do rapaz desafogaram seu coração, “pior que isso ele fez, nosso mestre se enforcou, atentou contra a própria vida, no momento em que soube que nunca pintaria como ele!”

A partir daquele fato, solidão e contido desespero tomaram conta do jovem. Tinha percebido o que todos os gênios descobrem cedo ou tarde: que até o fim de seus dias seria um solitário, estrangeiro entre seus semelhantes, que sua visão do cosmos, natural aos seus olhos, era vertigem fatal para os outros.

Ravi conseguia mergulhar nas profundezas dos bastidores e retornar ileso com suas misteriosas visões, plasmando-as na tela de algodão.

 

 

II

A primavera despertara de seu sonho, com suas cores brilhantes. Fachos de luz se refletiam nas águas do Ganges, no bosque, perto dos altos bambus e da relva rasteira em forma de serpente onde Ravi costumava se deitar, perceber os objetos. Seu olhar profundo penetrava nas entranhas dos alvos, como flechas que sempre acertam em cheio; com o passar do tempo, distinguia o momento em que sua percepção adentrava o portal de um mundo que parecia ser mais denso do que aquele em torno dele, em seu estado normal de consciência.

As imagens se derretiam como gelo à luz do sol; no seu lugar se levantavam outras, semelhantes, palpáveis para o seu espírito, aquelas que ele, em seu retorno ao mundo comum, pintava de forma desesperada para se convencer de que tudo aquilo tinha acontecido. Algumas entidades, parecendo próximas aos olhos ampliados, manifestavam-se de forma natural.

Uma delas era a flor de Lótus que crescia no remanso do rio. Sua cor violácea vibrava até fazer parte da tela exterior. Nesse momento, o encanto do tempo se estilhaçava e tinha um único rosto, o presente; acontecimentos pretéritos e futuros colidiam num redemoinho, onde mitos, filosofias e religiões se desmanchavam como pétalas de uma flor murcha, sem vida.

O medo da verdade penetrava seu corpo como agulha candente, uma dúvida, qual das visões seria a verdadeira? E se a humanidade estivesse presa num mundo ilusório? Como podia ser que um pobre homem, feito de sangue e fé, sobrevivesse à energia do golpe brutal de uma realidade alternativa, que talvez fosse a fonte da outra, esta em que estamos acostumados a viver?

Suas pinturas caminhavam para o hiper-realismo, aquele que Dali tentou capturar. Cada observador enxergava formas diferentes, que variavam de acordo com seus filtros interiores; seu pincel caleidoscópico produzia uma obra original para cada um, num único suporte: era como se um número infinito de figuras fosse derramado sobre aquele tecido inerte de fibras de algodão e linho, aguardando para pular nos olhos, como feras.

Na beira do rio podia conversar com os viajantes de terras distantes, que acalmavam sua sede com as águas puras e frescas. Uma tarde, um velho monge samana não conseguia se ajoelhar para beber; Ravi pegou um pouco de água na sua taça de madeira e levou à boca do penitente, Ele bebeu e se retirou, com o sol nas costas irradiando misteriosas orações: “Obrigado, um dos caminhos da santidade é a Arte!”

 

 

III

No início do inverno, quando os ventos gélidos do norte corriam para os vales, as pinturas do jovem não podiam ser mais compreendidas. O grau de abstração causava uma sensação de vácuo insuportável, cada imagem era um abismo que podia sugar a alma. O Marajá de Norebur soube do prodígio e mandou chamá-lo para ser um dos artistas na decoração de seu palácio, aquele que deveria levar boas novas ao mundo.

No dia marcado, junto com o primeiro arquiteto, Ravi visitou a cúpula da origem do universo. Era enorme e perfeita, alva e profunda, a tela perfeita para uma obra eterna, revestida de ouro e marfim; nela pintaria o maior mural jamais visto. Um Ravi atônito escutou o Marajá: “Artista! Faz a partir deste momento o derradeiro trabalho de teus dias entre nós!”

Pelos seus cálculos, levaria em torno de cinco anos na base e mais dez para concluir. Dezenas de auxiliares estavam à sua disposição, materiais nobres de todas as partes do mundo, doados por ricos e pobres — com a única intenção de serem parte de uma obra magnífica e mística, que se transformara num local sagrado de peregrinação. Alguns fenômenos inexplicáveis aconteceram. Um pária cego e leproso ficou no meio do monumento e caiu de joelhos, clamando para o afresco. Nesse instante, uma nuvem azulada desceu encobrindo a todos, uma energia densa e imaterial que levou consigo todos os males e pecados dos presentes, uma transmutação do corpo e da alma nunca antes vista. A notícia se espalhou por todos os cantos do mundo. A fama de Norebur estava estabelecida.

À medida que avançava, Ravi tinha o pressentimento de que aquela enorme pintura de forma esférica, a quase cem metros de altura, seria sua obra definitiva. As cores se misturavam até se tornarem iridescências inimagináveis; cada pincelada parecia um sopro divino que infundia vida nas figuras inanimadas, um fogo que queima a consciência, um vento que agita as ondas do sentimento, lágrimas que consolam os despossuídos… uma esperança que nos faz chorar. O mundo de Ravi agora tinha vida, não era mais uma ilusão.

O dia marcado para o termino da obra estava próximo. Todos queriam estar presentes para testemunhar a última pincelada, que daria por terminada aquela ousadia magnífica dos homens. No ocaso do último dia, uma luz perfeita atravessava os pórticos. Naquele momento em que as nuvens e cores brincam, fazendo-nos rir, Ravi levou o seu pincel preferido até uma gotinha de orvalho que ia deslizando sob a pétala de uma flor de Lótus.

Era um pequeno reflexo que a tornaria semitransparente. E nesse lapso infinitamente fugaz, as leis da natureza se quebraram: a realidade não podia existir em dois lugares ao mesmo tempo. Um som surdo e cristalino penetrou, arrobando todas as crenças; o real se descascava como uma pintura, tinta seca e velha. Sem conseguir mais segurar sua própria existência, bilhões de pontos policromáticos afluiam até a cúpula, que os sugava com apetite insaciavel, sem dor, sem culpa; um mundo se enrolava em outro e a vertigem do fim dos tempos era agora.

Ravi observou uma figura no centro do templo. Era-lhe impossível falar ou se mover, o ciclone de forças era avassalador, sua mente escutou um pensamento, a voz espiritual do monge samana: “Ravi! Ravi! Não foi o cosmos que mudou… foste tu!”

A lenda conta que nesse dia, ao terminar sua obra, um pintor chegou ao Nirvana.

 

 

* Manuel Funes é escritor de livros técnicos e novelas curtas. Nasceu em San Salvador, El Salvador. Formado pela UFPR em 1983, fez estudos de extensão em informações estratégicas, política e religiões comparadas. Atualmente mora em Curitiba e trabalha como Consultor de BI. Seu livro Gangue será publicado em breve pela KBR.

 

 

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

3 comentários em “Ravi, o pintor do Ganges

Deixe você também o seu comentário