Que me perdoe o barão!

Terminaram na semana passada as maravilhosas olimpíadas de Londres, que custaram metade do que custarão as do Rio de Janeiro. Para as nossas, já estão garantidas: as medalhas de ouro para a corrupção; prata para o descaso com esporte nos colégios e faculdades e incentivos a jovens atletas; e bronze — bronze, mas com alguns quilates de diamantes, afinal, estamos no Brasil — para o nosso Comitê Olímpico.

Quando o francês Pierre Frédy — mais conhecido por seu título nobiliárquico, Barão de Coubertin —, fundador dos modernos jogos olímpicos, criou a sua máxima de que o importante era competir e não vencer, muitos não entenderam o que o barão quis dizer: o importante é competir com a finalidade de vencer. Nenhum atleta entra em competição se não tiver o objetivo de vencer; compete para vencer, não para fazer figuração ou passear, salvo, é verdade, grande parte dos nossos que, acompanhados da maior delegação de dirigentes e diretores de confederações presentes na olimpíada, foram passear na encantadora e histórica cidade de Londres.

E tome de jogar pingue-pongue, o pingue no passeio e o pongue no bolso do contribuinte. O tal tênis de mesa, que nos meus tempos de colégio se chamava pingue-pongue, tem um atleta mais do que chato, o senhor Hugo Hoyama, um exemplo clássico.

Quando embarcava no píer da Praça Mauá para as Olimpíadas de Helsinque, em 1952, nosso glorioso atleta encontrou-se no cais com o velho Barão de Itararé que, colocando suas mãos nos ombros do nosso jogador, soltou a sua máxima “de onde  menos se espera, daí é que não sai nada”.  Desde então, nosso valente caipira compareceu a todos os jogos realizados, sempre com um séquito de dirigentes, esposas e agregados da confederação olímpica brasileira. O resultado, mais do que esperado, é de uma simplicidade cristalina: ele faz pingue, o adversário faz pongue, ele perde, todos passeiam e se divertem e nós, os eternos imbecis, pagamos a conta.

O que vai fazer numa olimpíada um atleta de um esporte de precisão absoluta, como tiro ou arco e flecha — esporte que teve uma grande audiência na época do Guilherme Tell —, quando existem sessenta ou mais atletas no mundo que têm uma pontuação superior à dele? Vai passear, com toda a delegação da federação brasileira de tiro; faz pingue — talvez consiga acertar o alvo — e a confederação faz pongue no nosso bolso. E nós aceitamos, numa boa!

Foram investidos no esporte no Brasil, durante o período entre as olimpíadas de Pequim e as de Londres, a pequena cifra de 1,765 bilhões de reais, enquanto no período de preparação para as olimpíadas de Pequim,o contribuinte só morreu em 280 milhões de reais.

Um doce para quem acertar o nome do ministro do esporte durante essa festa do boi gordo. Levou o doce quem disse o amigão do Lula, seu ministro preferido, Orlando Silva de Jesus, que criou o primeiro constrangimento para a presidente Dilma Rousseff, tal a insistência do ex-metalúrgico em manter no cargo o ex-presidente da UNE. E de gastos em gastos, ficou o pingue para eles e o pongue para nós.

Enquanto isso, a pobre Inglaterra — país sem tradição, sem cultura, sem passado, tendo como político maior o insignificante, despreparado e pouco patriótico Sir Winston Churchill, que nem de longe pode ser comparado em magnitude ao nosso Zé Sarney, rei do Maranhão, um povinho que nunca soube o que é uma guerra, e muito menos ganhá-la, que quando criou uma revolução foi algo sem nenhuma repercussão para a humanidade e a que intitulou pomposamente “Revolução Industrial”, que nunca se preocupou com reformas sindicais, que não investe uma libra em educação, em pesquisas, em saúde, em transporte de massa ou em esportes — teve a ousadia de gastar a quantia absurda de 834 milhões de reais para trazer 65 medalhas e ser a terceira colocada nos jogos, e, pior ainda, começou seu projeto olímpico em 2000, depois da desastrosa apresentação inglesa nos Jogos de Sydney.

Santas bestas esses ingleses, será que não sabem que para se fazer uma geração olímpica, ganhar medalhas, ter uma representatividade, bastam quatro anos? Segundo o Nuzman, presidente eterno do Comitê Olímpico Brasileiro, está tudo em cima para brilharmos em 2016, no Rio de Janeiro, quando o mundo se curvará diante de uma cidade limpa, ordeira, respeitadora das posturas municipais, provida de uma fantástica rede hoteleira, de um invejável serviço de saúde, pronto para atender ao turista que tenha a infelicidade de sofrer algum problema. Com nosso trânsito exemplar, melhor dizendo, de matar inglês de inveja, mostraremos o que podem fazer vans moderníssimas, que são o ápice do nosso supereficiente transporte de massa; enfim, vamos botar pra quebrar, com um pingue para as empreiteiras e um pongue na pequena carga tributária que impera na Terrinha.

E acabaram de criar a Bolsa Ouro para se juntar à Bolsa Família, à Bolsa Ditadura, à Bolsa Presidiário, enfim, ao festival de bolsas populistas que assola o país. Quanto mais populista, melhor, porque a massa ignara vai continuar votando nos paisinhos que sabem que investir em saúde, cidadania, respeito, ordem e, principalmente, em educação, é tirar o povo da sua ignorância, fazê-lo pensar, entender o que se passa, exigir mudanças, cobranças, punições e prisões. Educar o povo é matar a galinha dos ovos de ouro.

Parece que o atleta vai receber uma grana preta, entregue diretamente a ele para gastar com treinador, nutricionista, fisioterapeuta, enfim, onde desejar. É a mais fantástica e revolucionária descoberta já feita em planejamento esportivo. Agora, quanto do que sairá do pingue dos dirigentes do nosso esporte chegará ao pongue dos atletas, isso é outra história, mas também já é querer demais achar que vai tudo chegar direitinho.

E o pobre barão que me perdoe; sua intenção foi a melhor possível, acreditou no seu ideal, mas é que ele não conhecia o Brasil… Aqui, meu caro barão, mais importante do que competir, é levar o ouro para casa, de preferência bem escondido, até mesmo na cueca, e guardá-lo com muito carinho em um paraíso fiscal.

E ficamos combinados assim: pingue para nossos políticos e muito pongue para o povo.

Saudações olímpicas!

 

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