Quando o passado adormece

Há poucos dias, li a coluna de Fernando Reinach (Estadão, 05/01/2012), “Como apagar memórias sem deixar traços”. Gosto do estilo e do conteúdo dos textos dele; esse, em especial, me chamou a atenção: relata os avanços da ciência no uso de medicamentos para remover medos patológicos e traumas. Não quero entrar na discussão científica da matéria, por não ser este o objeto de minha reflexão, mas isso não me impede de indicar a leitura desse cientista-escritor, quemuito admiro.

Penso, antes, neste mundo em que uma “pílula mágica” que ingeríssemos pudesse apagar de nossa memória tudo aquilo que nos feriu, magoou e deixou marcas: um amor perdido, uma ofensa recebida, a tristeza e o sofrimento que acompanha a partida de alguém próximo. Seria um mundo onde o “coro dos contentes” prevaleceria, onde a dor se transformaria numa lembrança distante, descrita em velhos livros de História. Neles, o capítulo sobre o século XXI, tão distante e irreal, faria menção a um mal longínquo que devastava a população nessa época pregressa: “Eram homens e mulheres que usavam parte de suas próprias secreções, as lágrimas, como as chamavam, para aliviar o pesar que os afligia. Com o tempo , estas manifestações também começaram a tornar mais e mais raras, até que, como não eram vistas, foram consideradas extintas.”

Não gosto dessa visão de futuro; contudo, não quero dizer que sou a favor da dor e do sofrimento. Sabemos que, em momentos extremos ou de grande dificuldade, somos gratos aos fármacos e analgésicos que aliviam o padecimento e as doenças, e nos beneficiam. Já o atendimento médico, acompanhado de um diagnóstico correto, é necessário e imprescindível diante das dores físicas ou da alma que por vezes acometem o ser humano.

Acredito, entretanto, que nossas lembranças fazem parte de nossa história. Causa-me temor a possibilidade de, ao tentar apagar uma determinada passagem em nome de uma suposta felicidade, perdermos algo além do necessário ou do prescrito. De fato, corrermos esse risco.

Somos constituídos pelo nosso passado, por nossa trajetória, uma obra escrita por nós com o auxilio de outros vários, que constituem conosco a pessoa que nos tornamos. Um mundo sem dor não é real. Vivemos e nos deparamos com ela desde que nascemos. Ao sermos expulsos desse “paraíso”, nos vemos movidos por sensações e estímulos que desconhecíamos.

Iniciamos a viagem neste planeta que nos é estranho, e buscamos com todas as nossas forças aquela que nos acolhe e alimenta, a mãe natureza. Nem todos têm a mesma “sorte” ou destino, mas muitos vencem essa primeira etapa da vida. Com o tempo e nossas vivências, vamos descobrindo novas fronteiras. A inocência se deixa ficar, ou nos é retirada.

Um dia, nos sentimos despertos ou impelidos por uma força, uma paixão ignorada. Nosso coração dispara, nos sentimos magnetizados por um outro ser. Um desejo até então adormecido e um calor que não é o do deserto surgem diante de nós, e brilham, por vezes  nos cegam como se olhássemos diretamente para o sol. Da fusão desses dois eventos, unidos como se fossem um, ocorre um fenômeno. O sentimento acontece, irrompe e nos arrebata.

O tempo segue seu percurso cósmico: está ao meu lado, à minha frente e no meu passado. Neste mesmo coração que aprendeu a amar, a tristeza tem um lugar, junto a uma perda, na expectativa de uma partida futura. Mas não me deixo levar pelo futuro, e guardo o passado com cuidado. Olho, vejo onde estou e tenho a certeza de que não quero esquecer.

 

 

4 comentários em “Quando o passado adormece

  • 15/01/2012 em 11:07
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    Olá Gustavo.
    Excelente a sua crônica.
    Um mundo sem dor não é real! É isso aí!
    No planeta que atingiu a cifra de sete mulhões de pessoas, e o que mais aflige as pessoas é a solidão, é preciso encarar a vida sem aditivos.

    Parabéns!
    beijo grande

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    • 15/01/2012 em 12:51
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      Oi Vera
      Senti sua falta!
      Obrigado por suas palavras!
      Bjo grande!

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  • 11/01/2012 em 23:42
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    Caro Gustavo.
    Parabéns pela crônica. Está excelente. Sempre leio e gosto de sua escrita.

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