Quando o amor demora a chegar

O pai chegava tarde em casa. Eu ouvia a porta se abrir, reconhecia seus passos arrastados vindo do trabalho. Ouvia o barulho das chaves jogadas em cima da mesa. Em seguida, tudo era igual, a geladeira era aberta, a garrafa de leite posta sobre a mesa. A mãe chegava com seu pisar silencioso, perguntando a ele como fora o dia. Ele responderia simplesmente:

— Tudo bem!

Ela o deixaria jantando sozinho e voltaria para a sala, para sua costura interminável. Depois do jantar ele viria até o meu quarto, abriria a porta. Nesses momentos eu quase não respirava. Ele olhava para mim e para meu irmão e fechava a porta silenciosamente. Meu pai era assim calado, eu esperava que ele me abraçasse, mas ele ficava quieto. Na mesa do café, lia o jornal em silêncio. Assim que acabava a leitura dobrava-o e o colocava ao lado da xícara ainda fumegando. Levantava-se, pegava o casaco já surrado e se despedia de minha mãe; antes de sair desarrumava o meu cabelo e do meu irmão, e recomendava:

— Se comportem, meninos!

Eu guardava a sensação da sua mão sobre mim e o que ele podia me dar de carinho no coração. Minha mãe acabava de lavar a louça, arrumava nosso lanche e nos mandava para a escola. Eu e meu irmão menor saíamos para a rua sem muita vontade. Tínhamos que andar quatro quarteirões até chegar lá. Nossa cidade ficava nas montanhas e nessa época do ano o inverno nos envolvia devagar. Caminhando contra o vento, na frente do meu irmão menor para protegê-lo do frio, eu pensava na distância que me afastava do meu pai e que eu não conseguia vencer. Sabia do amor que tinha por mim, mas parecia que este não me alcançava. Enquanto caminhava e crescia, o tempo não me trazia nenhuma resposta. Eu já estava com 18 anos, e aguardava na sala meu pai acabar de ler o jornal.

— Pai já acabou de ler?

Ele olhou para mim com surpresa, mas sem emoção.

— Já, por quê?

— Porque hoje é um dia importante para mim. Hoje sai o resultado do vestibular e eu quero ver se passei!

Com o mesmo olhar de surpresa ele me esticou o diário. Abri o jornal no anexo que trazia os resultados. Meu nome estava ali: Paulo Ferreira dos Santos. Logo abaixo do nome do curso: Direito.

Meu pai, minha mãe e meu irmão me olhavam, esperando a minha resposta.

— Passei, pai!  — Eu disse sem querer, quase sem acreditar.

Meu irmão gritou de alegria, minha mãe levou o pano de prato junto aos olhos para esconder as lágrimas. Meu pai se levantou e me abraçou, eu o abracei como se aquilo salvasse minha vida. Quando nos separamos, nos olhamos um nos olhos do outro, e nos reconhecemos. Nos vimos assim meio sem jeito. Ele mexeu no meu cabelo como fazia quando criança e saiu.

Pouco tempo depois fui para a capital, iniciar o meu curso universitário. No início, voltava uma vez por mês para ver os “velhos”. Mas consegui um estágio, uma namorada e novos amigos. Pouco tempo depois meu irmão veio se juntar a mim no apartamento que eu dividia com alguns colegas. Minhas visitas ficaram mais esparsas, mas, para mim, nada tinha mudado muito desde que eu partira.

Só da última vez em que estive em casa percebi que meu pai estava mais lento no caminhar, seus cabelos estavam esbranquiçados, mas seu jeito silencioso continuava o mesmo. Me perguntava sobre o curso, sobre o trabalho. Me dizia da importância de fazer tudo corretamente, pois eu carregava o nome dele e da família. Depois, era só o silêncio que eu já conhecia.

Mas um dia, chegando no apartamento, vi um telegrama em cima da mesa.  A mensagem de urgente impressa no verso me preocupou. Abri:

“Seu pai não está bem, venha!
Mãe.”

Cheguei em casa no mesmo dia, junto com meu irmão. Fui direto ao quarto e não identifiquei aquele senhor ali deitado; mas depois seu olhar se encontrou com o meu e eu reconheci:

— Pai!

Ele tentou falar algo, mas seu olhar mostrava aflição.

— Ele não consegue falar, filho, mas pode te compreender! — Explicou minha mãe, com tristeza.

Sentei ao seu lado, segurei sua mão, passei a minha nos seus cabelos e ficamos ali, no silêncio tão conhecido de nós dois. No dia seguinte ele partiu, silenciosamente como era seu jeito. Uma dor que eu então desconhecia me apertou o peito. Um pedaço de mim foi junto com ele.

Hoje, já faz muito tempo que ele partiu, sentado em minha casa me levanto e vou ver meu filho.  Abro a porta do seu quarto, ele dorme tranqüilo. Fecho-a devagar, me lembro de meu pai e sinto saudade.

 

 

8 comentários em “Quando o amor demora a chegar

  • 15/12/2011 em 13:26
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    Lindo!!!! Precisamos nos lembrar de sempre buscarmos e promovermos momentos de aproximação em relação aos nossos filhos… tudo passa muito rápido… cada encarnação nossa é muito breve diante da eternidade de nosso espírito e enquanto estamos unidos a estas pessoas que agora compõem nossa família, precisamos dedicar muito amor a todas elas!!!

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  • 14/12/2011 em 14:20
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    Muito lindo o texto…

    É uma pena que não podemos tê-los pra sempre… Muito triste quando as pessoas só percebem isso quando já não tem mais tempo….

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