Quando o amor acontece

Novamente, o cinema. Tenho em casa filmes que comprei, para assistir livremente e jamais ter que devolver na locadora. O primeiro deles foi “O paciente Inglês”, que ganhou nove Oscars, incluindo o de melhor filme, em 1996. Assisti incontáveis vezes, inteiro e aos pedaços, por causa do encantamento que me causava, sem perguntar por quê. Era uma história de amor, sempre gostei de histórias de amor, mas era justificativa insuficiente. Deixa pra lá.

Depois, vieram outros para ocupar o lugar do “filme para ver antes de dormir”. É de se esperar que o clássico “Casablanca” esteja entre eles. Está. Até que, recentemente, enquanto revia Casablanca, comecei a perceber as semelhanças: clima desértico, muito sol, calor, a 2ª Guerra Mundial já lançando sua sombra negra, cada vez mais próxima dos personagens, que não estão diretamente envolvidos porém mantêm algum vínculo com ela e tal.

Em “Casablanca”, um casal que se apaixonou em Paris no início da guerra se reencontra por acaso no Marrocos — ela agora casada com um herói da resistência, tornando pois o que seria o “felizes para sempre” num ressentimento feroz, dele, e contenção, dela, no encontro do presente. No “Paciente”, ele faz mapas do norte da África com um grupo de exploradores do local por motivos diferentes. De onde estão, precisam de aviões, daqueles primeiros, pequenos, para as distâncias maiores. Em ambos, os aviões são um personagem silencioso à parte.

O “Paciente” dá sinais de incômodo com a chegada do casal. Diz que são desnecessários. Depois de uma volta para mostrar a região ao casal, um círculo de vinho e histórias à noite, fica sabendo que o marido vai voltar ao Cairo por uns dias. Não gosta, e fica atento. Pela manhã, vê o marido se despedir da esposa — logo, ela vai ficar. Ainda se arrisca a chamar o marido e perguntar se não seria melhor levá-la junto. Negativo. De perto do avião que vai partir, ele olha para ela de pé, perto das tendas.  Ela olha naquela direção. É aí que ele então percebe que está atado àquela mulher pelas vísceras. O amor já aconteceu, sem pedir licença.

Em ambos os filmes há uma separação do casal, forçada por poderosas circunstâncias, e os dois casais se reencontram anos mais tarde. O reencontro incendeia rapidamente a ligação inquebrável entre os dois casais, em uma circunstância que torna impossível o final feliz da união entre pares. Sofrem todos. Aproxima-se uma perda ainda mais dolorosa, pois estão cientes de que se amam e, portanto, se amarão para sempre, mas serão definitivamente separados.

O amor, porém,  quer se mostrar. Quer ser vivido assim como ele é, continua implacável. Parece um sentimento, mas é uma força. Acontece quando não há empecilhos e flui sem desvios, abrindo o coração dos participantes para ver o sagrado no outro. E é claro que é eterno.

Assim, no caso do “Paciente”, há um acidente e ele a toma nos braços e repara que ela está usando um cordão típico do Cairo, presente dele, com um pingente que é um dedal cheio de açafrão. Ele fica surpreso, e ela diz que sempre o usou. E arremata dizendo que sempre o amou. Ela morre, mas o amor dela se se instala, eterna chancela feliz  no coração dele.

Em “Casablanca”, ela faz de tudo para conseguir os dois vistos de saída para Lisboa, a salvação dela e do marido, inclusive lhe apontar um revólver. É claro que não consegue atirar, e acaba confessando que está confusa porque é a ele que ama, mas não pode abandonar o marido, o corajoso líder da resistência francesa, que ficaria acéfala e certamente deixaria muita gente entregue à morte! É demais para ela, que pede que ele decida pelos três. De posse do amor dela, ele até volta a ser o idealista que um dia foi, e entrega os vistos da fuga. Ela fica feliz, porque também amava o marido, e ele, porque ficou sem ela, mas recuperou o amor dela, que também se instala, eterna chancela feliz  no seu coração.

Bom fim de semana!

 

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