O Pulitzer e o dry martini

No último sábado, lendo a seção “Panorama” da revista Veja., lá naquele cantinho de “o que desce e o que sobe”, me surpreendi ao ver Livros de Ficção em baixa! Uau! O que é isso? A realidade está tão sobrenatural, com tantos descalabros de corrupção, que já ninguém mais lê ficção? Lá estava a notícia: “Pela primeira vez em 35 anos o Prêmio Pulitzer, um dos mais importantes de literatura do mundo, decidiu não contemplar ninguém nessa categoria.”

O Pulitzer é um prêmio americano outorgado a pessoas que realizam trabalhos de excelência, basicamente, nas áreas do jornalismo, literatura e música, administrado pela Universidade de Columbia, em Nova York. Foi criado em 1917 por desejo de Joseph Pulitzer que, na altura de sua morte, deixou uma boa herança para a Universidade. Parte do dinheiro foi usada para começar o curso de jornalismo na universidade em 1912; outra parte continua mantendo o prêmio.

Estaria a prosa americana enfrentando uma crise? — é a pergunta natural que nos ocorre. Foram três os livros escolhidos, entre mais de 300 títulos. Responsável pela escolha final dos vencedores, o Conselho do Pulitzer informou que nenhum dos três atingiu a maioria necessária exigida, ou seja, dez votos entre dezoito.

Os três finalistas eram Train Dreams (Sonhos de Trem ou Sonhos no Trem?), de Denis Johnson, definido pelo comitê avaliador como “um romance sobre um dia de trabalho no velho-oeste americano, com olhar calmo e compassivo sobre suas glórias e terrores”; Swamplandia! (A terra do Pântano?), de Karen Russell, descrito como “um conto de aventura sobre uma excêntrica família, desorientada na condução de um problemático parque temático de briga de jacarés, com narração de uma heroína sábia demais para seus 13 anos de idade”; e The Pale King (O Rei Pálido?), romance póstumo de David Foster Wallace (1962-2008), que explora o tédio e a burocracia no local de trabalho americano.

Lendo estes resumos, fizesse eu parte do conselho e creio que também não iria votar em nenhum deles, mas não acho que a prosa americana esteja em crise. Talvez as histórias chatas estejam! Ninguém tem mais tempo para textos longos e chatos!

Tendo os escritores Denis Johnson, Karen Russell e, a título póstumo, David Foster Wallace como finalistas, o júri não conseguiu chegar a um consenso e o prêmio, não só de 10 mil dólares, mas de um fantástico prestígio, não rolou, este ano, na categoria. Em 1941 e 1974, também havia ficado vago, quando Por quem os Sinos Dobram, de Hemingway (1941) e O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon (1974) eram os favoritos.

Os finalistas deste ano ainda não foram publicados no Brasil, e imagino que as editoras que compraram os livros devem estar chiando! Afinal, o prêmio alavanca tremendamente as vendas…

Além desta notícia, há outra ainda mais extravagante. Em seu próximo filme, James Bond, o agente 007, trocará seu drinque favorito, o famoso Dry Martini (mexido e não batido), pela Cerveja Heineken, tudo em nome do merchandising! O ator da série foi trocado várias vezes, até o escritor já foi trocado, mas agora o drinque… sua marca registrada!

Pois é. Desde que mundo é mundo, quem paga a conta dá o tom. Ou será que Pulitzer está se revirando no túmulo e bebendo uma Heineken? That´s life.

Até a próxima!

 

 

5 comentários em “O Pulitzer e o dry martini

  • 26/04/2012 em 07:43
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    The Pale King deveria ter ganhado, ao menos, como uma última homenagem a genialidade de David Foster Wallace. O romance é muito bem escrito, só está inacabado devido ao suicídio do autor. Foi um desrespeito ao maior ficcionista americano dos últimos tempos.

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    • 26/04/2012 em 08:57
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      Olá Victor,
      tudo bem?
      Concordo quanto a genialidade de David Foster. No entanto o prêmio não foi dado a ele, segundo o que foi noticiado, justamente porque foi seu editor quem terminou o livro,
      Como eu menciono, nos anos em que o Pulitzer não teve ganhador, os favoritos foram autores e livros que tiveram uma projeção muito maior de muitos que chegaram à final.
      “Well, that’s life”.
      abraços

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  • 25/04/2012 em 09:18
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    Oi Vera.
    Nossa grande pesquisadora.
    Parabéns pelo texto. Quanto ao conteúdo nem vamos dar crédito.

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  • 24/04/2012 em 19:34
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    Vera, o Alan diria:
    “Life is a magazine”.
    “How much does it cost?”
    “A dollar”.
    “I don’t have a dollar”.
    “Well, that’s life”.
    “Life is a magazine”.

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