Público e privado

Foto Ailton de Freitas / O Globo

Foto Ailton de Freitas / O Globo

Escutei ontem uma frase que muito tem a ver com a realidade: “A diferença entre o Brasil e a América é que lá o que é publico é de todos, e aqui o que é público não é de ninguém.”

Presencio no dia-a-dia — no microcosmo que frequento, que é meu clube Pinheiros — exatamente o citado acima, o que, certamente, representa todo o povo brasileiro.

Podemos observar, com raras exceções, associados reclamarem entre eles próprios, ao invés de se dirigirem às seções competentes, de coisas que consideram erradas, mas muitas vezes são incapazes de se abaixar para pegar algum papel que porventura tenha caído ou mesmo sido jogado por alguém.

Todos têm direitos, mas a responsabilidade certamente é do outro. Criticam também alguns sócios abnegados que, sem benefício particular algum, dirigem e comandam o clube; mas quando são chamados para participar sempre se negam, alegando não querer perturbações.

Os brasileiros acham que não têm nenhuma obrigação e que tudo deve ser garantido pelo governo do qual reclamam, mas não fazem nenhum protesto público para tentar reverter a situação de corrupção avassaladora que hoje comanda nosso país. O presidente que acabou de enterrar a pouca ética que ainda existia é admirado pela maioria da população, e se se candidatasse a Deus, com certeza venceria no primeiro turno.

As manifestações públicas chamam a atenção pela falta de adesões: somente meia dúzia de gatos pingados empunham cartazes. E falo de cátedra, pois já fui um desses gatos. Quando ocorre alguma tragédia, aí, sim, vêm aos montes pedindo justiça e procurando culpados, sem notar que nosso próprio descaso é o responsável pelas catástrofes e criminalidade.

A tragédia ocorrida no sul do país é bem representativa do que estou falando. Será que os jovens que frequentavam o lugar, se estivessem acostumados a exigir que as normas fossem obedecidas, não teriam notado a falta de segurança, aquém do que o local exigia? Se a população tivesse sabido eleger seus dirigentes com mais competência, hoje não estaríamos amargando o sofrimento que as mortes desses tão amados filhos legaram.

Agora, procuram os responsáveis. Os responsáveis somos nós. Hoje mesmo estará assumindo a cadeira de presidente do Senado (desculpem a letra maiúscula) uma pessoa que muito ainda tem a responder à justiça. Aceitamos tudo, indiferentes, como se isso não nos dissesse respeito.

Hoje, hordas e mais hordas de brasileiros se acotovelam nas filas dos parques de diversão da Flórida. Poderiam muito bem aproveitar e aprender um pouco sobre a disciplina e respeito que faz com que tudo corra a contento nos Estados Unidos. Lá, eles amam e têm orgulho de seu país.

Desculpem, meus leitores. Apesar de estar tão feliz na esfera privada, estou muito triste no que diz respeito ao que é público no Brasil.

 Publicado também no meu blog

 

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13 Resultados

  1. Sim Manuel. A pergunta que não quer calar é: O que fazer para nos afastarmos dessas três coisas que só são perniciosas quando levadas a extremos.

  2. manuelfunes disse:

    Três coisas corrompem, matam e tiram a humanidade do homem: Politica, Religião e Ouro! [Manuel funes]

  3. Priscila disse:

    Obrigada pelo retorno caros amigos. Estarei de volta na sexta sempre que possível.

  4. Vanessa disse:

    Aliás, esqueci o comentário principal: Gostei muito da crônica, parabéns pela escolha do tema, pois também fico indignada, apesar de ser iam das pessoas que muitas vezes não sabe o que fazer, além de votar em quem considero mais competente e esperar o melhor (esta tática não tem dado certo!)

  5. Vanessa disse:

    Todos os povos têm seus méritos e suas falhas, e é claro que devemos buscar aprender e aplicar os modelos que deram mais certo. Acredito que uma diferença fundamental entre americanos e brasileiros, é que os primeiros sabem que têm o direito e o dever de lutar pelo que é seu, enquanto os brasileiros são crônicamente programados para acharem que não podem fazer nada ou que não é problema seu (não por folga, mas por ignorância), e os poucos que lutam por alguma causa se sentem desamparados e desestimulados.

  6. Roberto Gasparini disse:

    Sobre a crônica da minha amiga Priscila: O que comentar quando identificamos no texto, aquilo que gostaríamos de escrever? Novamente, obrigado pelo conteúdo de qualidade.Bom fim de semana.Fico aguardando a próxima!

  7. Li o seu livro 2 vzs se quer saber, me intriga o fato de vc ser fazendeira e uma sensivel escritora. Não creio que tinha gado de corte.

  8. Eu disse que aprecio o Renam? so disse que não ha de se fazer comparações com os EUA de onde tiramos nosso modelo. Não sou sua inimiga, so tento lhe esclarecer melhor.

  9. Luiz Guilherme Kawall disse:

    Ótima crônica Priscila! Também tento entender o que acontece com o povo brasileiro que não toma posse do que é seu. Será herança do forma que fomos colonizados? Herança do “dolce far niente” da época do império? Culpa da forma como a abolição escravagista se deu não integrando os negros livres, mais de 50% da população do RJ, à sociedade? Culpa do nosso gigantismo territorial? Culpa do isolamento geográfico da capital federal? Falta de patriotismo? Culpa do Judiciário incompetente? Culpa do nosso labirinto de leis e falta de conhecimento de nossa Constituição? culpa do medo dos intelectuais covardemente reprimidos na última ditadura militar? Culpa da corrupção entremeada em todos os poderes da República etc, etc etc. Poderia seguir aqui descrevendo mais dezenas de problemas que afastam o cidadão da sua consciência de cidadania. Infelizmente parece que vamos continuar por muito tempo “deitados eternamente em berço esplêndido”.

  10. Muito me admira que a Rosane ainda leia minhas crônicas. Já disse que tem todo o direito de se abster de fazê-lo. Faça como eu que não leio as suas, procuro sempre escolher as melhores entre os autores da KBR.
    Quanto ao amor pelo pais, minha cara, eu o tenho e muito. Saiba que eu colaboro e muito sempre que possível participando de eleições, manifestações públicas, participo também em ações do terceiro setor. E você?

  11. A baderna generalizada, enguanto nos EUA voce tem medo de mandar um filho a escola e de aplicar um dinheiro no banco por causa dos Madoffs da vida. Facil criticar o Brasil, dificil é ama-lo e tentar colaborar de alguma forma

  1. 01/02/2013

    […]  publicado também no Cronicas da KBR […]

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