Psicanálise não é conversa

Alguém está sofrendo de uma dor que não é física: um desassossego, um medo sem inimigo evidente, uma tristeza lá no fundo da alma, um desânimo que parece que cola esse alguém na cama. Vamos ao médico, que prescreve ou não algum remédio e recomenda que a pessoa procure fazer uma terapia, conversar, sair, passear. Tudo o que ela não pode fazer.

Não se resolve com tapinha nas costas, bronca, lição de moral, viagem ou academia”. Também não passa com força de vontade, estímulos de toda ordem para que a pessoa deixe de ser para baixo e comece a pensar positivamente, a tomar atitudes positivas. Ela não consegue melhorar, nem só nem bem acompanhada.

Surge a hipótese de “fazer análise”, e algumas pessoas escolhem esta opção. Chegando ao consultório, há um acordo de horário e pagamento entre as partes e começa… uma conversa. Uma conversa qualquer. O analista às vezes começa, às vezes espera o paciente começar, cada um do seu jeito. Vou repetir: cada um do seu jeito. Assim, com o passar das sessões vai se estabelecendo um relacionamento, que, como qualquer outro, consiste em entender e se fazer entendido pelo outro. Repetindo: cada uma a seu jeito.

Parece uma conversa normal. A diferença é que um deles está trabalhando, usando técnicas específicas de escuta e interferência criada por Sigmund Freud que permitem ao analista ter acesso a processos que são inconscientes para o paciente, e são justamente os que causam essa dor. Porém, para escutar o que se esconde no inconsciente, o analista tem que colocar o seu próprio inconsciente à disposição do processo que acontece na conversa. Ele também não sabe o que vai dizer ao paciente, nem quando. Suas interferências virão do seu próprio inconsciente, que está guarnecido com o conhecimento desta técnica – Psicanálise –, através de muito estudo, e, principalmente, porque o analista já foi submetido ele próprio a estas mesmas técnicas, tendo feito ou fazendo ainda sua própria análise.

É claro que não vou falar de métodos; vou apenas esclarecer que quando é estabelecido um relacionamento, ao longo do tempo, as pessoas tendem a repetir seus padrões de comportamento, justamente os que levam à sua decepção e frustração com o parceiro. Só que, na prática da psicanálise, o parceiro é um psicanalista, que, lembremos, está trabalhando, e já aprendeu a reconhecer e manter domesticados seus próprios padrões de autoflagelação; assim, pode reconhecer os padrões perniciosos do outro e ajudá-lo a vê-los também.

É tudo muito perigoso e delicado, como em qualquer nova relação que se estabelece: na minha opinião, qualquer relacionamento é uma aventura de alto risco. A diferença aqui é que uma das partes já tem a experiência dessa descida aos seus próprios mundos infernais, já está bem mais cascudo e pode proteger o parceiro e a si mesmo durante o encontro, que dura um tempo indeterminado, pois – como eu já disse antes, cada um a seu jeito – o parceiro paciente começa a reconhecer seus padrões de comportamento perniciosos e vai aprendendo a domesticar seus próprios demônios. Mas sempre alerta e obediente, porque o nosso demônio aprende tudo o que nós aprendemos; nós, por outro lado, aprendemos a não deixá-lo usar esses novos conhecimentos contra nós mesmos. E por isso se diz que a Psicanálise não cura. Como curar o próprio desenvolvimento da vida?

Depois de um tempo lógico, reduzimos a virulência das nossas neuras e podemos prescindir da ajuda do parceiro. Mas nada impede que numa outra vez voltemos lá, ao consultório do analista, para acelerar a desativação de algum novo incômodo no nosso bem-estar psíquico.

 

 

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15 Resultados

  1. Helo Lima disse:

    muito bom,já enviei a uma amiga que sofre 7 anos de pânico e depressão,mas n aceita a ideia de terapia,vive dopada,além dos mais teimosa!os remédios ajudam por um lado e piora outro!é muito triste ver essa cena!vamos ver se agora ela enxerga que com terapia sairá mais fácil dessa depressão!obg por essa matéria,vai ajudar muita gente.bjo

    • Rosangela disse:

      Tomara que ela aceite Helo. E obrigada pela sua generosidade, Bjo.

      • Helo Lima disse:

        agradeço a vc,tão bom a gente poder ajudar aos outros!mas deve ser da própria doença não aceitar ajuda,em fase crítica elas são donas da verdade!infelizmente fica impossível qq ajuda!mas vamos ver!tenho um imã prá amigas depressivas,já sei como lidar com elas! essa matéria vai ser ótima!vamos ver!bjo e tenha uma ótima noite!DEUS TE ILUMINE SEMPRE!

  2. Rosangela disse:

    Eu é que agradeço seu comentário, Priscila. Obrigada e abraços!

  3. Priscila disse:

    Oi Rosângela. Obrigada pelis ensinamentos. Acredito que essa seja a pior doença. Parabéns aqueles que ajudam.

  4. Raul Augusto disse:

    Parabéns e Obrigado.
    Abraço

  5. Raul Augusto disse:

    Gostei muito Deu até vontade de fazer análise…
    Parabé

  1. 14/04/2012

    […] « Psicanálise não é conversa […]

  2. 14/04/2012

    […] e psicanalista Rosângela Alvarenga, também autora da KBR, com o título sugestivo de “Psicanálise não é conversa”; e não é mesmo, algo que Fábio Belo, um dos três que citei logo aí em cima, já enfatizara […]

  3. 19/05/2012

    […] já mencionei numa outra crônica, “Psicanálise não é conversa“, não sendo a Psicanálise uma terapia de conversa penso que posso chamá-la de psicoterapia […]

  4. 19/05/2012

    […] já mencionei numa outra crônica, “Psicanálise não é conversa“, não sendo a Psicanálise uma terapia de conversa penso que posso chamá-la de psicoterapia […]

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