Prosa sobre Poesia

Tenho uma ponta de inveja de quem escreve poesia.  Sou da prosa, e nem tentem me convencer do contrário.  A gente nasce poeta ou prosador, médico ou engenheiro.  Por outro lado, confesso que não gosto muito de poesia.  Bem… há o Fernando Pessoa, impossível não gostar dele.  Há ainda o Mário Quintana, ah, o Quintana.  Melhor deixar para lá, a lista vai ficar grande demais para quem acaba de declarar não ser amante de poesia.  Tenham paciência: sou humana, logo contraditória.  Ou vice-versa.

Confesso que já tentei fazer poesia na adolescência, porque nessa fase da vida isso é quase uma doença juvenil.  Felizmente, desisti logo.  Escrevi acrósticos tão ruins que, se tivessem sobrevivido, serviriam agora para me chantagear.  A poesia, pelo seu formato, parece (só parece) ser mais fácil para os aspirantes às letras, mas é uma armadilha terrível.

O que eu invejo nos bons poetas?  Com poucas palavras despertam sentimentos que a prosa gastaria páginas para alcançar.  Invejo o formato que lhes permite ser menos explícitos, embora não menos completos.  Quem duvida, pode tentar expressar em prosa os admiráveis versos de Fernando Pessoa (através do seu heterônimo Alberto Caeiro):

 O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

Ou descrever, em prosa, o que diz Mário Quintana:

 Quando abro cada manhã a janela do meu quarto

É como se abrisse o mesmo livro

Numa página nova…

Todo escritor já lidou com o problema da falta de inspiração.  Vejam isso tratado pelo Cairo Trindade e me digam se não é para morrer de inveja:

a inspiração às vezes

cai, às vezes, ai,

nem bem vem, passa

perto e, na hora, vupt,

voa, vai embora.

 

como a vida que se esvai,

um dia esta pálida página

há de ficar vazia.

agora eu tô por fora

e não tô prosa

nem poesia.

E as poesias de amor, então?  Definitivamente, o poeta pode tudo.  Novamente o Cairo:

 como é que pode?

quem mais ama

é quem se fode?

Imaginem escrever um conto para expor os sentimentos que esse poema transmite.  Seria necessário criar personagens, situações, diálogos, desfecho.  Virava um drama pesado: só invocando o espírito do Nelson Rodrigues para ajudar.

Como se não bastasse, ainda existe a licença poética; e as poesias são monólogos. Com todas essas vantagens, eu poderia tentar mais uma vez escrever poesia, acreditando no que diz Ariano Suassuna:

 Só tem dois tipos de cantador de viola: o bom, aquele que tem dom mesmo pra fazer a coisa, e o ruim, pra gente rir do que ele faz.

A verdade é que meu talento poético não serve nem para isso.  E a gente lê tanta coisa bonita que às vezes até pensa em desistir de escrever, poesia ou não.  Ânimo, escritora desamparada de si!

Em tempo: a quem se interessar pelo assunto, recomendo a leitura da maravilhosa “Carta a um poeta” do Mário Quintana.

 

 

2 comentários em “Prosa sobre Poesia

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