Presente ou mico?

Existem cursos de quase tudo, de criação de bodes a escultura em melancias.  Mas, que eu saiba, até agora ninguém se lembrou de oferecer um curso que ensine a presentear.  O assunto é para ser levado a sério: é comum ganhar ou ofertar coisas que são estorvos.  Se gostamos muito de quem nos presenteou, fica ainda mais complicado.

Uma amiga ganhou uma escultura de madeira que achou horrenda.  Exclusiva, assinada pelo artista.  Ela guarda no armário, mas quando a pessoa que a presenteou vai à sua casa, o presente é colocado na sala em posição de destaque.  Claro que ela morre de medo de se esquecer.  Haja estresse.

Certa ocasião ganhei um livro de receitas.  Emergências à parte, meu sonho é nunca ter que entrar numa cozinha.  Justamente o contrário da pessoa que me deu o livro.  Esse é o erro mais comum na hora de presentear: as pessoas dão aquilo que elas gostariam de receber.

Para resolver isso, bastaria seguir uma regra básica: o presente deve agradar tanto a quem dá quanto a quem recebe.  O problema é que nem sempre os dois lados têm gostos parecidos.  Se houver conflito, é claro que deve prevalecer o gosto de quem recebe.  Na teoria parece simples, mas na prática é difícil.  Você gosta de roupa básica, sua amiga odeia e é louca por estampados.  A probabilidade de você acertar na escolha de um estampado é pequena, mas você deve tentar.  Facilite a vida de sua amiga preferindo algo com preço um pouco acima da média da loja: em caso de troca, ela terá maior poder de barganha.  Porque este é outro problema: você ganha um presente que custa um certo valor e acaba gastando o dobro quando precisa trocar — em geral numa loja onde nunca conseguiu comprar nada (e, sinceramente, preferiria continuar assim), mas esse é o menor dos males.

Às vezes a troca é impossível.  Guarde, vai servir para alguém.  Talvez a pessoa que deu já tenha recebido de outra: chamo isso de “presente rotativo”.  O perigo é que a coisa rode tanto que acabe voltando ao ponto inicial (tomara que não seja você).  Se pretende repassar alguma coisa, sugiro anotar o nome de quem a deu e estabelecer um prazo de validade.  Não achando dono para o presente dentro desse limite de tempo, desocupe o espaço fazendo uma boa ação: doe para um bazar de caridade.

O valor do presente é importante.  Nem de mais, nem de menos.  Se alguém presentear você com uma joia de ouro, no aniversário dessa pessoa fica difícil retribuir com uma bijuteria de vinte reais.  Evidente que essa observação só faz sentido entre pessoas honestas, esqueça os oportunistas e os políticos.

É claro que há exceções.  Você pode dar um carro ao seu filho ou um diamante à sua esposa (espero que o meu marido esteja lendo isto), ambos vão adorar e não ficarão nem um pouco preocupados com a retribuição.

Se um presente não deve abalar a finanças de ninguém, também não pode ser desprezível.  Mas, quando a condição econômica dos dois lados é bastante desequilibrada, talvez uma pequena flor agrade tanto quanto um vestido caríssimo.  Afinal, para quem já tem muito de tudo, incluindo dinheiro, o carinho deve ser o mais importante.  Eu não digo que é difícil?  Cadê o tal curso?

As empresas também enfrentam dificuldades com presentes.  O cara se aposenta, ganha uma placa que só serve para lembrar que ele deixou de ser útil.  Essa, nem para o bazar de caridade.

O mundo está cheio de equívocos nessa linha.  Principalmente o mundo masculino, porque escolher presente para homem é mais difícil.  Por conta do desespero das pessoas que tentam fugir dos clichês, eles recebem todo tipo de inutilidade.  Exemplo?  Acessórios de cozinha ou bar que muitas vezes nem saem das embalagens.

Apesar disso, se aceitam uma opinião, acho que as aulas sobre presentes masculinos devem ser opcionais.  A maioria dos homens vai preferir pular essa parte, porque homem não perde tempo com presente para outro homem: dá logo uma garrafa de vinho ou de uísque ou não dá nada.  Mas alguns talvez se interessem pelo assunto: podem aprender a sugerir presentes para si mesmos (espero que meu marido não esteja lendo isto).

Enquanto o curso não vem, a única maneira de aprender é na prática.  Presenteie.  É um dos prazeres da vida, não dá para dispensar, mesmo errando aqui ou ali.

 

 

2 comentários em “Presente ou mico?

  • 19/10/2012 em 14:34
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    adorei!!!! acho que é uma coisa dificil demais presentear.Eu e minhas amigas apelamos para as cotas.No fim, a gente compra o presentão de seu agrado.Quando me aposentei, ganhei a tal placa.KKKKKKK.fiquei feliz.Placas são placas nada mais que placasKKKKKK.Gostei demais.

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  • 19/08/2012 em 15:00
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    Pessoalmente, me presentear é simples, nada que um pequeno deposito de 1000 Euros, não resolva! rs rs rs

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