Premonição

brasiliavwNa minha família existem bruxas. As mulheres do nosso clã são afeitas a premonições, visões, enfim, vivêssemos na idade media e teríamos virado carvão há muito tempo. Felizmente para nós, a tolerância no pais é de tal sorte que vemos até demônios encarnados ocupando cargos públicos da mais alta patente.
Pois bem, vou contar um caso que me aconteceu há muitos anos, quando meus TRÊS filhos ainda eram muito pequenos.
Fui ao casamento de um amigo de infância de meu marido, que era uma pessoa muito simples e ficou muito contente com nossa presença. Preciso também contar uma característica que terá muita importância para que se entenda toda a história: tenho muita preguiça de cumprimentar os outros, o oposto do meu marido, principalmente quem não conheço muito, e era o caso do tal noivo Amaury, jamais o cumprimentaria a não ser por pura educação, se desse de cara com ele. Pois bem, três dias após o casamento, quando entrei no meu carro, uma Brasília apelidada ironicamente de “Trovão Azul”, coloquei meus filhos no banco de trás e a filha mais nova, muito serelepe, logo pulou para o bagageiro. Naquela época não havia nenhuma legislação concernente a como se carregar as crianças no carro — e todas sobreviveram.
Comecei a dirigir. Liguei o rádio e estava tocando a musica “Lua de Mel” do Lulu Santos; lembrei-me imediatamente do Amaury, imaginando-o em alguma Ilha do Caribe com sua mulherzinha, até comentei com as crianças sobre o assunto, mas elas não estavam nem um pouco interessadas e continuaram com a algaravia que sempre fazem.
Após percorrer dois quarteirões, avisto o recém-casado na esquina, bem na contramão de onde eu estava, Na verdade, a “viagem de núpcias” fora curta e decidi que tinha de qualquer jeito que parar para falar com ele, mesmo ele não tendo me visto. Quero enfatizar aqui que eu somente tomaria essa atitude se visse ali um unicórnio dourado. Dobrei à esquerda e logo parei, na intenção alucinada de ficar berrando para que o rapaz viesse até mim. Sem notar, estacionei bem na frente de uma oficina mecânica, e quando abri a porta do possante alguns homens vieram gritando em minha direção.
Pensei, hoje estou realmente atraente, enquanto um deles me puxava pela mão e outro abria a porta de trás berrando que o carro estava pegando fogo. A menina e o menino maiores logo saltaram, e a terceira, que estava no bagageiro e ainda era muito pequena, ficou. Corri para a traseira do carro para abrir o porta-malas, mas fui impedida por alguém que me disse que eu tirasse a menina pelo banco de trás, caso contrário o fogo que vinha por baixo na parte do motor, que era traseiro, subiria e nos queimaria a ambas.
O perigo de explosão era eminente e eu estava apavorada, em pânico, mas os homens foram de rara eficiência, trazendo um extintor e apagando o fogo, enquanto eu acolhia em meu colo a garotinha.
Até hoje não tenho explicação para o ocorrido. Tenho absoluta certeza de que algo me avisou, aquela musica tocando bem antes de eu ver o rapaz, minha ânsia de falar com ele, que, por sinal, apesar do tumulto que se fez na rua, não apareceu, e nunca mais o vi.
Agora vem a parte do final feliz: meu marido finalmente resolveu trocar o carro. Ele se apega muito aos veículos e os trata como animaizinhos de estimação, basta ver minha garagem hoje, Ivete Sangalo deve ter se inspirado nela pra cantar “quer andar de carro véio, amor, pois venha”.

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

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