Preconceitos

Depois do assassinato do Embaixador Chris Stevens, líbios em Benghazi expressam preocupação. Foto Mohammad Hannon/AP, The Guardian (http://bit.ly/VKNsJG).

Arre que ainda dá tempo. Passei o domingo todo na minha persona editora, trabalhando sem parar, quase nem deu pra escrever a crônica, mas como dizia meu ex-guru Mário Trancoso, guru igualmente de algumas celebridades por aí, “Primeiro a obrigação, depois a devoção”. Mesmo que não acredite mais em nada disso, nunca mais esqueci.

Ainda bem. Ainda bem também que tive o dia inteiro para refletir, porque a crônica que escrevi na minha própria cabeça na última hora das poucas que dormi, era meio barra, vamos combinar.

Começava assim: “Nestes tempos de absoluta correção política em tudo que se fala e escreve, pouca gente confessa…” Pois é, mas eu, como vocês sabem, quando tenho uma coisa me entalando já vou logo desembuchando.

No outro dia, para meu choque extremo, me descobri preconceituosa na cadeira da dentista, bem, felizmente escapei de me descobrir racista, mas será mesmo? Como todos sabem, pratico, como descreve Cassia Cassitas em seu novo livro que ainda não foi publicado — muito a propósito nomeado Fortuna —, uma “eugenia oculta”, pois pasmem: todos os meus três maridos foram (os que larguei) e são (aquele com que fiquei) judeus, a dentista se espantou. Embora já tenha tido, e tenha até escrito uma crônica sobre isso — e mantido, é claro, em segredo bem escondido de mamãe — um namorado gay, ops, desculpem. Em público eu fazia questão de ser vista com ele, mas ele não, evitava sempre que podia, dá pra entender.

Mas onde é que eu estava mesmo? É no que dá escrever crônica depois de exaurir os neurônios o dia inteiro, ah, sim, na cadeira da dentista. E muito puta da vida, se vocês querem saber. Uma semana depois de ter terminado o tratamento de canal, imaginem que me caiu a restauração feita há apenas dois ou três meses por aquela… de Corrêas, que já não merece a qualificação profissional que tem. Voltei à Dra. Juliana com o rabo entre as pernas, e guess what, outro canal, três raízes dessa vez. Não acreditei.

A Dra. quis saber quem me recomendara o consultório de Corrêas, e eu disse que era melhor não responder.

— Mas por quê?

— Coisa de pobre, doutora. Foi a Ivete quem recomendou, a minha faxineira — eu disse, meio avexada.

É triste, mas é verdade. Me descobri com preconceito contra pobre, e principalmente contra os cuidados de saúde para pobres neste nosso Brasil, coisa só mesmo pra quem é pobre de verdade e não tem mais pra onde correr, porque senão… Fala sério. É de amargar.

E por falar em pobre, durante anos, uns quatro pelo menos, acreditei em tudo que a Ivete me falava e recomendava. Tomava café com ela todas as terças e quintas pela manhã quando ela chegava, tomo ainda, e Alan sempre me alertando. Vai daí que a única coisa boa que ela me recomendou em todos esses anos foi o rondelli do hortomercado, porque todo o resto…

Já sabem. O empreiteiro maravilhoso que veio consertar o terraço, por exemplo, a um preço bem mais barato? Rachou tudo com a primeira chuva da temporada e ele nunca apareceu para reparar, imaginem, coisa de… Deixa pra lá. Agora ela está me recomendando em quem votar, é a primeira vez que voto em Petrópolis, tô por fora, sabem como é. Descontando as roupas de inverno de quinta que levei para Paris, o blindex arranhado pela vassoura e as teias de aranha imorredouras, bem, preconceito maior do que tenho agora contra a Ivete só aquele contra dispensar os serviços dela, de confiança, vocês me entendem. Vamos levando assim mesmo, entre a minha tolerância e o julgamento do meu marido americano.

E por falar no marido americano: esse aí tem um preconceito terrível contra mulher que ronca. Eu também. O pior é que nem dá para comparar: ele roncava bastante, mas depois que trocou o remédio da pressão dorme quietinho, que nem um adolescente, e eu que estou ficando velha, vou fazer o quê? Obviamente não me escuto roncar, mas de vez em quando, quando estou dormindo aquele raro sono profundo, sinto Alan me balançar. Acordo de cara e resolvo a contento o problema dele, só o dele, claro: não volto a dormir até o dia amanhecer. Sabotagem (pra não dizer outra coisa).

Preconceito contra a velhice, aliás, é o que existe com maior frequência, velhice não, velhice da mulher. Hoje mesmo na revista do Globo aparecem na capa cinco “mulheres sem idade”, a nova onda feminina — sem idade coisa nenhuma, classifiquei-as certinhas só de olhar para as mãozinhas manchadas e enrugadas, escapa dessa que eu quero ver.

Eu, como vocês sabem, não tenho tempo para ter vaidade, e isso exclui o meu cabelo grisalho, viu? Este eu curto com todo o cuidado, não pinto porque acho bonito, me confere assim, digamos, uma gravitas muito conveniente para uma editora de ebooks, ah, falando em ebooks: e o preconceito brasileiro contra o livro digital, hein, gente? Tá com os dias contados pra terminar, a Amazon já já vai chegar, e aí, puristas, babau.

Mas voltando à beleza. Tenho umas manchas no rosto que, além das centenas de rugas, me incomodam de verdade, principalmente aquelas amarelas que não saem das pálpebras nem por base nem por sombra sem dúvida. Pois vi outro dia no Facebook o anúncio de um produto maravilhoso para rejuvenescer a pele, um tal Embra-não-sei-o-quê, esqueci o nome porque fui ao genérico direto, por um terço do preço: óleo de Rosa Mosqueta. Comprei no Mundo Verde de Itaipava por R$19 e estou passando desde então, mas fora o ardor nos olhos não vi ainda o milagre acontecer, coisa de… ah, esqueçam. O negócio me incomodou tanto que hoje de manhã o misturei ao velho creme Nívea — Lancôme perde, outra coisa de pobre — para ver se melhora, se não o resultado, pelo menos a parte que arde e perturba. A conferir.

E agora que já estou passando, pra variar, dos caracteres e da hora, vem a parte séria da história. Li esta manhã na coluna de Thomas Friedman no NY Times — mas quem tem preconceito contra americano, ou não sabe ler inglês (coisa de pobre!) pode ler no Globo de ontem, traduzido para o português — que os muçulmanos finalmente, depois que ultrapassaram qualquer limite matando Chris Stevens, embaixador americano na Líbia, estão caindo em si: “O que há de errado conosco e como podemos consertar?” Recomendo. Muito lúcido e inteligente esse Thomas Friedman, judeu, ainda por cima.

O que desmonta completamente o teatro do preconceito armado no outro dia no meu mural do Facebook — mais de 30 comentários, um sucesso ao contrário — a respeito de uma discussão sobre o que há de errado com os muçulmanos; até Salman Rushdie, cujo ótimo último livro estou lendo no Kindle (mais depois sobre isso), um dos debatedores destratou, um “péssimo escritor” segundo ele — vejam Friedman a respeito:

“Toda vez que durante a guerra do Iraque me perguntavam como saberíamos se estávamos ganhando, eu sempre respondia: ‘Quando Salman Rushdie puder dar uma palestra em Bagdá; quando houver uma verdadeira liberdade de opinião no coração do mundo árabe muçulmano’.”

Taí, quem tem preconceito a favor dos muçulmanos geralmente detesta também os americanos, coisa contra os judeus, vocês me entendem. Talvez não, talvez só entenda quem realmente sente.

Falar nisso, deixei de lado faz umas duas semanas uma terrível coisa de pobre: assinei o NY Times online, mas não deixei o Alan saber, ele, como todo mundo sabe, é republicano, tem preconceito contra o NY Times. Vai me custar 15 reais por mês, trem de doido, sô. Agora leio tudo o que eu quero e quando eu quero, e isso não tem preço, mas acho que já contei, né? Eu, como vocês sabem, tenho um forte preconceito contra o esquecimento, fazer o quê.

E um bom… bem, uma boa noite de domingo procês, tomara que ainda dê tempo, ok?

 

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3 Resultados

  1. Noga, quero te lembrar que a censura impera sobre tudo que é escrito na Internet, mas dizer que ronca não tem problema.

  2. manuelfunes disse:

    Falando sobre preconceito:, Eu tenho sim, contra os que ferem os outros em lugar de se ferir a sim mesmos!

    “No manicômio global, entre um senhor que julga ser Maomé e outro que acredita ser Buffalo Bill, entre o terrorismo dos atentados e o terrorismo da guerra, a violência está nos arruinando.”
    (Eduardo Galeano)

  1. 14/10/2012

    […] resto, aqui. FacebookTwitterMaisLinkedInEmailImprimirDiggRedditStumbleUpon This entry was posted in Noga […]

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