Preconceito!

por Maria Anna Machado

Preconceito: agora sei o que representa esse sentimento. Dentro de mim — preconceito contra os velhos — ou nos outros — “o que essa velha imigrante metida esta fazendo aqui?”

My Goodness… tento encontrar o lado bom, e é até fácil, um lugar maravilhoso, cidade perfeita — todas deveriam ser assim — morar com o meu filho… e o mar logo ali…

Não sei por que, ou melhor, sei, sim, o trabalho do filho, a firma mudou-se para um local próximo e assim viemos morar nesta plácida cidade.

Mas aí vem ele… o sentimento… é uma’ cidade de velhos… credo! Que coisa horrível de se dizer, deixa de ser preconceituosa, pô… Velho é tudo de bom… quem me dera chegar lá…

Cheguei. E daí? Penso que ainda tenho cinquenta — de todas, essa idade pra mim foi a melhor, quando comecei a correr mundo, fazer o que me dava na telha: separação, filhos casados, entrei no PT, fui para a Praça da República,  para Paris, Roma e encontrei Nova York.

Gente! Era tudo que eu sonhava! Mas o corpo — eta velhice — não aguentava tanto frio ou tanto calor, e a vontade de estar na calçada da West Broadway, perto da Canal Street, foi por água abaixo. Quem mandou esperar tanto?!

Mas voltando a ele, o preconceito, preciso urgentemente me adaptar, coisa complicada pra quem sempre gostou de agito. Grudei no computador, faço pinturas digitais e elas correm mundo, embora eu fique aqui sentadinha, esperando o que…? Não sei.

Na missa, no domingo gostoso, antes da praia, sentada na última fileira, olho as cabeças todas branquinhas, uma castanha lá, outra acolá, graças a Deus não vejo a minha.  Novamente o sentimento…

Procurei onde estão os que gostam de pinturas. Gostei de ver o interesse das “meninas” aprendendo a pintar… afinal, sempre há tempo… Acho que vou dar aulas… mas… (que coisa! de novo!) é gostoso ensinar pra quem almeja futuro.Aqui não almejamos futuro, já estamos nele. E por isso, chega de preconceito, sou velha, e daí?

O jeito é se acostumar ao fato de que ninguém nos vê — ótimo, posso usar qualquer coisa — ninguém nos ouve —  posso até falar bobagem — ninguém nos pede conselhos — o Google é o novo pajé — e aproveitar a vida gostosa que ainda tenho e curtir os meus trabalhos, afinal tenho 950 pinturas rodando o mundo e, como diz o velho ditado, uma pintura vale por mil palavras, então eu já disse o que tinha que dizer.

 
Maria Anna Machado é pintora por nascimento e escritora por adoção. Suas pinturas são sua alma, seus escritos seu coração. Completou oitenta anos e se voltasse a nascer não mudaria um minuto sequer, pois todos foram vividos com intensidade, serenidade e amor. Atlants — atol das formigas é seu primeiro romance publicado.

 

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

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