Praga de faraó

Pô, fala sério, eu trouxe do Rio o abacateiro de vaso com todo o cuidado, todo embaladinho, com a raiz e a terra em volta envolta em plástico para evitar a perda de substrato — e que perda, nossa mãe! — e pra todo o sempre me lembrar de mamãe, mas, francamente: a planta, que resistiu bravamente, e em condições concretamente (ui!) inclementes, por bem mais de sete anos (é mais velha que o meu casamento com Alan), acaba de ter suas folhas devoradas em menos de duas horas pelas vorazes formigas do Vale, caramba, essa raça nada perdoa, vamos combinar.

Como diz a Ivete, é a verdadeira praga do faraó, aquela que a Bíblia ignorou e que um de meus autores, não lembro quem — ah, tudo bem, querer que eu me lembre dos passos de todos os meus 65 filhos diletos é um pouco demais, é ou não é? —, atestou numa crônica ou livro que se multiplicaram sem controle e povoaram o mundo, a prova é que… deixa pra lá — ah!, lembrei!, só pode ter sido o Carlos Peixoto, ou então a Maria Anna Machado — que, recentemente soubemos, nasceu em Formiga, MG — em seu livro Atlants – O atol das formigas, ai, inferno, merda de inseto, sai pra lá (falar nisso, procurei o livro da Anna na Amazon.com pra linkar pra vocês e logo apareceram vários anúncios de dedetizadoras, vou nessa).

Mas tem outra praga que nos assola, e desta, ninguém desconfia, ninguém ousa desconfiar: é o amor! Pois é. Alan, como vocês sabem, há coisa de uns 3 ou 4 meses adotou um filhote de gato, todo douradinho, resistir quem há de… o problema é que ambos, Alan e eu, há distantes quase 8 anos quando pela rede nos conhecemos, deixamos bem claro os nossos mais sérios objetivos de vida: “I’m not a pet person”. Bem, eu, certamente, não sou, nunca fui, odeio dependência e agora que tenho a chance, vamos combinar, quero finalmente me livrar de todas. Argh. Não há amor que compense.

O caso é que Alan, conversa vai conversa vem, mansamente, adotou o tal do gato e nem nome a ele deu, quem decidiu fui eu: “Clinton”. Vejam bem. Meu objetivo era que, depois que se tornasse adulto, o gato fosse esquecido, detestado, expulso do convívio do nosso lar, afinal de contas, como todos sabem, Clinton é do partido que Alan mais odeia, se tem razão ou não… bem. Não é o assunto desta crônica.

O problema é que Alan, como eu, curte um desafio: decidiu que ia provar ao mundo que todas as teorias maslowianas (sinceramente, acho que esta palavra não existe) sobre o treinamento de gatos — que, segundo ele, versam, deixem-me explicar, sobre o fato provado e comprovado de que gatos não se deixam treinar — estavam absolutamente equivocadas.

Vai daí que Alan não só ensinou o Clinton a comer da mão dele, como a ficar em pé em duas patinhas, correr com ele, trepar em árvores, deitar de barriga pra cima pedindo carinho, e, pior, miar a cada passo que o desagradasse. Ou o contrário, sei lá. O caso é que “nosso” Clinton acostumou-se a ser alimentado a pão-de-ló, se é que vocês me entendem — não só a pele de salmão fresco que o Alexandre, nosso peixeiro das sextas-feiras, fornece de montão, como a puro amor. E vocês sabem bem o que isso significa.

Ou, se não sabem, quando o amor cotidiano lhes faltar aprenderão rapidinho, isso eu posso garantir. Pois o pobre do Clinton, nestas cruéis três semanas e mais alguns dias em que o Alan está ausente visitando os filhos, está destinado a sofrer, quem mandou corresponder.

— Tá carente, Clinton? Eu também. O que se há de fazer.

Mas não há quem possa com a natureza humana de amar seu próximo, não importa o quê — ah, tudo bem, versão livre de “no matter what”, fazer o quê, aprendi a amar em inglês e agora é tarde, não tem mais jeito —, não é mesmo? A gente nasce com essa praga de amor imposta, e contra isso a gente luta, reluta, finge que não liga, mas no fundo no fundo, não tem aquele que lhe resista, que ao carinho de um outro qualquer consiga resistir.

Pois para o Clinton, coitado, embora no início de seu treinamento afetivo o básico consistisse em não mais do que ter ou não ter bastante o que comer, agora, obviamente, isso não lhe basta mais: ele quer amor, atenção, quem não?

Esta manhã, por exemplo, teve briga de gatos lá fora por conta da exiguidade (?) de ração, quem diria, o machão fortão com aquele olhar ameaçador de plantão veio e viu que não sobraria nada pra ele, pois Alan foi bem claro ontem no telefone: “Eu ponho um pouco de comida de manhã e à noitinha e fico olhando pra me certificar que dele ninguém tira”, e assim fiz eu, mas Clinton não parava de chorar, ops, miar.

Estava um sol radiante como há muitos anos eu não via, claro, todo sol que fazia eu via sob o véu da depressão, da ansiedade constante, a que ultimamente eu só resistia com aquela odiada ajudazinha química que desde ontem eliminei, ufa, ainda bem.

Daí que saí, dei uma caminhada curta com o pobre Clinton a pretexto de conferir as folhas subitamente desaparecidas do pobre abacateiro de apartamento — eu de repente não conseguia mais vê-las daqui de cima —, ah, tudo bem, em apartamento não tem terra, nem sol, nem mãe natureza à vontade que é uma beleza, mas tampouco tem essa praga de formigas famintas, é ou não é?

Descemos à extremidade do terreno (não é plural majestático, gente, nada disso, que não sou dada a isso como vocês bem sabem, estou sozinha, mas Alan deixou seu Clinton comigo, para o mal e para o bem), olhamos, xingamos, ele se entrelaçando às minhas pernas sem que eu lhe pedisse — ops, peraí, sexo animal não faz parte desta crônica, apenas a saudade louca do sexo conjugal, se é que vocês me entendem, quando tenho à disposição frequentemente nem ligo —, subimos de volta, e, no final, pra gastar a energia dele, dei até uma breve corrida em volta da casa, transparente e hoje tão solitária, mas, felizmente, por pouco tempo.

Pior: sentei-me com ele ao sol na soleira da sala, de frente para a Maria Comprida, e, diante de seu olhar pidão, compartilhei com ele os pedacinhos de frango que eu comia, estou dizendo.

Estou contando os dias, ah, o amor: se deus fosse esperto como a gente acredita que ele é, seria esta a verdadeira praga de faraó: uma vida sem poder contar com o amor.

E um bom domingo procês.

 

 

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