Portuguesa, com certeza

Então tá bom. É assim e pronto. Nem sei como entrei nessa. Já nem sei como escrevi o Nuvem de Pó. Era pra ser somente uma recordação de algumas coisas boas, e deu no que deu. Agora sou eu correndo atrás de ebook, farra do POD e outros que tais, e ainda mais essa. Crônica? Só se for por essa ansiedade que eu tenho de que as coisas sejam como eu quero. Essa sim, é crônica. Enfim. Vamos tentar uma croniqueta.

Acabei de tirar minha cidadania portuguesa. Meus dois avós eram lusitanos. É, portanto, com certa tranquilidade que vou contar o que recebi hoje num vídeo por email: uma rua sendo asfaltada em uma grande cidade em Portugal, Coimbra para ser mais precisa, cidade natal de vovô. Dava para ouvir algumas pessoas falando português, e prédios que não deixavam dúvidas quando à localização geográfica. Definitivamente, Europa. O grande diferencial é que asfaltavam sem barrar o trânsito, nem de carros, nem de pedestres. Tudo fluía como se nada houvesse, a não ser pelas pessoas que tinham seus sapatos pregados no piche e não conseguiam mais caminhar. Várias senhoras deixavam suas sandálias, que não conseguiam despregar do meio da rua. E tome carro e caminhão passando. Um senhorzinho, coitado, ficou com seu pisante grudado e tentava descolá-lo segurando e levantando a ponta do sapato de amarrar — negro como azeviche. Sua senhora, já na calçada, espichava a mão numa vã tentativa de auxílio. As mocinhas, mais lépidas, passavam correndo de braços dados, nas pontinhas dos pés; e saiam ilesas do mico. Outra mulher, com uma ampla saia rodada de renda que perdera seu papete, se arregaçava com um pé a salvo no meio-fio e o outro descalço, bem na pontinha, na direção do extraviado complemento, esbarrando a ponta da bainha na meleca negra e tentando despregar o par perdido com a mão.

O caos imperava. O ônibus passando em alta velocidade, esmagando e comprimindo os sapatos deixados para trás por desacorçoados e descalços transeuntes, bem fundo no piche. Os pedestres em desespero, tentando atravessar sem ser atropelados. Enquanto isso, passava incólume o caminhão de piche fazendo seu serviço com toda a calma.

Tudo bem. Essas coisas acontecem, mas o que é difícil de acontecer é a complacência que todos mostravam. Não havia revolta, contra ninguém. Não houve uma só voz levantada contra o impávido motorista, nem contra os que acompanhavam o veículo para ver se o serviço saía a contento.

Agora que sou cidadã portuguesa, terei que aprender com esse povo tão gentil, educado e honesto, essa maneira de encarar a vida e sua forma de raciocínio tão diferente da nossa. Quando se pergunta a eles (quero dizer, a nós) qualquer coisa, é preciso estar muito atento ao fazê-lo, pois a resposta será exatamente ao que você perguntou. Certa feita, meu cunhado, muito expedito, tentava ajudar uma senhora que havia colocado sua sacola no compartimento de bagagem do avião e lhe perguntou, na intenção de movê-la: “Esta bolsa é sua?”

Ao que ela gentilmente respondeu, em seu português castiço: “Não, “senhoire”. É de uma cunhada que ma emprestou.”

Vejam bem: ela respondeu ao que lhe foi perguntado. Eu mesma estive perdida por Lisboa, e ao indagar se uma senhora sabia onde era tal sítio, ela simplesmente respondeu que sim… e se foi, me deixando à própria sorte.

 postado também no meu blog

12 comentários em “Portuguesa, com certeza

  • 03/08/2011 em 14:16
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    Olá Priscila, Eu já havia feito um comentário que como boa portuguesa, não soube bem colocá-lo e se perdeu,. Como disse a Helena Carvalho, sua escrita é muito fluída e descreve muito bem o ocorrido. Lendo a crônica a gente se vê na terrinha. Eu que adoro Portugal e já lá estive diversas vezes, inclusive num seminário de Verão na Universidade de Évora, me deliciei com esse jeito tão “ingênuo” dos nossos patrícios. Também tenho visto o quanto temos em comum! Até a cidadania portuguesa!!!! Que coisa boa! Parabéns

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  • 03/08/2011 em 12:06
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    Oi Priscila
    Gostei!
    Eu tb vou tirar minha cidadania Portugues. Meu pai e depois o Mário já tiraram. Os filhos do Mário tb.
    Meu amigo ligou para o Hotel onde sua filha se hospedava e falou:
    Eu queria falar com a minha filha, fulana de tal…
    O rapaz, disse:
    Porque? não quer mais?
    Essa é uma tradição, respondem o que lhes foi perguntado.
    O mais engraçado: o rapaz fez aquilo, só para tirar um sarro do meu amigo Brasileiro…
    Tenho um grupo no Face onde conto uns “causos” (O contador de causos). Se quiser, veja no meu perfil.
    Um abraço
    Silvio

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  • 03/08/2011 em 10:56
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    Priscila, parabens, adorei a croniqueta (muito bom o nome), muito fluida , bem escrita e descreve muito bem o acontecido. Já havia visto e o achei muito divertido. Não interessa aonde foi, se Portugal ou aqui, a verdade é que aconteceu e voce conseguiu transmitir por palavras o que nós somente vizualizamos. Continue escrevendo e desenvolvendo êste dom que poucos têm mas que muitos vão poder usufruir.

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  • 02/08/2011 em 14:12
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    Quer dizer que a senhora vai mostrar mais esse talento??Já não chega os que agente conhecia não??? rsss..
    .Um beijo grande e pode continuar ,gosto do jeito leve que escreve…parabéns!!!!

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    • 02/08/2011 em 19:43
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      Majoy. Muito obrigada pelo incentivo. Ainda mais vindo de uma pessoa que escreve muito bem. Lembro-me ainda da sua postagem no FB.

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  • 01/08/2011 em 15:30
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    Caro Manolo.
    Aqui neste caso também vou ter que acreditar no que você está dizendo, pois como você sabe, destas postagens ninguém sabe quem é o pai, entretanto rendeu umas boas risadas. De qualquer maneira, adorei o povo muito bem humorado.

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  • 01/08/2011 em 13:41
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    Cara Priscila, quem lhe enviou o video descreveu o local como sendo Coimbra de forma mal intencionada, querendo esculhambar um pouquinho mais os Portugueses (não sou Portugues ou tenho qualquer parente dessa nacionalidade), o local não pode ser Coimbra (ou qualquer outra cidade de Portugal) pois sendo esta, a ultima cidade com Troleibus em Portugal, sendo os mesmos de cor Amarelo e Branco e os mais modernos tem fotos de locais historicos como paineis em toda a extensão do veiculo, e o video tem audio em Lituano, logo dessa vez (pelo menos) os Portugeses não tem culpa…….rs.

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  • 29/07/2011 em 18:20
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    Eu adorei a estréia e já espero ansiosamente as futuras serelepices literárias de lady pri. Beijolices com carinho, Cris

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  • 29/07/2011 em 14:17
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    Pessoal, foi meio de sopetão. Minha editora pediu e eu após ter acabado de ver esse vídeo me inspirei e escrevi a primeira crônica de minha vida. Espero que vocês se divirtam assim como eu me diverti. Aguardem a da semana que vem.

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    • 30/07/2011 em 20:15
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      Pode continuar, Pri…mandou super bem! Adorei. Quero mais, mais, mais e mais. bjs e parabéns

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