Poder absoluto

 

Há dois ou três meses, quando cheguei do trabalho, vi num prédio vizinho uma patrulhinha da Polícia Militar. Perguntei ao porteiro do que se tratava:

— Roubo de carro, assalto, acidente de trânsito?

— Não, senhora, mudou para cá alguém ligado ao governo, a patrulhinha vai ficar permanentemente em frente àquele prédio.

A primeira impressão foi boa: a rua ficava mais segura. Depois, a gente reflete que talvez seja melhor não morar perto de quem precisa de segurança vinte e quatro horas por dia. Vai que nos confundam com esse povo ou que haja um tiroteio? Quem se interessa em pagar o resgate ou manter a nossa segurança? Mas era assim. Ponto. Nada a fazer.

Numa sexta-feira, houve festa no tal prédio. Acho ótimo quando as pessoas dão festas, se divertem, tornam o mundo mais colorido. Os que gastam seu dinheiro (deles) em comemorações têm todo o meu apoio: criam empregos para buffets, músicos, decoradores, muita gente.

Festa de arromba. Música brasileira de boa qualidade, num volume capaz de acordar defunto. Meia-noite, uma da manhã, duas, e nada do volume abaixar. Perguntei ao vigia do meu prédio, que conhece o do prédio festeiro, se poderia ir até lá e pedir para diminuir o volume do som. Ele foi, voltou com a resposta:

— Não dá pra fazer nada, a festa é na casa dos filhos da autoridade.

Como é que é?  Não cabe aos mais poderosos e esclarecidos dar o exemplo, respeitar a lei do silêncio após as dez da noite? (Leitor, não precisa rir do meu espanto — é retórico).

Normalmente, em tais circunstâncias, o cidadão comum chama a polícia. Mas, lembra?, a polícia já está no local, fazendo plantão permanente para proteger os donos da festa. A quem recorrer? À mídia? Era de madrugada; na primeira rádio ninguém atendeu ao telefone, e na segunda não me levaram a sério. Desisti. Se outros vizinhos reclamaram também não adiantou nada, porque a baderna com patrocínio oficial foi até às cinco da manhã.

Então fica assim: de um lado somos acuados pelos assaltantes e do outro pelos detentores do poder constituído: o cidadão se sente à deriva.  Aí vai mais um exemplo:

Uns vinte dias antes do prazo da entrega da declaração de imposto de renda, tive dúvidas em um lançamento, nada que influísse no valor a pagar, apenas na forma de apresentar a declaração. Com o emaranhado de leis que regem esse imposto, fazer a coisa certa é tarefa praticamente impossível e, na maioria dos casos, nem adianta pagar um especialista: já me relataram situações em que eles fizeram bobagens que nem eu faria. Fui à Receita Federal buscar orientação. O fiscal que me recebeu, muito gentil, também ficou na dúvida e me disse: “Vamos pela lógica”.  Ora, se eu quisesse “ir pela lógica”, não teria ido consultá-lo. Não tive opção a não ser seguir o meu bom senso, que talvez seja diferente do da Receita ou mesmo do fiscal que sugeriu isso. Daqui a uns cinco anos, quando eu já nem me lembrar direito qual foi a dúvida que tive, se a Receita me pedir explicações vou dizer que “fui pela lógica”. Deve ser suficiente.

O que me lembrou o que aconteceu com um conhecido que caiu na malha fina: aparentemente, a pessoa que o atendeu esperava multá-lo em $$$$$$, mas só conseguiu multá-lo em $. Depois de esclarecidos os pontos levantados pelo fiscal, meu conhecido mostrou uma documentação que tinha esquecido de declarar e que importava em uma dedução de $$$ no imposto daquele mesmo exercício. Feitos os ajustes, ainda sobrariam $$ a favor do contribuinte. Não foi possível: ali, só se aceitavam alterações que favorecessem a Receita Federal. Como o valor era pequeno, o cara achou melhor pagar $ e encerrar o assunto.  Um sábio.

Se eu desaparecer depois desta crônica, vocês já sabem por onde começar a procurar os culpados. Mas, provavelmente, será tarde demais.

 

 

 

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