Peter Pans e Sininhos

Lamentável, a tristeza do rapaz que disse ter perdido toda a família e chorava copiosamente no enterro de sua mãe e irmã. Vou usar esse caso emblemático para levantar um assunto que tem me espicaçado ultimamente.

Vê-se pelas ruas da cidade, especialmente à noite, em frente a faculdades e barzinhos, hordas de homens e mulheres, praticamente senhores e senhoras, agindo como um agrupamento de adolescentes. Essas pessoas pensam estar, ainda, na época em que deveriam agir contra a ordem para poderem crescer física e mentalmente.

Hoje, já trabalhando, alguns com salários muito altos, empurram a vida para mais tarde, deixando a constituição da família em segundo plano com medo de perder o brinquedo. Estão perdendo o melhor da festa.

Como sempre, os que se pensam meninos, já barbados, exibem como pássaros a sua plumagem — carrões, motos, roupas de grife —, na intenção de atrair os olhares das mulheres barbies que, sem perceber, já perderam há muito o viço da juventude e se agarram — com suas pernas fininhas, uns cambitos — aos sapatos de plataforma que lhes garantem vários centímetros a mais e abanam as melenas para lá e para cá, usando as mesmas gírias que se ouvem nos pátios do colégio.

Os pobres adolescentes verdadeiros não têm mais espaço para se manifestar, pois por mais que se esforcem, não conseguem se rebelar contra os adultos com maneirismos e modas extravagantes, já que os adultos imediatamente os copiam.

As drogas correm soltas, pois não há como aguentar tanta futilidade sem alguma ajuda. Em seus círculos, criticam os políticos, a corrupção, a violência e as drogas, sem ao menos considerar que são eles próprios que deveriam estar lutando e dando o exemplo de uma vida rica em valores. Usam drogas lícitas sem responsabilidade, e ilícitas investindo para que o tráfico exista, trazendo em seu bojo tudo o que há de pior. Quando lamentam a morte de algum colega durante um assalto, esquecem que o resultado do butim é justamente usado para incrementar o mercado das drogas que eles mesmos ajudaram a fomentar.

Os mais velhos ainda, pais dessa geração, foram responsáveis por este resultado. Achavam que tinham que ser amigos dos filhos, mas, não! Tinham que ser pais! Ensinar valores, exigir respeito, proibir as drogas chamadas leves, pois é a partir destas que muitos entram num mundo escuro de onde não conseguem mais sair, levando consigo criancinhas espelhadas pelo centro da cidade com as cabecinhas cobertas — parecendo saídas de filmes de ficção de um futuro que já não há.

Foi assim que um desses, de trinta e três anos, decidiu beber e dirigir e sem controle ceifou as vidas de duas mulheres indefesas na calçada. Estivesse ele preocupado com o que fazer de sua vida inútil, certamente estaria fazendo melhor.

Se é apropriado comparar esses rapazes a Peter Pan, o menino que não queria crescer, acrescento que essas mulheres podem ser comparadas à Fada Sininho, pois são estridentes e se acham as donas da varinha mágica.

Atenção, pessoal: a vida não é conto de fadas. E quando o pozinho de pirlimpimpim acabar, o tombo será grande.

 

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  1. Priscila, muito bem amarrado literáriamente e bem fundamentado.

    Na verdade, estamos em época de transição. Os empregos estão abertos até os 65 anos. A vida se estica.
    Com tudo isso, há um desejo de a juventude durar mais.
    Só que mal estruturada.
    Filhos com dois pais e duas mães, irmãos de todos os lados.

    A Resposta?
    Só o próprio futuro a dará.
    Bjs, querida amiga.

  2. A dúvida que me fica é: como mudar ou melhorar isto se os próximos pais, os que criarão filhos para o futuro, são estes mesmos jovens “espelhados” em Peter Pan?

  3. Olá Priscila,
    Muito bem abordado o tema que você pegou hoje. Acredito que na nossa geração começou, mas na imediatamente após se firmou esa coisa de ter uma adolescência até depois de 40 anos!!!! Veio junto com o fim da autoridade dos pais, professores e qualquer outra entidade. Era para deixar fazer tudo em nome de não traumatizar as crianças. Cada vez mais vemos estas cenas que você descreveu. Em nome de não traumatizar filhos, os pais têm de trabalhar para sustentá-los até que a morte os separe!
    beijo grande