Perder faz parte do jogo

Eu gosto de esportes, e como todo brasileiro tenho um apreço maior pelo futebol — lembranças de outrora, quando acompanhava o esporte bretão, ao vivo e a cores. Com o tempo, o surgimento de torcidas organizadas e as agressões físicas, perdi o gosto, o excesso de violência me afastou desta convivência como também muitos outros. O que me atraia era a disputa, o imprevisto de uma vitória e a possível derrota.

Falo disso hoje, não com saudosismo, mas tentando compreender uma mudança de visão das pessoas em relação ao sucesso. Há poucos dias, o melhor time de futebol do mundo, com o melhor jogador do planeta, perdeu a oportunidade de disputar mais uma final da Champion League, o maior evento futebolístico mundial tirando a Copa do Mundo: o Barcelona e seu craque Messi foram derrotados dentro de casa, e mais do que a torcida por seu adversário, grande parte das pessoas apreciaram o fato de que essa derrota ocorresse a esse time e sua maior estrela.Ou seja, o prazer não foi pela vitória de alguém, ou de alguma agremiação, mas sim pela derrota de outra.

Realmente, parece que o sucesso incomoda a muitos, que se colocam no papel de vítimas do mundo e da sociedade, em vez de assumir a responsabilidade por seu próprio destino. Quando se regozijam pelo fracasso experimentado por um grupo ou pessoa, dizem muito de si e de sua maneira de ver o mundo. Causa-lhes certo frisson ver alguém de relativo sucesso social exposto na mídia em situações constrangedoras, ou de falta cometida.

Sem querer isentar quem quer que seja por suas atitudes inadequadas, não chego ao extremo de ter prazer em ver a vida das pessoas exposta à execração pública, ou em testemunhar o fracasso individual de alguém diante de algum projeto seu tão acalentado.

No caso do Barcelona e seu melhor jogador, que personificam o sucesso pessoal e de grupo, isso para muitos é imperdoável. Seu olhar procura a falha, o vacilo, a incoerência, por menor que seja, para apontar o dedo em riste, satisfazendo o seu próprio desejo de transferir à humanidade a responsabilidade por seu fracasso pessoal.

Para isso, nada melhor do que torcer pela desgraça alheia. Esquecem, porém, que perder ou ganhar faz parte do jogo, e que essa faculdade só acontece àqueles que se dispõem a correr riscos e se expor diante do outro. Não se vence na sombra ou na esquiva.

Na vida ou no esporte, ficar na torcida pela desgraça alheia é covardia: descer da arquibancada e enfrentar as dificuldades é que é a grande questão; se a vitória acontecerá ou não irá depender de inúmeros fatores, mas a disposição para alcançá-la é a condição inicial para enfrentar a disputa. Não basta o desejo; a vontade em movimento é condição sine qua non para o cumprimento da tarefa.

No passado, eu praticava o esporte com prazer e entusiasmo. Com ele aprendi a lutar para conseguir alcançar um objetivo; aprendi ainda a atuar em grupo e vencer barreiras. Mas foi com as derrotas que aprendi a aceitar as adversidades, os meus limites e, principalmente, o fato de que o outro me superou em meu objetivo inicial. Aprendi também que perder faz parte da vida, e que neste jogo, mais importante do que a raiva e a mágoa, é levantar a cabeça e partir para outra.

 

 

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