Pensando na vida

Sentou-se na velha poltrona, tão conhecida. Levantou os olhos e admirou os livros. A biblioteca era seu orgulho; o escritório, seu refúgio. Construíra o cômodo vinte anos atrás, quando começou a lecionar na faculdade e a melhora financeira possibilitou realizar o sonho há tanto tempo acalentado. No terreno onde se situava a casa, havia espaço para esse anexo erguido de forma simples, mas com cuidado. A prioridade era dar àqueles objetos que lhe eram tão caros um lugar digno.

Os livros eram seu tesouro e poder, e depositá-los na estante de madeira tão sonhada pela primeira vez  foi um verdadeiro deleite. No cômodo ainda cabia sua poltrona preferida, um pequeno frigobar encostado ao fundo e um divã que, no passado, proporcionara as condições para que ele pudesse atender seus pacientes em total privacidade. O banheiro privativo, inclusive, lhe custara alguns comentários irônicos dos amigos.

— Paulo, fala a verdade, quando tem briga com a Sílvia, é ali que você mora!

Ele não refutava as observações, ria com satisfação da cara de brava que a mulher lhe dirigia, ao ouvir a brincadeira de mau gosto.

Aquele móvel que acolhera a tantos e lhes deu a oportunidade de nele se apoiar na viagem ao inconsciente era agora mais usado para a sesta habitual do proprietário, logo após o almoço, do que para sua função inicial. Apesar de atender, ainda, alguns antigos analisandos, sua clínica diminuíra muito, o que era fruto de uma decisão no sentido de poder se dedicar mais a ensinar.

Sem perceber, começou a observar os porta-retratos dos filhos. João, psicanalista como ele, morando no exterior, concluindo o mestrado e já encaminhado na vida, sorria ao lado da esposa e dos dois netos que lhe dera: Pedrinho e Juliana eram sua maior riqueza; estar com eles e ouvi-los indagar sobre tudo e todos era um de seus grandes prazeres.

— Vovô, o senhor já leu todos estes livros? — Perguntara o garoto de seis anos, com admiração.

Antes que pudesse responder, a neta espevitada replicava ao irmão:

— É lógico que já leu! Por que você acha que ele usa óculos?! Já gastou metade dos olhos lendo tudo isso — explicou a menina, bem mais velha, na sabedoria de seus 8 anos.

O avô ria e se regozijava de prazer, ao ver o futuro descoberto no presente à sua frente.

Um vento frio entrou pela janela aberta que dava para o jardim, trazendo-o de volta à realidade. Levantou-se com certa dificuldade. Lembrou-se quase de imediato de que estava na semana de seu aniversário: 73 anos! Voltou o olhar para a estante amiga e avistou ao lado do retrato de João a imagem da filha, no apogeu de seus vinte e poucos anos. Ela também sorria, do alto de um grande pico coberto de neve que acabara de escalar. Era a esportista da família; não quisera seguir a profissão do pai, nem tampouco a da mãe.

— Ser advogada, nem pensar! — declarara à triste mãe, quando esta lhe indagou sobre sua opção na época do vestibular. — Vou para a Nova Zelândia trabalhar com escaladas, não me imagino presa a lugar nenhum!

E assim foi; por lá ficou. Já fazia 5 anos que abraçara esse destino. Quando aparecia, nas férias de final de ano, sua alegria, genuína, confirmava a convicção com que fizera sua escolha.

Olhou um pouco para o lado e viu a própria foto junto à esposa, no dia do casamento. Depois de trinta e sete anos juntos, sentia a mesma emoção quando lembrava o que experimentara quando a viu chegar para a cerimônia. Tudo nela era só beleza e certeza de amor. A felicidade de ambos, expressa na imagem e congelada no tempo, comunicava-lhe a alegria do momento, que ainda se mantinha forte no presente.

Suspirou fundo, levantou-se, se dirigiu à janela e olhou para fora, contemplando o pôr do sol. Com familiaridade, enfiou a mão no bolso e tirou o cachimbo escondido. Acendeu-o devagar, depois de colocar no fornilho seu fumo predileto. Se sentia, assim, meio menino, tendo que fumar escondido da mulher.

Apesar dos problemas cardíacos, não conseguira se livrar do hábito. Não fumava com a mesma intensidade da juventude, mas não conseguira se afastar do amigo silencioso, que acalmava a mente e prejudicava o coração. Desde o início, era nessa hora do entardecer, depois de encerrar as sessões do dia, que acendia o companheiro inconveniente. Ao pensar nisso, sorveu com gosto a fumaça densa e mentolada de café com rum.

Como explicar ao médico amigo e à esposa que aquilo não era só vício, era também prazer? Como limitar de forma drástica seu desejo, se era disso que tratava na sua prática profissional e se dessa forma fomentava sua clínica? O que ele propunha era justamente permitir aos pacientes fazer escolhas, responder por elas, serem donos do próprio destino.

Terminou de fumar. Bateu o cachimbo contra o parapeito da janela e a fechou. Voltou para o mesmo lugar de onde partira. Sentou-se e se deixou inebriar pela sensação de prazer e realização que o envolvia. Colocou o livro que trazia às mãos na mesinha que abrigava o abajur e se deixou ficar. Fechou os olhos e suspirou mais fundo…

—  Paulo — chamou a esposa, abrindo um pouco a porta, com cuidado e zelo. — Já está tarde! Vamos dormir — disse, já entrando no abrigo do marido.

Ele adormecera. Os óculos pendiam, apoiados no nariz. Ela se aproximou devagar para não assustar o amado. De uns tempos para cá, não era incomum que isso ocorresse: ele ia ao escritório e se deixava ficar até o anoitecer.

— Paulo, acorda, meu amor!

— Paulo…

Ela o tocou levemente no braço, mas ele não  acordou mais.

 

 

4 comentários em “Pensando na vida

  • 30/06/2012 em 13:53
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    Gustavo, adoro ler sua cronicas, mas esta em especial tocou fundo, esta mistura do cotidiano, sonhos, realidade, sentimentos,prazeres da alma e tudo que so alguns sabem escrever muito me emociona. Bravo, que venham outras !

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    • 30/06/2012 em 22:06
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      Sheila é muito bom ter você como leitora!
      Fico feliz que a minha escrita lhe trouxe sentimentos e emoções.
      Escrever para mim é isto,estar junto com o outro e se emocionar junto.
      Abrs,
      Gustavo.

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  • 27/06/2012 em 19:43
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    Agora fiquei preocupado…Eu também tenho uma poltrona…e costumo adormecer nela..Hummm…alto risco! rs rs
    Bem pessoalmente acho que deveria ter “curtido” mais minha vida… Aquelas coisas que deixamos de fazer.
    Talvez perdi tempo demais nas salas de aula… para chegar a conclusão que todos estavam igualmente perdidos…
    Ainda não cheguei aos Setenta e Cinco….
    Creio que vou tirar meu Ano SABÁTICO!
    Obrigado pela dica…

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    • 28/06/2012 em 11:30
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      Manuel
      Eu também tenho uma poltrona,pior estou estudando psicologia.
      Estou com sorte igualmente.Não fiz também setenta e tantos.
      Mas confesso,que gostaria muito de tirar um ano Sabático.
      Um grande abraço.

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