Pensamentos no ar

O vento traz um cheiro de fumaça. Olho pela janela do quarto e vejo uma nuvem estranha no horizonte: acinzentada, não dá vontade de imaginar elefantes ou baleias no ar.

O tempo está seco há vários meses; no início, as pessoas não reclamam, como ocorre com tudo na vida, mas depois de um certo tempo o calor sufocante, a irritação nos olhos, um pigarro que atinge a todos, fumantes ou não, começa a aborrecer. Os jornais alertam que é necessário se hidratar; tirando os beduínos e os camelos, parece que estamos em um deserto.

As flores não entendem o tempo frio nem a baixa umidade e iniciam sua floração, a primavera se antecipa, mas não traz alegria nem prenuncia o amor, apenas preocupação.
O que está acontecendo? O homem agride o planeta e este, apesar de sua benevolência, sofre.

Quando ouvimos falar das queimadas na Amazônia, ficamos apreensivos; contudo, o envolvimento é pequeno. Pensamos: É triste; ainda bem que lá existem tantas árvores. Mas, quando as chamas chegam aos condomínios mais distantes da minha cidade, nos deparamos com a realidade.

Todos estamos, literalmente, no mesmo barco. Navegando no espaco sideral, no silêncio do cosmo, a Terra gira no tempo da eternidade. Enquanto isso, resolvo ligar a televisão e vejo no noticiario que a Serra do Rola Moça – estranho nome para uma serra – queima há três dias. As chamas atingiram os jardins das casas e os moradores tentam apagar o fogo como podem. O vento forte não respeita muros ou condição social e avança sobre o condomínio particular.

Uma tristeza destas renitentes vai me ocupando devagar, a natureza aos poucos alerta: “Parem de me agredir! Vocês não têm para onde ir!” Não escutamos, porém, os avisos dela. As pessoas incendeiam tudo, o lixo, o mato, o pasto, as árvores. Esta história é antiga: os índios faziam assim em pequenas áreas, o sitiante começou com o mesmo tamanho, mas foi aumentando; de lá para cá é só fogo e devastação. Não será hora de parar e ver o mal que fazemos a nós mesmos?

Todo dia saímos, produzimos lixo e não reciclamos, ligamos os carros e vamos ao encontro do engarrafamento, pegamos o avião e cruzamos os céus deixando um rastro de combustivel queimado. Tudo acontece em silêncio e sem constrangimento. No entanto, o mal caminha devagar, invade nossos rios e matas, escurece nosso horizonte. Será que só nós não vemos que os últimos passaros da cidade são pardais e eles não são azuis?

Enquanto vejo a nuvem acinzentada invadir a noite, acompanho sua jornada em direção à cidade que já foi bela e hoje, entristecida, se recolhe em sua timidez sem matiz; nos tempos antigos, tais sinais no céu seriam maus presságios. A noite chega sem trazer novo alento; me encontra assim, olhando o tempo, sabendo que o amanhã virá, e que os homens não olharão ao redor.

Só com meus pensamentos, vou atrás de ancestrais, dos homens que caminharam nesta terra onde o verde se estendia, onde os rios eram claros, onde os pássaros eram senhores do céu. Meus passos não têm pressa, acompanho o barulho da mata com respeito.

Por entre as copas das árvores um raio de sol insiste em me encontrar. Um jovem macaco em cima de um galho me olha com curiosidade. Sou senhor do meu tempo e ele está bom, esta manhã de primavera me encontra feliz. Ando um pouco mais, sentindo a brisa matutina carregando o resto de orvalho da madrugada que há pouco se foi.

Me sinto pleno de alegria. Já fiz minhas orações, agradeci por mais um dia. Diante do riacho me agacho, estendo as mãos, enchendo-as com a água límpida que levo ao rosto. Está fria! Abro os olhos e me sinto em paz.

 

 

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3 Resultados

  1. Cinthia de Castro Amaral disse:

    Gustavo, sinto que REALMENTE precisamos ir até a Fazenda Nossa Senhora das Graças, Vale do Céu, Serra de Santa Maria.
    Irei em novembro, pense seriamente nisso.
    Lindo texto, este sim mostra o momento atual.
    Mesmo assim o anterior (do Padre) me deixou alegre, me fez rir.
    Adoro ler suas crônicas…

  2. Noga Sklar disse:

    Gustavo, aqui na Serra nesta época também é queimada todo dia. É triste. Mas no passo seguinte tudo se renova com força redobrada. Bjs

    • Gustavo disse:

      Noga
      “O homem chega já destrói a natureza diz que tudo vai mudar”,A natureza é forte,mas não cabe judiar dela.bjo.

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