Pedrinhas de brilhante

Finalmente tomei minha resolução de fim de ano, e nem vou deixar para o ano que vem. Já comecei a entrar em forma. Ontem, depois de muito exercício e pouca comida, não conseguia dormir e me pus a caraminholar. Pensei sobre tanta gente que passou pela minha vida e deixou algo de si comigo, para depois sumir para nunca mais. A todos eles agradeço, principalmente aos que me fizeram mal, pois foi através deles que cresci e me tornei forte. Vou falar de algumas de que me lembro.

Não posso deixar de mencionar meus pais, que me amaram muito e me fizeram bem e mal. São minhas primeiras lembranças, e o que carrego até hoje é a certeza de que a gente tem que tomar as rédeas da vida nas próprias mãos, decidir o que quer dela, batalhar e fazer por merecer.

D. Lurdes, a professora do quarto ano do Caetano de Campos, resolveu dedicar um ano de sua infeliz vida para me atazanar. Eu, que já estava passando por maus bocados, sofri muito em suas malvadas mãos: ela dizia que eu era burra. A cada uma de minhas conquistas acadêmicas, que culminaram com o diploma de economista na universidade mais conceituada do país, me lembrei dela e de sua pobreza de espírito, de como sua vida era triste e pobre.

A Beth — bem, na verdade, seu verdadeiro nome era Benedita da Silva, como tantas outras mulatas brasileiras — trabalhava em nossa casa de dia e de noite se prostituía nas ruas do Bexiga. De dia brincava com a gente de esconde-esconde com aquele corpão, sempre fácil de achar. De noite “dormia” com esse e aquele. Perguntei se ela levava o pijama na bolsa, depois ela me ensinou com muita naturalidade em que constituía sua profissão. Era muito boazinha, e me ensinou que prostitutas podem ser muito melhores do que algumas professoras. Aprendi cedo, pelo menos na teoria, que sexo é bom.

O primeiro namorado, daqueles tempos tão diferentes dos de hoje, me fez conhecer outro sentimento, outros namorados que me trouxeram a certeza de que escolhi o melhor.

Teve o Dr. Tulio, que salvou minha vida, e tantos outros médicos e dentistas que cuidaram de mim.

Tiana, que morou comigo por mais de dez anos e me ajudou quando as crianças eram pequenas, sumiu no mundo de repente sem me avisar. Saudades.

Meu primeiro professor de tênis me deu ferramentas para que eu praticasse o meu hobby com alegria. Mas depois de alguns anos se mostrou fraco, sucumbiu aos desejos de sua mulher e fez caquinha.

E há os colegas da faculdade — uma época que deveria ter sido muito feliz e não foi, graças à ditadura. Nunca mais os vi, exceção feita à minha grande amiga Rosa, que foi ao lançamento de meu livro depois de décadas de sumiço. Minha sobrinha Carolina, que tanto me ensinou a respeito de carinho. Virou um balãozinho ou então um pé de vento.

Na estrada que é a vida há todo o tipo de pedras, obtidas com as pessoas com quem trombamos pelo caminho. O início da minha é composto principalmente de argila e pedregulhos, mas, mais e mais, tenho recolhido pedras de brilhante para ladrilhar minha rua.

 

 postado também no meu blog

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

Um comentário em “Pedrinhas de brilhante

  • 24/12/2011 em 00:01
    Permalink

    “Se esta rua / esta rua fosse minha / eu mandava/ eu mandava ladrilhar/ com pedrinhas/ com pedrinhas de brilhante/ para os meus/ para os meus amigos passarem”.
    Boas Festas!!!

    Resposta

Deixe você também o seu comentário