Pedragogia

punkHá muitos anos, o então Governador Brizola criou escolas de horário integral, construídas junto a comunidades carentes, uma ótima ideia que, infelizmente, não ganhou a devida atenção de seus sucessores. Naquela época, esses estabelecimentos de ensino fizeram muito sucesso, mas, como tudo que é novo, apresentaram desafios aos gestores e ao corpo docente.

Novos professores foram recrutados às pressas. Entre os novatos no CIEP de um bairro muito pobre, em Duque de Caxias, estava uma jovem formada havia pouco mais de um ano. Um metro e sessenta e cinco de altura, cinquenta e quatro quilos, rosto arredondado, bonito, olhos miúdos e irrequietos, cabelos naturalmente loiros, com cachos que davam à moça um ar de anjo brincalhão e acolhedor. A voz era de contralto.

Logo na primeira entrevista, a diretora determinou que a novata regesse uma turma mais velhinha. Os pequenos, em alfabetização, se assustariam com a voz e o temperamento da estreante. Foi uma percepção muito acertada. A loirinha de cachos angélicos tinha o poder vocal de uma Billie Holiday e a disposição de um estivador. Acrescente-se ao perfil um filhote de três anos, educado com amor e com limites, e um marido que, àquela altura do campeonato, propiciava chateação ilimitada.

A nova professora era um anjo fumante, com paciência esgotada. Por ironia do destino, seus pais tinham decidido chamá-la “Marguerite”, em homenagem à famosa escritora francesa. O nome costumava provocar risinhos e fomentar a geração de apelidos. Nada disso durava muito tempo.

Na verdade, ela acreditava na necessidade da disciplina, do respeito mútuo, no exemplo da escola atuando na formação do caráter das novas gerações. E isso não podia ocorrer em meio a um randevu de cassarolê. Em dois meses, sua turma de pessoinhas em torno dos doze anos estava disciplinada, começando a render bem nos estudos. Todos, menos um. Um tal de Michael, sempre ausente.

Num belo dia do segundo mês letivo, a porta se abriu com certo estrépito e o faltoso surgiu com meia hora de atraso e sem quaisquer cerimônias. Conhecia e era conhecido pelos colegas do ano anterior. Cumprimentou-os por apelidos e sequer olhou para a professorinha encacheada. Os olhos dela tornaram-se quietos, fixados num ponto da mesa, enquanto sua visão periférica acompanhava o exibido. O mocinho lhe pareceu bem mais velho que a média da turma. Devia estar na casa dos dezesseis. Falava sem parar desde a fulgurante entrada, como se lhe quisesse roubar a regência. Isso ela não permitiria jamais.

Marguerite também não gostou dos cabelos verdes do rapazola, que lhe pareceram originalmente loiros e mal pintados. Detestou os piercings na sobrancelha e nas orelhas. Achou péssimo o palavreado. De imediato, ficou convencida da necessidade de encontrar uma abordagem simultaneamente firme e doce para conquistar o aluno atrasado, descobrir-lhe os problemas familiares, trazê-lo ao caminho produtivo. Tinha decidido ignorar a grande entrance quando o garoto empurrou a mesa imediatamente anterior à sua, fazendo-a oscilar e levar ao chão todo o material da coleguinha.

Marguerite fitou-o nos olhos. Ele sentiu a dureza do olhar, estranhando que viesse de uma garota tão novinha e franzina. Achou melhor botar logo as cartas na mesa e garantir sua habitual supremacia na classe. Chamando um menino próximo de Fofão, perguntou-lhe se estava lembrado de quando ele tinha estapeado a cara da outra professora, muito chata. Marguerite chegou a sentir uma fisgada na têmpora. Uma única frase lhe martelava o pensamento, enquanto se erguia e avançava rapidamente na direção do abusado: isso não vai prestar!

Michael não soube o que fazer quando a loira franzina o arrancou da carteira e o empurrou contra a parede, imobilizando-o parcialmente com um antebraço em seu pescoço, a outra mão espalmada em seu peito e um joelho imprensando-lhe o saco. Arriscou um o que é isso, tia, obtendo como resposta um não sou sua tia, não tenho essa intimidade com você. Marguerite continuou falando alto, num tom ainda mais grave que o habitual, dizendo ao rapazinho que estava pra nascer o homem que lhe estapearia a cara. O jovem tentou se desvencilhar e ela apertou o joelho. Vai bater? Se você vai dar na minha cara tem que ser agora. Vai cair dentro? Como não houvesse resposta, Marguerite largou o garoto e chutou a mesinha dele, derrubando seu material.

Fez-se um silêncio sepulcral na sala. Toda a turma, incluindo o folgazão, pareceu entrar em pânico controlado. A professora voltou à mesa pisando duro e ajeitando a camisa. Não houve mais incidentes no dia.

O aluno rebelde passou a chegar no horário. Procurava acompanhar a matéria dada e conseguir alguma atenção da mestra. Uma semana depois, ela percebeu que ele trazia cadernos novos e uma caixa de lápis de cor, bem pequena, das mais baratas. Na primeira dúvida que ele apresentou, trouxe-o para a sua mesa, orientou o trabalho e passou-lhe um carinhoso sermão. As coisas estavam no eixo.

Na semana seguinte, num dia muito tranquilo, um burburinho começou a crescer na escola. Foi logo depois do almoço e vários alunos foram ao encontro de Marguerite para avisar-lhe que o pai do Michael estava lá e queria vê-la. Ela estranhou o nervosismo dos estudantes, estranhou o olhar preocupado da orientadora pedagógica e foi atender o responsável sem entender direito a agitação em torno da visita. Enquanto caminhava para a sala de reuniões, pensava ai, meu Deus, esse babaca desse garoto contou tudo ao pai e ele vai me processar. Que seja!

Encontrou um homem simples, um tanto desconfiado, de modos comedidos, falando errado e querendo saber o que estava acontecendo com o filho. Marguerite lhe disse que Michael vinha melhorando em tudo. Nos estudos em sala, nos trabalhos de casa, na apresentação pessoal, na assiduidade, tudo, tudo. O pai coçou a cabeça dizendo que vinha notando as mudanças no filho, que, agora, fazia dever, ficava em casa lendo, até pediu lápis de cor pra um trabalho… tudo muito diferente. E acrescentou não saber o que a professora tinha feito, e, pelo jeito, ela não ia contar, mas tinha sido muito bom. Estava gostando. Estava muito sastifeito. Na saída, estendeu a mão a Marguerite, dizendo que se ela precisasse de algum selviço era só chamar. Pra ela, ele faria de graça.

Marguerite saiu aliviada da conversa, imaginando se aquele homem seria bombeiro hidráulico ou pedreiro. Talvez precisasse mesmo contratar alguém dessa área. Mal abriu a porta interna e a diretora estreitou-a num meio abraço, perguntando se estava tudo bem. Mais três professoras a imitaram. A loirinha ficou ressabiada, mas sorriu. Estava tudo nos eixos. Andando para a sala de aula, foi cercada por um grupinho de alunas, todas muito preocupadas. Marguerite quis saber que agito era aquele, qual era o problema com o pai do Michael, o cara era até simpático. As crianças arregalaram os olhos e uma delas respondeu o pai do Michael é matador.

Passado o susto, tudo voltou ao normal. No fim do ano, a turma de Marguerite obteve aprovação integralmente e sem subterfúgios. Todo mundo sabia a matéria, porque a tia não dava moleza. Se fosse preciso era duríssima. Lembrava-se sempre d’”A Educação pela Pedra”, dando ao poema de João Cabral de Melo Neto uma interpretação muito pessoal.

No ano seguinte, Marguerite foi eleita diretora pela comunidade. Michael não aceitou continuar com a nova professora da turma. Depois de muita luta, a loirinha conseguiu transferi-lo para outra escola, com curso profissionalizante. Mais ou menos um ano depois, matadores rivais invadiram a casa do garoto e executaram seu pai e sua mãe a tiros de fuzil e submetralhadora. Michael conseguiu agarrar o irmão menor, pular a janela e escapar da tragédia de uma vez por todas. Marguerite ficou sabendo, passado um tempo, que ele continuava a estudar, morava com a avó em Macaé e trabalhava como torneiro mecânico. A loirinha boa de briga ficou ainda mais convencida de que, vez por outra, umas pedradas figurativas podem fazer muito bem.

 

 

Rosimêre Fonseca de Moura

Rosimêre Fonseca de Moura é carioca da gema. Nasceu na Boca do Mato e foi direto para a fronteira entre o Rio Comprido e o Estácio (holy Estácio). Muitos rios passaram em sua vida, incluindo aquele desfile memorável da Portela; geraram uma cálida preferência pela combinação entre azul e branco e uma tórrida paixão por sua cidade natal. Quis ser sambista, sonhou ser astronauta. Formou-se professora de Português e Literaturas de Língua Portuguesa, publicou dois livros e centenas de crônicas e contos em veículos de circulação restrita. Assina, também, o blog Textos Curtos (http://textcurt.blogspot.com). Seu livro de contos, Além das cortinas, foi publicado pela KBR no dia 8 de março de 2013, Dia da Mulher, e estreou com destaque na Amazon .

8 comentários em “Pedragogia

  • 01/03/2013 em 21:32
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    Adorei! Disciplina sempre! Bjs!

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    • 13/03/2013 em 23:36
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      Obrigada, querida. E saiba que você conhece a “musa inspiradora” desta crônica.

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  • 28/02/2013 em 21:06
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    Belo texto, Rose, muito real nos tempos atuais e tb por isso bastante tocante. E a sua sensibilidade sempre apuradíssima…

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    • 13/03/2013 em 23:35
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      Obrigada, amiga. Desculpe a demora na resposta.

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    • 13/03/2013 em 23:34
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      Pois é…

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  • 28/02/2013 em 10:27
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    Fiquei muito emocionada!!! Não sei usar tão bem quanto você as palavras amiga, mas, sei bem como crianças e adolescentes GRITAM, pedindo limites. BJ

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    • 13/03/2013 em 23:34
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      Obrigada, querida.

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