Pedi e obtereis!

Toda cidade do interior de Minas tem uma igreja, e toda igreja tem um padre, responsável por atender os fiéis e tentar salvar as ovelhas desgarradas. Padre Antônio era um desses pastores, um exemplar já idoso, mas determinado. Na região da cidade de Santana do Oeste era respeitado e querido. Todo domingo subia ao púlpito e, do alto, contemplava os habitantes da cidade.

Após a leitura da mensagem do Evangelho, esclarecia a assembleia sobre a importância da caridade e do socorro aos necessitados. Para tanto, insistia, a contribuição do dízimo era fundamental. E apesar de suas súplicas, a contribuição dos paroquianos vinha escassa. Respondiam que não faltava vontade; é que o período das secas prolongadas resultara em baixa produção das lavouras. Assim, o que se colhia era pouco e o lucro da venda dos produtos, menor ainda.

Padre Antônio não se dava por vencido: procurava individualmente todos os paroquianos e os conclamava a ajudarem os desfavorecidos: se alguns tinham pouco para ofertar, pior era a situação dos que nada tinham. Todos apresentavam as próprias dificuldades; falavam da seca, da vontade de contribuir e da impossibilidade de fazê-lo. A despeito dos esforços do sacerdote, sua jornada era, em geral, infrutífera.

Nosso vigário, sentindo-se angustiado pela situação dos desvalidos, pregava cada vez com mais veemência. Mas, malgrado a verve por vezes exaltada, sua própria colheita continuava pequena. Desesperado pela iminência da chegada do dia da padroeira do município, se pôs de joelhos uma noite, em seu quarto. É que toda a renda das quermesses era revertida para as família carentes. O povo ajudava e de quebra se divertia. Pediu, com clareza e fé, o auxílio de Deus, dos anjos, dos apóstolos e dos santos. Que o acudissem com a vinda das chuvas para que o auxílio chegasse aos mais necessitados!

Naquela noite, por misericórdia divina, a chuva veio e se manteve por mais de quinze dias. Nesse período, sabendo que a desculpa da falta de água não poderia mais impedi-lo de conseguir ajuda para os pobres, o padre dirigiu-se à Fazenda do Riacho, cujo proprietário era o homem mais rico da região. Na véspera do dia santo, embora ouvisse até o fim os apelos do religioso, o fazendeiro se declarou impedido de ajudar, pois as águas tinham vindo, era verdade, mas com tanto atraso que provavelmente ele teria suas plantações prejudicadas. Ignorando todas as súplicas do pároco, o velho coronel se esquivou de atender a demanda. Padre Antônio, se sentindo envelhecido e cansado, voltou triste à casa paroquial .

Naquela noite, porém, os raios cortaram o horizonte daquele vilarejo. Choveu como não chovia há muitos anos. Dois dias depois, era de novo domingo. Nosso padre se dirigiu mais uma vez a seus paroquianos, num discurso inflamado:
— Meus caros amigos! Gostaria de interceder mais uma vez, junto a vocês, em favor dos nossos irmãos mais necessitados. Poucos dias atrás procurei o Coronel Jesuíno, o maior fazendeiro de nossa região, para que ajudasse na realização de nossa festa da Padroeira. Pedi socorro a esse irmão para montarmos nossas barraquinhas e quem sabe, oferecermos uma prenda a quem precisa. Disse-me ele que não poderia nos valer em face das dificuldades da falta de chuva em nossa região. Pois então, meus amigos, não é que choveu? Choveu forte anteontem. Choveu com raios e trovoadas. E o pior… — E aqui parou, numa longa pausa. — Um desses — prosseguiu, enfático — caiu na fazenda do coronel e, ao atingir o chão, matou doze das vacas mais premiadas que ele possuía. Que isso nos sirva de reflexão! De que valem os bens da terra se não os usamos bem? Assim, meus caros, volto a vocês no intuito de lhes rogar que nos auxiliem na festa e nas prendas ofertadas em nossas barraquinhas. Aquele que puder, dê um boi! Se não for possível, seja uma vaca! Aceitaremos ainda um bezerro ou um peru. Um galo será igualmente bem-vindo, uma galinha, um frango, até mesmo um mísero ovo aceitaremos de bom grado. Só não deixem de ceder algo aos irmãos que nada possuem. Não façam como o nosso amigo fazendeiro, pois os sinais estão nos céus e nos avisam da importância de abrirmos nosso coração…

Naquele ano, a festa da padroeira foi a mais bonita de todos os tempos. Ninguém ficou mais pobre. Ninguém ficou mais rico. Todo mundo participou. Não choveu no dia da festa.

 

 

2 comentários em “Pedi e obtereis!

  • 23/11/2011 em 20:21
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    Olá Gustavo,

    Adorei sua crônica. O céu está sempre pronto para dar respostas. E voc~e contou a história de forma magnífica. Parabéns!
    beijo grande

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