Pedaços de mim

Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu.
Chico Buarque

 

Alan, coitado, quando me conheceu, já me encontrou assim, com mãe doente, dependente, um sofrimento intermitente, e muito pior, mais grave, naquela fase em que eu não sabia o que fazer, que doença era aquela e o que haveria de acontecer. Preocupou-se demais o meu namorado recente com as máscaras de madeira por trás de mim, mas eu disse que não eram minhas, a casa não era minha e aquela mal era eu, e juro, não menti.

Ele aquiesceu. Confessou-se apaixonado por uma crônica que eu escrevera meses antes, algo sobre um poste numa rua do Leblon de que eu me lembrava mal mas que tinha publicado na internet em inglês, ele entendeu, nem sei bem onde pois nem blog naquela época eu tinha, não podia ter, todo o meu tempo de amor e trabalho dedicados à querida Evinha que recentemente, como vocês sabem, veio a falecer.

Durante anos bem que procurei, depois desisti, dei por perdido o tal texto que à guisa de elogio Alan comparava a Saint-Exupéry — compara até hoje —, como tantas outras coisas que perdi. Pois, pasmem: mais perdido ainda no fundo de uma gaveta na casa de mamãe, cheio de coisas bem menos relevantes por cima, encontrei há dois dias inédito e intocado o que deveria ter sido o meu segundo livro (já estou no oitavo!) do qual eu mesma confesso ter me esquecido completamente, menos esotérica do que no primeiro, ainda bem, mas ainda com aquela mania de saúde extremada — sai, rotina — que, eu acreditava, me levaria aos 150, serelepe e sozinha, eu, hein? Pra quê tanta vida perdida em tantos planos superorganizados de vida eu hoje em dia já não sei, deixei tudo de lado quando o encontrei, o Alan, digo, mas se a tal crônica-isca estava lá registrada, em algo de bom para alguém esse livro ainda deve dar. Dará. Sai em breve, em não criticado teor original apesar do ultrapassado testemunho que prescreve: a gente muda, e o aprendizado do tempo é isso também.

Alan esperou. Numa intuição perfeita, a data da viagem marcada com antecedência de três meses acabou incluindo o enterro com o qual ele tanto se preocupou, e ainda o primeiro período do luto (embora, para o alívio da razão lógica, meu irmão tenha decidido que a gente não se “sentaria” pelos sete dias tradicionais, apenas se lamentaria em silêncio, cada qual na sua conduta sofrida). Foi o sexto homem a carregar o caixão daquela que não o conheceu nem nunca o apreciou — mamãe nunca soube quem ele era, como me amava e viria a praticamente me salvar a vida, e toda vez que o via no clube ou em casa, enquanto ainda via alguma coisa, dizia invariavelmente “Que homem feio! Mandem ele embora daqui!”, ainda bem que ele não entendia português, e a gente ria, fazer o quê —, quase escorregou sob a pesada carga, aquela e outras mais que carregamos juntos nesses nossos sete anos e meio, tendo caído no meio disso tudo meio sem saber direito no que haveria de se meter, eu no namoro na internet tendo escrito abertamente sobre aquilo que conseguia compreender, o que não incluía o processo degenerativo de minha mãe e todas as suas nefastas consequências.

Se não fosse um espanto, não seria de espantar: D. Eva era dura na queda, nunca gostou de verdade de nenhum dos meus namorados ou maridos, mas tudo isso e muito mais já ficou para trás. Pois é. Fui lá e juntei os meus cacos espalhados, alguns por mim outros por ela, os pedaços exilados de mim — metades afastadas de mim que doem, até hoje doíam ainda, como espinhos cravados na carne nociva das lembranças —, esparsos recortes e retratos, alguns preservados com carinho, outros rasgados, ocultos, repisados, mas, felizmente, ainda a tempo de serem remontados ao lado de outros que Alan demoradamente recuperou, me ajudou a recuperar: esta bem que sou eu, inteira agora, pairando na dança do recompilamento final deste velho quebra-cabeças de uma família, desculpem, com plural errado e tudo.

Trouxe comigo na volta do Rio, serra acima, a geladeira que quando eu chegasse em casa haveria de concluir o longo processo de arquivamento familiar, uma Brastemp amarrada, lentamente arrastada na carroceria de um instável caminhãozinho de frete azul, ah, mal sabia eu. Naquele mesmo dia mais tarde, em quatro horas de intensa faxina — meu deus, nunca vi uma geladeira tão nojenta, não era lavada há no mínimo sete anos! —, limpei do corpo e da mente a sujeira que o maldito alzheimer (com minúsculas, por favor) impregnou em mamãe e em mim, cada pedacinho, panos rasgados, rolos de papel espalhados, vidros de detergente detonados, eis o que ocorre aos pobres coitados, azarados, que perdem a capacidade de manter preservados seus próprios rituais, um dos processos mais deprimentes que se pode enfrentar numa vida, francamente: mamãe, pelo que me lembro, nunca passou uma semana sem limpar cantinho por cantinho esta geladeira seminova que ela adorava — que eu mesma dei a ela em pagamento de uma dívida — e que vejo hoje em minha cozinha, limpinha, bem como ela gostava, fazia questão.

Meu corpo todo dói, mal dormi a noite passada, mas, finalmente, relaxei. Estarei pronta para ser feliz? Não sei. E o que tem a literatura a ver com isso?

No mais, transferi esta manhã para a terra daqui de casa, a rudes golpes de enxadão — ops, enxerida, nada mal para uma neossedentária sessentona do gênero feminino —, o abacateiro de sete anos que, teimoso e difícil como esta cronista que o plantou, lá e cá, vingou de uma semente bastante fértil e acabou sobrevivendo num vaso quebrado de apartamento: cada um cresce como pode, do jeito que dá, mas nem pelo mais vil dos atos alguém neste mundo deveria ser obrigado a acatar isso, já que somos do mato, resistentes como o nosso gato, digo, Alan e eu: veremos daqui para frente, sem aquela tensão sempre iminente a nos ferir, que frutos trará o nosso insistente amor. A árvore da felicidade, que há anos já não cheirava — Fátima nem sabia que ela cheirava quando a gente se aproximava —, deixei no vaso original, só dei uma boa rearrumada nos galhos retorcidos e embolados; a velha Flor de Maio compartilhei entre vaso e jardim, acredito que possa reflorir assim, se não neste maio, no próximo, já refeita das mudanças que sofri.

Eva partiu. Alan viajou. E eu, que embora muito ligada a ambos não sou ele nem sou ela, tento me recuperar o melhor que posso de tudo aquilo que se passou. Quanto às nem sempre bem-vindas mas sempre inevitáveis férias de marido, serão este ano, ao todo, 24 ciclos completos de 24 horas sem tê-lo ao meu lado como amante e amigo, ele eu não sei, mas eu, posso confessar, não tenho vergonha nenhuma disso: nem bem se passaram três e já estou morrendo de saudade.

E um bom restinho de domingo procês. Sobra feriadão aí, ainda bem, vou dar um tempinho só pra mim.

 

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3 Resultados

  1. ethel disse:

    Lindo, lindo, lindo!

  2. Imensa sensibilidade.

  1. 29/04/2012

    […] resto, aqui. Compartilhe isso:FacebookCompartilharEmailImprimirDiggRedditStumbleUpon Categorias:Noga Sklar […]

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