Passado a limpo

Diante da pilha de roupas que deveria passar ao longo do dia, ela assistia em flashback a pelo menos duas décadas da sua vida. Não havia engordado nem emagrecido exageradamente, de modo que muito dos antigos trajes, comprados na casa dos trinta, ainda continuavam a vesti-la. Porém não mais perfeitamente, é verdade, pois ela já não se encaixava na pessoa que tinha sido e nem suportava modelos justos que lhe roubassem qualquer liberdade.

Então foi assim, passando o passado a limpo, que ela decidiu que as velhas roupas desfilariam pela última vez na sua frente, pois trataria de doá-las a quem bem servissem, no dia seguinte.

Nunca se preocupara muito com o futuro e menos ainda com a idade. Mas atenta ao ferro que alisava lindamente os tecidos, não podia deixar de pensar se um dia esticaria as próprias rugas. Obviamente, se pudesse, preferiria manter-se jovem e flexível como fora antes. Dispensaria também os óculos com os quais agora brincava de esconde-esconde. Mas apesar dos lapsos de memória e das dores generalizadas pelo corpo, até que envelhecer era bem divertido.

Ela agora vivia um adolescer ao contrário, em nada doído como foi o primeiro. Usando as lentes de alguém bem vivido, ela finalmente descobria que ser velha e sábia é ainda mais libertador do que fazer dezoito anos. Afinal, a que modelos tentaria seguir ou se adequar, se nunca, em toda a sua vida, esteve tão inteira com ela mesma? E o que importava o que ela aparentava, se no fim das contas podia ver muito além das aparências?

E em meio à alquimia que a fazia se ver mais parecida com a mãe do que com ela mesma, compreendia que cada etapa da existência é uma parte imperdível do caminho que invariavelmente nos leva para casa.

 

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5 Resultados

  1. Na boa, envelhecer tem sido uma delícia.
    A gente tenm ficado cada dia mais lindo…

    • ethel disse:

      Disse tudo, Paulinho!
      (Se é que você ainda pode ficar mais lindo…)
      Beijão, amigo. Adorei o carinho.

  2. priscila ferraz disse:

    Seus textos são deliciosos.

    • ethel disse:

      Ah, Priscila! Agradeço amiga!
      Entre as nuvens de pó e as nuvens passageiras a gente faz o melhor que pode, né?
      Eu também tenho adorado seus escritos, mas não consigo postar comentários, só tenho a opção responder!!!
      Vou pedir ao Caetano que me salve. ..Até lá com um beijão, querida!

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