Paris nem sempre é uma festa!

Algumas histórias me tocam. “Meia-noite em Paris” foi uma delas. É verdade, só agora vi a película de Woody Allen. Perdi aquele costume antigo de ir ao cinema, talvez por ter encontrado tanta gente fazendo um festival de pipoca na sala de exibição, talvez porque eu tenha, com o tempo, ficado mais chato. O certo é que, para desgosto de minha mulher, tenho ido pouco ao cinema. Mas não quero falar das minhas implicâncias, e sim do filme.

Numa noite tranquila, peguei o vídeo numa locadora e, acompanhado da esposa, juntos no sofá da sala, me redimi ao menos um pouco. À parte a beleza das cenas em si, de uma Paris deslumbrante, e sem entrar propriamente no enredo — pois alguém pode não ter visto o filme e não quero estragar o prazer contando mais do que devo —, o que me tocou foi a ideia da insatisfação do tempo do viver.

Essa sensação de querer ter vivido numa outra época que era melhor que a atual não me é estranha, quem sabe porque um sonho ou fantasia costuma ser mais rico do que a realidade, quiçá por imaginar que o mundo em outra época do passado era mais belo e encantador. Fico pensando, ainda, se é o receio diante do futuro que nos faz de algum modo voltar ao passado, como se pudéssemos reescrever nossa história e criar um final feliz para nós mesmos.

Sinto, muitas vezes, que viver neste tempo em que tudo é tão rápido e efêmero não me seduz. Hoje a cultura passa despercebida, e o fato de o valor do dinheiro frequentemente se sobrepor a qualquer relação pessoal verdadeira pode favorecer esta minha impressão. No filme, o personagem tem a oportunidade de buscar outras respostas. Sua dificuldade de lidar com seu querer, ou a facilidade com que entrega sua vontade nas mãos dos outros, me fez refletir. Neste mundo meio louco dos bits e baladas, champagnes e cervejadas, me sinto meio perdido, como um personagem fora do lugar. Não compreendo bem essa necessidade urgente de felicidade, a falta de espaço para uma tristeza normal, a necessidade de se falar e rir cada vez mais e cada vez mais alto.

Por vezes, sonho com uma conversa na sala, um sarau, um chá ou um café servido com gosto, quiçá um cálice de vinho do Porto. Será possível conversar sem preocupação com alguma gozação por vezes agressiva, de alguém que insiste em ser engraçado à custa do embaraço alheio? Volto a Paris numa época em que talvez o mundo fosse mais bonito e as pessoas mais interessantes, quando havia espaço e lugar para sermos verdadeiros. Mas percebo que esse mundo que busco tem também suas fragilidades e, por melhor que seja a fantasia, a realidade tem outras cores.

O sonho de viver entre artistas, de estar presente enquanto o belo é criado, não é negativo. O ruim é acreditar que nada de novo também possa surgir agora; é desconsiderar o presente, vivendo na apreensão de um futuro sem cor estampado nos jornais. Tantas notícias nos ameaçam e nos amedrontam, tantas mazelas e sofrimentos, anunciados já ao nascer do dia. O pensamento se desgasta com o mal e o malfeito engolidos junto com o café da manhã. Fica uma sensação de desesperança e um gosto amargo na boca, que não vem do café.

Mas se Paris não é mais uma festa, a vida também não é uma tragédia publicada num jornal. Viver é renovar o pensamento, é construir a própria vida com seu próprio argumento. É sair da fantasia e não ter medo do futuro, é contar a própria história, na qual o final feliz depende da coragem de aceitar este tempo e vivê-lo da melhor forma possível.

 

 

2 comentários em “Paris nem sempre é uma festa!

  • 21/12/2011 em 13:12
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    Gustavo, pra mim ainda é pior, nem tem videolocadora aqui perto, dependo do pay-per-view… e eu era cineclubista de carteirinha… a vida vive mudando de festa, né? Tô esperando o “Meia-noite em Paris”, se não chegar, vou a Paris buscar, rsrs.

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    • 21/12/2011 em 15:45
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      Noga não deixe de ver,e depois vá a Paris!
      Vc merece!
      Bjos.

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