Para bom entendedor meia palavra não basta

— Vou me separar do Heitor.  Chega.

— Mas você o adora!

— Adorava.  Ou ainda adoro, não sei bem.

— Jogar fora um relacionamento desses? Muita gente se mataria por um cara que nem o Heitor, pintoso, elegante, bem de vida.

— E mudo. Tudo que eu falo arranca dele uma resposta de, no máximo, duas palavras monossilábicas. Depois de quinze anos, a gente se cansa de tentar adivinhar o que o outro está pensando.

— Mas você não reclamava?

— O tempo todo. Inútil insistir. Cansei de falar sozinha. Se não me separar agora, vou acabar ficando igual a ele.

— Mas vocês são um casal que não briga.

— Claro, ele não abre a boca nem para brigar! Me acostumei a observar os seus menores gestos: cada som, cada grunhido.  Tenho certeza de que sou a maior especialista do mundo em humms, ahs, grrs e grunfs. A gota d´água aconteceu um mês atrás.  Eu estava louca para ver um show do Roberto Carlos e pedi para ele comprar os ingressos. Interpretei como “sim” o resmungo que recebi como resposta, comprei vestido novo, montei uma produção completa e na véspera descobri que o “sim”, na verdade, era “não”, e os ingressos já estavam esgotados. Passamos uma semana sem nos falarmos, quer dizer, eu passei uma semana sem falar com ele. Desconfio até que ele achou ótimo, fantasiou que eu tinha entrado na dele. Dá para encarar um marido desses?  Só se for carma de vidas passadas e, se for o caso, já paguei tudo com juros.

— Quando vocês se conheceram ele não era assim? Por que você se casou?

— Burrice, inexperiência, paixão, tudo misturado. Quando a gente namorava ele falava pouco, mas depois do casamento piorou muito.

— Mas você não está com medo de se arrepender? Afinal, nem tem certeza se ainda gosta dele ou não.

— Acho que ainda o amo, mas pensei muito e vou arriscar a separação. Quem sabe ele não fala comigo porque não tem nada de interessante para me dizer? Preciso de diálogo. É triste terminar a vida fazendo as perguntas e dando as respostas. Já comuniquei ao Heitor que vou entrar com o pedido de divórcio na semana que vem.

— Aposto que ele ficou arrasado.

— Não tenho certeza. Sabe o que ele disse?  Grunnf.  Só isso: grunff.  Em voz baixa.  Se ao menos ele tivesse dito gruff ou grrrrff eu até que teria ficado. Mas, grunff?  Francamente!

 

 

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