Papai é uma múmia?

Na Índia, um homem chamado Mohandas Karagrande voltou à ativa trinta anos depois de aposentado, tornando-se pai pela primeira vez aos noventa e quatro anos. Entrevistado, Mohandas brincou com nosso repórter:

— Daqui a dez anos  volte para me visitar, e você poderá me filmar jogando futebol com o meu filho!

Tudo é possível.

Em palestra na Academia Britânica de Ciências, o polêmico biomédico Aubrey De Grey nos garante: a primeira pessoa que irá comemorar o aniversário de 150 anos já nasceu. E a primeira pessoa a viver mil anos pode demorar menos de 20 anos para nascer.

De médico e louco cada um tem um pouco. Difícil vai ser nascer o primeiro homem a não tirar meleca do nariz. Brincadeiras à parte, se as previsões de De Grey estiverem corretas ( se Abrãão não tivesse comido Sara aos noventa e nove anos a civilização judaico-cristã não teria existido, mas isso não tem nada a ver com o papo, afinal, quem não gosta de dar uma escapulida?), como eu ia dizendo, se tudo acontecer de acordo com a previsão dos cientistas,  daqui a 25 anos o problema do envelhecimento dos bípedes estará sob controle. E quando esse dia chegar, o cliente levará seu corpo ao geriatra como se leva o automóvel, mantendo a garantia da máquina desde que obedeça às revisões periódicas, submetendo a carcaça e os órgãos internos à “manutenção” regular, o que inclui terapias genéticas e homocinéticas, picadas de abelhas africanas na cabeça do pênis, injeção de células-tronco na raiz dos cabelos, estimulação imunológica no mamilo esquerdo, bombardeio nuclear das mitocôndrias com leite de cabra, malte escocês e amêndoas, e várias outras técnicas avançadíssimas.

 

Brasil: um país de idosos. Em fins da década de 1960, o Brasil tinha 70 milhões de habitantes, cerca de 35 milhões dos quais eram jovens, na faixa de15 a 24 anos. Em 2050, o Brasil baterá a marca dos 220 milhões de bípedes, sendo que 50 milhões deles terão mais de 65 anos, com metade da população adulta na casa dos quarenta anos de idade.

Em meados dos anos 1970, Nelson Rodrigues escrevia uma coluna diária no jornal O Globo, falando de tudo e de todos, gozando a cara da direita e da esquerda.  Para não ser confundido com “o jovem”, o Anjo Pornográfico batia no peito e gritava:

— Eu sou uma múmia do tempo da escarradeira na sala.

Mas, afinal, quem era o jovem da década de 1960? E por que a nossa flor de obsessão detestava tanto o culto ao “jovem”?

Para Nelson, o jovem não existia; o jovem era um rosto na multidão, um pulha capaz de atirar a filha de oito anos pela janela do apartamento. O jovem tinha sido inventado pelos padres de passeata; comunista de fachada, o jovem sonhava com a Revolução entornando baldes de chope no Antonio’s.

Discordâncias ideológicas à parte, ao menos nos idos de 1960/70 a música que fazia a cabeça da juventude era bem melhor do que as que tocam nas rádios de hoje.

Em algumas de suas crônicas, Nelson Rodrigues retratou com espantosa atualidade o que seria a Ditadura Jovem. As campanhas publicitárias estão aí, para confirmar a tese do Anjo Pornográfico.

Os jovens não sabem de nada, tá ligado? Mas quem domina o Mercado de Consumo? Para quem são lançadas as novas tecnologias de comunicação? As drogas mais pesadas? As baladas mais quentes? As calças de bunda baixa? Quem passa mais tempo na internet? Quem manda e desmanda nos país, nos professores e até nos meteorologistas? Para quem são compostas e cantadas, até arrebentar o nosso saco, graças ao jabá que abastece as emissoras de rádio e televisão, as piores músicas da atualidade?

Em certo trecho do livro O óbvio ululante, na crônica “O jovem monstro”, Nelson Rodrigues profetizou:

“Sim, todo mundo quer ser ‘jovem’. Não importam os méritos, os feitos, as virtudes, os pecados de ninguém. Só importa ser ou não ser jovem. E os que, por indesculpável azar, envelheceram, procuram uma espécie de rejuvenescimento no convívio das Novas Gerações.”

 

As múmias se divertem. Até meados do século vinte, as múmias eram reconhecidas pela aparência externa: pele seca e quebradiça, unhas grossas, nariz grande, orelhas cabeludas, olhos embaciados, cabelo ralo e seco, cicatrizes, rugas, bandagens, bengalas. Ah, e o cheiro inconfundível de formol e naftalina.

Agora, a coisa ficou complicada, não se sabe mais quem é jovem ou quem é velho. Os garotões da Terceira Idade curtem as mesmas músicas, vestem as mesmas roupas dos adolescentes. Os velhinhos não se dão ao respeito, azaram as meninas novas e gostosinhas, adoram Shopping Centers, frequentam baladas e até falam a mesma língua da garotada. Mas isso não é pra qualquer um. Custa uma fortuna manter-se jovem: é muita plástica, reposição hormonal, Botox, silicone. E para dormir, em lugar de formol, as múmias do Século XXI usam duas gotinhas de Chanel Número 5.

 

Velho babão, velhaco, velha fútil, velha safada! E sobre os velhos de hoje, o que teria a nos dizer o impagável Nelson Rodrigues? O mesmo que disse para os jovens na década de 1960:

“Ou o sujeito prova que tem mais de sessenta e cinco anos ou não entra em minha casa. Por que deveríamos acreditar em uma certidão de nascimento? Só por que o documento foi emitido no século passado?”

Se estivesse vivo, o Anjo Pornográfico na certa escreveria uma crônica sobre essa mania tola que tem levado as pessoas a esconder por debaixo da pele a verdadeira identidade, querendo ser jovens para sempre. Nelson não entenderia patavina ao ver meninos e meninas, de oito aos vinte anos, tratando-se mutuamente por veio.  É veio pra cá, veio pra lá.

Perigo. O cenário do jogo demográfico está mudando. Breve, na cidade onde você mora, os mais velhos é que vão dar as cartas, e as mulheres serão maioria entre a população da Terceira Idade. Em 2050, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, para cada grupo de 100 brasileiras com mais de 80 anos haverá 61 velhinhos do sexo masculino na mesma faixa etária: muitos machos idosos vão ficar na mão, literalmente.

Na segunda década do Século XXI, enquanto os garotões morrem feito moscas, a galera da terceira Idade vive muito mais, e cada vez melhor.

Em descarada concorrência desleal com os mais jovens, a patota da Terceira Idade enfrenta qualquer parada. Depois dos sessenta, os velhinhos aprendem nova profissão, ajudando a reduzir o Custo Brasil. Os patrões dão preferência a eles, já que vovôs e vovós não são obrigados a recolher o INSS, não exigem vale-transporte, aceitam trabalhar sem carteira assinada e não esquentam a cabeça ao receber no final do mês um salário mínimo.

Os idosos fazem qualquer coisa pra não envelhecer. Eu disse qualquer coisa. Sem medo de passar vexame, os ativos idosos voltam aos bancos de escola, frequentam seminários, leem pra caramba, navegam na internet, qualificam-se, roubando assim o primeiro emprego dos garotões bobos de vinte anos. Com grana no bolso, tendo em vista a renda salarial em dobro (um salário da Previdência, outro ganho na iniciativa privada), e experiência afetiva na bagagem, adquirida em anos de estrada, os velhinhos roubam também as namoradas dos pirralhos.

 

Somos tão velhos, não temos tempo a perder. Não lhes peçam paciência. Depois de aposentados, os idosos da Terceira Hora não conseguem ficar sentados nos bancos de praça, esperando a morte chegar.

A galera da Terceira Idade é muito prestativa, sempre disposta a melhorar o mundo. Também, pudera, os velhinhos gozam de uma série de benefícios: transporte gratuito nos ônibus municipais, passagens de graça em viagens interestaduais, atendimento preferencial, Caixa Exclusivo nos bancos, vagas privativas em estacionamentos públicos, vacinação periódica, academias e professores de ginástica bancados pela Prefeitura.

Preocupados com a aparência, os jovens da Terceira Idade experimentam de tudo: nadam, voam de balão, pulam de paraquedas, andam de skate, saltam de asa-delta, pedalam, engraxam sapatos, carregam compras, brincam de pique esconde com os netinhos, ufa! E de noite os velhinhos ainda transam!

A onda da moda é não envelhecer, de preferência não morrer, ficar por aí esquentando o planeta, respirando oxigênio poluído. Quem desperdiçaria a chance de um dia ser entrevistado pelo Globo Repórter como o velhinho mais sarado do planeta?

Mas, para manter-se jovem depois dos sessenta é preciso pagar a conta. O homem maduro, quando tropeça, cai e quebra logo a bacia, ou fica paralítico, sendo obrigado a gastar os tubos com medicamentos. Perder a mobilidade é uma tragédia. Morrer não faz parte do Plano de Saúde do pessoal da Terceira Idade. As jovens múmias só desejam a felicidade. Haja Viagra! Querem gozar a vida e tem que ser agora! Já!

 

Onde os velhos perderam a memória? Não importa a sua experiência, se você foi astronauta, engolidor de espadas, se surfou ondas gigantes na Austrália, ou se lutou contra a Ditadura Militar nas selvas do Araguaia. Ninguém quer perder tempo escutando histórias do Século XX: está tudo na internet.

No encalço da senilidade, o perigo é o Mal de Alzheimer. Quanto “mais pra frente” a galera da Terceira Idade, mais os idosos se esquecem do passado. Diz o Doutor Dráuzio Varela:

“Daqui a alguns anos teremos velhas de seios grandes e velhos de pinto duro, mas que não se lembrarão para que servem.”

Mas se você, jovem múmia cheia da grana, por força do destino vier a falecer antes de atingir a marca de 140 anos, ainda existe a possibilidade de congelar o próprio cadáver. Tem uma empresa americana especializada neste tipo de serviço. E, quando descobrirem a cura de sua morte, quem sabe daqui a cem anos, seu corpo jovem e conservado estará preparado para a ressurreição, e você poderá até ser contratada para integrar o elenco de “Thriller”, com Michael Jackson cantando e dançando (ao) vivo!

 

Nota da redação: uma versão desta crônica faz parte do livro “A volta da mulher barbuda“, lançado em 2011 pela KBR.

 

 

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