Papa Pinto Primeiro

Ao longo dos séculos, historiadores vêm compilando crônicas sobre mulheres que ocultaram o sexo por baixo dos panos para se verem admitidas nas ordens clericais.

Houve um papa mulher, com poderes de vida e morte sobre o rebanho. Cronistas da época, dentre eles Boccacio e Petrarca,  contam histórias divergentes, mas as lendas se afunilam em torno de um nome: a Papisa Joana.

Numa das passagens mais pitorescas do catolicismo, conta-se que “Joana foi desmascarada ao dar à luz um filho prematuro, enquanto cavalgava em uma procissão indo de São Pedro ao Palácio de Latrão” (Nigel Cawthorne, A vida sexual dos Papas). Desde então, os papas evitam andar a cavalo, e não passam nem mesmo de Papamóvel por uma rua estreita que fica entre o Coliseu e a Igreja de São Clemente.

Noutras fontes, monges revelam o caso de uma mocinha que entrou para um mosteiro e conseguiu manter intacto seu cálice sagrado — fonte de todos os perigos que afligem os homens que se emasculam por baixo das batinas —, mesmo depois de ter sido obrigada a baixar as roupas até a cintura para ser açoitada.

Não foi o Papa Nicolau I (858-867) quem inventou o exame de toque no colo do útero, mas suspeito que a caça às bruxas durante a inquisição foi a oportunidade que se deram os dignitários da Santa Igreja Apostólica Romana para promover entre iguais o mais amplo e irrestrito acesso ao corpo feminino, apalpando ventres, tesando mamilos, açoitando nádegas, retalhando vaginas, mutilando, esfolando, afogando e queimando vivas centenas de mulheres indefesas com suas vassouras voadoras.

Também houve um papa criança, Benedito IX, que aos doze anos sentou-se no trono papal por meio de  fraude. O pequeno diabo era bissexual, sodomizava cabras, ordenava assassinatos e promovia orgias rocambolescas. Aos 23 anos, por sua conduta estarrecedora, Benedito quase foi estrangulado no altar durante a Missa dos Apóstolos.

Incontinência e luxúria

Desde Calígula, bacanais como os do Concílio de Constança os descrentes jamais viram. No ano de 1414, o Concílio foi marcado para apaziguar os ânimos entre os três papas (Gregório XII, Benedito XIII e João XXIII) que se digladiavam para decidir qual deles seria o único representante de Deus na Terra entre os homens. A lista de convidados, entre príncipes e banqueiros, incluía 700 prostitutas — número insuficiente para fazer face à demanda, escreve Nigel Cawthorne em seu delicioso livro. Por sorte, nas ruas de Constança batalhavam outras 1.500 cortesãs,  que foram convocadas às pressas para exercer seu Santo Ofício e conciliar línguas e membros inflamados.

Voltando à vida sexual dos papas: para evitar surpresas, a Santa Sé instituiu no século XI um exame de masculinidade. O exame da cadeira furada destinava-se a evitar que o Cetro Papal fosse usurpado por uma mulher, como ocorreu no caso da Papisa Joana, por volta do ano de 858: um toque sutil nos escrotos. Benedito VIII (1012-1024), que chegou ao papado depois de assassinar seu predecessor, foi o primeiro Papa a se sentar na cadeira furada (um trono de pedra com um buraco no assento, que permitia a um cardeal checar se o candidato era de fato homem antes de ele ser declarado Santo Padre).

Por ordem do Chefe dos Cardeais, a tarefa era delegada ao diácono mais jovem. O novato, um tipo de estagiário dos ritos católicos, deveria entrar por baixo do trono de pedra e apalpar os genitais do futuro Papa. Após a confirmação, o estagiário gritava em voz alta: “Ele tem testículos”. E todos os clérigos presentes respondiam: “Deus seja louvado”.

(Aos viajantes com grana: foram confeccionadas duas cadeiras furadas; uma delas foi saqueada por Napoleão e desapareceu; a que restou ainda pode ser testada pelos curiosos no Museu Pio Clementino, no Vaticano.)

Parece sacanagem, mas é História. Quanto ao celibato, os membros do clero só foram proibidos de praticar sexo a partir do Concílio de Piacenza, no ano de 1095. Mesmo assim, revoltados com o interdito sexual, e diante da ameaça de greve geral dos padres, Urbano II teve que abrir exceções, estabelecendo um tributo sobre o sexo. Por meio do culagium, concedia-se ao clérigo o direito de manter uma concubina, desde que o interessado pagasse uma taxa anual para a Igreja.

O papa-anjo

Rodrigo Bórgia elegeu-se Papa comprando o voto dos cardeais. Eleito, se autodenominou Alexandre VI (1492-1503). Bórgia era um homem de culhões, experiente nas lides eróticas; para ele não passava de cócegas ter os bagos apalpados por um noviço. Mesmo assim, teve que se submeter ao exame da cadeira furada.

Alexandre VI possuía uma amante de 15 anos, a bela Giulia, e nas horas vagas papava a própria filha, Lucrécia, que também era amante do irmão César Bórgia, homem de ação, no qual Maquiavel se inspirou para escrever O Príncipe. O Papa Alexandre VI era tão tarado que assistiu a noite de núpcias de sua filha Lucrécia com o marido; em outra ocasião abençoou os funerais de um jovem que morreu trepando — um garoto florentino de 15 anos que transou sete vezes em uma hora (ou teriam sido 11 vezes em uma noite?) No Papado de Alexandre VI, todos os excessos eram perdoados, desde que o cristão tivesse grana para pagar por seus pecados.

A vitória do arco-íris

O primeiro homossexual a tornar-se Papa foi eleito no ano de 2.148 d.C, aos 28 anos, no Concílio de Laudicéia na cidade de Milão. Seu nome de guerra: Cassandra. Batizado como Juan Antônio de Las Casas, catalão, gêmeo nascido de parto cesárea e filho varão inseminado pelo método da penetração vaginal, para a eleição de Cassandra a cadeira furada foi reabilitada, com uma inovação importante: em vez de aplicar o tradicional toque nos testículos, o noviço teria que introduzir no ânus do candidato, e sem lubrificante, por três vezes seguidas, o fallus ecclesiasticus. Ao final do exame, se não saísse sangue, o noviço gritaria para a audiência: “Ele não é virgem! Ele não é virgem!” No que os cardeais repetiriam: “Glória! Glória! Aleluia!”

 

4 comentários em “Papa Pinto Primeiro

    • 11/09/2011 em 10:40
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      Caetano, foi a crônica mais pesada que escrevi. A cadeira furada é talhada em pedra, são necessários três homens fortões pra levantar o móvel de duzentos quilos! Como se vê, a culpa não é minha…

      Salve,

      Carlos

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  • 10/09/2011 em 11:04
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    es um genio?
    sabes que teve um Papa que proibiu o amor, na epoca de Marco Polo, mas esqueci o nome dele

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