Outubro crucial

De onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo.
Barão de Itararé

 

Embora, vamos combinar, o décimo mês do ano tenha adquirido ao longo dos anos uma reputação sofrível, este outubro do ano do Senhor de 2012 promete. Claro, periga ainda por cima ser o nosso último, ou com tantos acontecimentos incríveis todo mundo já esqueceu isso? Ah. Bom. Não é o “mundo” que vai acabar, é o “mundo como o conhecemos” que está prestes a se desmanchar, e está mesmo, tem sempre uma desculpa para todo tipo de profecia que falha, tudo bem.

Neste outubro serão definidos em vários níveis (ui!) os destinos do mundo, de vários mundos, o daquele partido que parecia tão instigante, por exemplo; arrastando na queda um histórico brilhante, hoje vermelho de uma vergonha exposta que nem assim ousa confessar, está na reta direto neste domingo. Esse povo nunca me enganou.

Tá certo. Agora é fácil falar, mas mentir, como todo mundo sabe, faz crescer o nariz, ainda que seja com uma prótese de silicone, se é que vocês me entendem. Extirpação nele!

Mas, peraí. O destino do político é mesmo mentir, mesmo com cara de honestos são mentirosos profissionais, como disse Obama no outro dia: “Quem tem medo de… (de crítica, ele disse, mas bem poderia ser outra coisa) não deveria escolher essa profissão.” Então tá.

O que me lembra uma conversa que tive com Alan e que não posso contar, ou meus amigos advogados vão me matar, tenho um que é até juiz, imaginem vocês, e outro se coçando para entrar na política paulista, e com o meu apoio, mas não espalhem. A tal conversa, como eu ia dizendo, tinha mais a ver com os percalços das legendas (sem trocadilho) do que com o assunto propriamente dito.

No filme da televisão um personagem perguntava ao outro, ah, é a velha piada sobre advogados contada de outro jeito… ou políticos, pode mudar a palavra-chave que dá tudo no mesmo, “how do you know that a lawyer is lying” e tudo o mais: “Como é que você sabe que ele está mentindo?”

E o outro respondia: “His lips are moving”. “Os lábios dele estão tremendo”, dizia o texto amarelo em português, todo pomposo, legenda brilhante, já não falei?  Deixa eu explicar o original: “Os lábios dele estão se mexendo!” Entenderam agora? Certamente o tradutor não sabia disso, isso eu posso garantir, e só quem sabe as piadas pode dizer que conhece de verdade uma língua estrangeira, os ignorantes que se retirem, sorry, folks.

Pois é. Vocês podem até pensar que estou falando das eleições deste domingo, mas estariam enganados: não vejo, sinceramente, como o meu primeiro voto para prefeito de Petrópolis — só porque gosto do meu vizinho, que além de tudo, como todo mundo sabe, é fiscal da receita — poderia mudar o mundo. Sou nova na cidade, para onde me mudei há quatro anos, e levei outros três e meio para transferir o título, ainda bem que escapei de votar no Eduardo Paes, deus me livre, saí do Rio perdendo com o Gabeira, único político do Brasil que… deixa pra lá.

Uma amiga com quem estive conversando, enfiada até o outro lado do canal alimentar nas atividades de certo lapidar candidato, passando pelos intestinos e tudo, me confessou que por lá só encontrou… bem, vocês sabem o que se encontra no final dos intestinos, não é mesmo? Eu preferiria esquecer, mas não essa minha amiga, que além de ser carne de pescoço está tão abalada com o que comeu que decidiu vomitar tudo em livro, assim que a poeira baixar, claro, e bem depois que essa eleição passar.

Essa minha amiga querida tem ainda um defeito, que lhe perdoo só por ser minha amiga, e que para ela é um modo de vida: professa um primoroso idealismo, e como muitos em nossa carência de realismo anda muito impressionada com o público julgamento do mensalão, enxerga em tudo o nariz da justiça divina, sabem como é, e uma perfeita sincronia evolutiva.

Eu, por outro lado, me desculpem, acho tudo chatíssimo — talvez porque tenha assistido sofrendo na cadeira da dentista, vai saber — embora acredite, sim, que estilo bom pra corrupto é uniforme listrado, e no Brasil sem direito a roupa de baixo. Rezo, sem nenhuma fé, é claro, pra que eu não possa repetir daqui a uns poucos anos: esse povo nunca me enganou. Justiça é bom e eu gosto, sou transparente como todo mundo já sabe, mas grandes arroubos de patriotismo sempre me deixam com o pé atrás, rei morto rei posto, sei lá. Melhor manter o low profile.

Para Obama, no entanto, o low profile não tem dado muito certo. Uma outra amiga querida está muito preocupada, vê o destino do mundo, agora sim, ir por água abaixo, e de lavada, tudo porque o Presidente Valium não parece aí pra nada, e este apelido aí, vocês conheciam? Mal traduzido, como não poderia deixar de ser, afinal de contas a diversidade cultural não se deixa remediar, como vocês bem podem imaginar.

Eu, devo confessar, depois das brigas ferozes que quase destruíram meu casamento  no Havaí em 2008, estou meio alienada das eleições americanas, fazer o quê, mas nem tanto quanto a minha dentista, que se declara impressionada com meu nível de informação elitista. No fundo no fundo, acabo acreditando que não faz a menor diferença, pois a máquina administrativa é quase sempre a mesma, e os verdadeiros interesses em jogo não são para o nosso bico, nem para o nosso voto. A minha segunda amiga, por exemplo, ficou consternada com a reação atrasada de Obama, que perdeu o debate para Romney no Colorado — em rede internacional, digo —, mas levou num pronunciamento em Denver no dia seguinte, tarde demais, infelizmente.

Nem tanto. Treino é treino, jogo é jogo, mas o que ela talvez até saiba, mas não aceite — e eu, convivendo com Alan, aprendi finalmente a aceitar —, é que Obama é brilhante mas só com um teleprompter à sua frente — gente, nem sei como traduzir isso, caramba, é de amargar, vai que esse troço nem tem tradução, assim como ebook, ereader, tablet e outras nerdices contemporâneas, mais sobre isso mais tarde. Vai saber quem está por trás de todos esses discursos impressionantes, não é mesmo?

Não, não estou virando a casaca finalmente por ter apanhado muito de marido, ainda não, prometo. Mas por um desses deslizes inevitáveis, por puro preconceito nacional, eu, que tenho uma cultura televisiva bastante banal e até agradeço por isso deixei passar no debate americano que assisti ao vivo — meio dormindo, é verdade, mas ainda ao vivo — a referência ao Garibaldo — em inglês, Big Bird, e eu não sabia, deve ter sido por isso, não entendi e pronto, falhei — que se tornou viral no Twitter.

O que me preocupa de verdade é o nível emocional de toda essa polêmica política, gente comprando briga por um passarinho, passarão, digo, criado para crianças de cinco ou seis anos e analfabeto ainda por cima, será esta como sociedade em geral a nossa idade mental?

Bom. Reflitam. E um bom domingo democrático pra vocês, levem a sério esse negócio de eleição, tá? O último a votar por favor apague a luz do estúdio.*

 

* E Chávez na Venezuela, hein? Aí também já é preocupação demais, melhor deixar tudo isso lá pra trás, dá-lhe, Capriles!

 

 

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