Os velhos aeroportos

velho-galeao-011Num dia desses fiquei tentando me lembrar alguns detalhes de antigo aeroporto do Galeão, com aquela varanda onde os familiares e amigos ficavam dando adeus e desejando uma boa viagem. Viajar para o exterior era como se hoje se fosse fazer uma viagem de pesquisa no Ártico. Tinha planejamento, quem é que o conduziria ao aeroporto, a que horas se deveria sair, o que levar para se comer enquanto se esperava a hora do voo. O mais importante era a comitiva: pai, mãe, tios e tias, o cachorro da família, a velha empregada que o conheceu criança, dois vizinhos, alguns amigos de infância e muito lenço sendo agitado na sacada do saudoso Galeão.

Todas as falhas encontradas nesta crônica são de minha inteira responsabilidade. Resolvi confiar na memória, não usei a muleta do Google, não pedi auxílio a Cláudia Vasconcelos, minha companheira da KBR e  autora do delicioso livro Estrela Brasileira, que recomendo a todos, nem liguei para minha amiga Lolita Florez. Ambas foram aeromoças e viveram e conviveram com os aeroportos que cito. Puro orgulho de acreditar que a memória ainda funciona.

Mas voltemos ao nosso velho Galeão. Tubo, nem pensar. Você ia caminhando até o avião, subia a escada escrita Varig, entrava, era superbem atendido e voava para descer em algum outro aeroporto que não era tão diferente. O de Sacavem, em Lisboa, era apertado, tinha um jardinzinho meio furreca na entrada, também não tinha tubo e não me lembro se tinha esteira ou se as malas eram colocadas à frente do local onde eram transportadas. Barajas, em Madri, era outro bem fraquinho, simples e sem muito conforto.

O de Atenas seria digno de uma comédia de pastelão. A época era a da ditadura dos coronéis, os que baniram a maravilhosa Melina Mercouri, tirando-lhe a cidadania grega. Você entrava e se deparava com militares por todos os lados, em trajes de combate, armados até os dentes, uma segurança impressionante — pelo menos para os padrões da época — e, no segundo andar, uma porta se abria para uma varanda onde uma escada descia diretamente para a rua. Enfim, não entendi nada em matéria de segurança, mas entendi por que na última guerra que os gregos venceram quem os comandava era Alexandre.

Em Paris se chegava em Orly. Charles de Gaulle, inaugurado em 1974, somente era usado pela Air France. Mas para nossos olhos tupiniquins, era de deixar o queixo cair. As escadas rolantes passando sob as abóbadas de vidro, os tubos para descer do avião, as esteiras rolantes e passadeiras idem, enfim, era um sonho para quem saia do nosso modesto Galeão.

O Charles de Gaulle só fui conhecer mais tarde, já fantástico e não parando de crescer, de se modernizar, oferecendo mais conforto e respeito ao viajante. O último terminal acrescido agora é de tirar o fôlego pela praticidade, beleza arquitetônica e conforto. Sei que é o segundo de maior movimento na Europa e o segundo do mundo em se tratando de passageiros internacionais.

Schiphol, em Amsterdam, também inaugurado em 1974, era um dos mais modernos, e assustava por sua dimensão e praticidade.  E continua sendo um dos melhores de todo o mundo de acordo com a revista britânica Business Traveller. Uma cidade mágica como Amsterdam tinha que ter um aeroporto tão sensacional como ela. A primeira vez que desci em Schiphol, pensei que estava no futuro. Custei a acreditar que era de verdade.

Heathrow, em Londres, o terceiro aeroporto mais movimentado do mundo e primeiro em transporte de turistas internacionais, conheci bem mais tarde. Da primeira vez que estive na Inglaterra, em 1982, voltando da Escócia, depois de um deslumbrante passeio de trem cortando as lindas Highlands, voei da capital inglesa para Amsterdam, saindo do aeroporto de Gatwick, onde operava a KLM. E me lembro que ficava longe para burro do centro de Londres.

Mas o aeroporto de que trago as melhores e mais loucas lembranças é o de Frankfurt. Em 1981 voei do Rio para Salzburg pela Lufthansa. Como não havia conexão imediata, tivemos que dormir em Frankfurt para seguir viagem no dia seguinte, cedo pela manhã. O hotel que nos foi dado pela companhia era o Sheraton, ou seja, um hotel de primeira linha. Só que esqueci de perguntar onde ficava o Sheraton e foi aí que a coisa ficou preta ou quase surrealista. Saímos do aeroporto e nos dirigimos ao ponto de táxi. Saiu um alemão que deveria ter 2 metros e altura por 2 de largura, ou seja, o homenzarrão tinha por baixo uns 4 metros quadrados. Era daqueles que o saudoso e irreverente Sérgio Porto dizia “não ter certidão de nascimento, mas escritura definitiva”. Pegou as duas malas com a maior facilidade, como se fossem duas frasqueiras, e jogou-as, literalmente, na mala da potente Mercedes. Entramos. Nosso amigo não falava uma palavra de inglês. Quanto ao alemão, somente sei que é uma língua mais do que complicada. Mas articulei Sheraton, e nesse exato momento o gigante ficou roxo, começou a berrar em tedesco coisas que acredito serem impublicáveis e que devem ter deixado vermelhas as orelhas da senhora minha mãe, enquanto apontava para uma passarela que, acima das nossas cabeças, ligava o aeroporto ao Sheraton. O Sheraton ficava no aeroporto de Frankfurt. E o homem perdera seu lugar na fila, o que o obrigaria a dar uma volta pelo aeroporto para voltar ao seu ponto. Abriu a porta, sempre aos berros e com aquela delicadeza típica dos germânicos, atirou as duas malas na calçada e partiu sem mais dizer, cantando pneu e nos deixando, passado o susto, com um enorme acesso de riso.

A outra passagem, muito mais civilizada e altamente gastronômica, ocorreu em 1988. Saímos de Moscou, depois de dez dias na União Soviética. O regime comunista agonizava graças a Gorbachev, que abandonou a doutrina Brejnev permitindo que os países do leste descobrissem que existia a palavra democracia. A Perestroika começava e a tal sigla CCCP, que eu nunca soube o que significava, mergulhava em direção a um poço sem fundo. Na União Soviética o mundo ocidental ainda não chegara, e foi o lugar em que comi pior em toda minha vida. Confesso que cheguei a comer muito caviar, que era vendido a preço de banana no mercado negro que imperava nos hotéis e restaurantes. Passei fome, mas fome de milionário, à base de ovas de esturjão.

A saída do aeroporto, que por sinal era caótico, foi uma aventura de deixar Indiana Jones com inveja. Os guardas e policiais, que ali abundavam, usavam os antolhos que lhes tinham sido dados pelo Soviete Supremo: eram cavalgaduras soltas em um aeroporto onde ninguém se entendia. E embarcarmos para Frankfurt, numa escala de cinco horas até Amsterdam. Voei pela Aeroflot, no famoso Tupolev, o avião que os russos empurraram para africanos e asiáticos e é o que mais cai no mundo. Quando, mais tarde, em 1993, cruzei o Atlântico, velejando do Rio para Cape Town, muitas pessoas me parabenizavam pela coragem e pelo gosto da aventura, e sempre respondi, é a pura verdade, que cruzar o Atlântico a bordo de um veleiro era café pequeno para quem voara de Tupolev.

Mas conseguimos chegar ao aeroporto de Frankfurt, com todos seus ótimos restaurantes. Para não errar, entrei em uma trattoria, comi feito um leão, bebemos duas garrafas de um belo chianti e fui à forra dos 10 dias de regime forçado em um país que já vivia em regime forçado.

E ficam registradas essas histórias. Acredito que cada um tem uma diferente, mais divertida ou não, passada em um dos aeroportos que visitou. Mas como ando muito saudosista, quando embarcar agora em março para Lisboa e depois para minha amada Paris, garanto que vou sentir saudade de olhar para a velha varanda do antigo Galeão e ver lenços brancos e braços levantados se despedido de mim. Faz falta!

2 comentários em “Os velhos aeroportos

  • 24/02/2013 em 13:44
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    Olá Paulo,
    Boas lembranças!!!! Bons tempos em que viajar era um evento como fazer a pesquisa no Ártico!
    Hoje os aeroportos se modernizaram. Ficaram todos bem parecidos, enormes.
    Perderam o encanto.
    Infelizmente modernidades!!!!!!
    beijo grande

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