Os próximos cotistas

José Roberto Padilha*

 

Eu já desconfiava, quando fui estudar jornalismo,  que havia menos homens do que mulheres na faculdade. No começo era quase a mesma proporção, só que os homens andam desistindo com mais facilidade dos cursos, das qualificações, dos desafios. Não  estão mais organizados, envolvidos e atentos. Qualquer jogo do Flamengo, mesmo na insossa Copa Sul-Americana, o churrasco da pelada da quarta ou o chope da sexta são capazes de lhes tirar o foco. E a presença em sala de aula.

Depois, tenho a experiência do Projeto Feliz Idade, que coordenamos na Prefeitura de Três Rios desde 2004: para cada 10 inscritos, 8 são mulheres. No baile da terceira idade, nos finais de semana, a porção mulher é gritante. Elas  chegam maquiadas, felizes, bonitas e dispostas, mas precisam dançar uma com a outra: os raros homens que lá comparecem são disputados como Brad Pitt ou Antonio Banderas; os demais estão ficando pelas praças jogando buraco, facilitando a ida para o buraco praticando o sedentarismo e a obesidade; ou ainda contando nos bares e nas saunas historinhas de um secular domínio territorial que está lhes escorrendo pelas mãos em vista dos estudos e da tecnologia da informação que passaram a ser rotina na vida das patroas.

Nós, homens, estamos morrendo mais cedo, entre outros comodismos, por adiar o exame de toque, por exemplo, que evitaria problemas com a próstata. Estamos entregando de bandeja o mundo arduamente conquistado por Alexandre, Julio César e Napoleão para as mulheres ocuparem. Tomarem conta.

Aí ocorreu a ascensão de Dilma Roussef, que tirou o Palloci para ter a Gleise Hoffman, sua própria “Dilma” (comparando com o cargo que a Presidente ocupava no Governo Lula). E veio a nomeação de Ideli Salvatti para as relações institucionais, completando o poderoso trio que reina soberano em Brasília.

Realmente as mulheres — que há pouco tempo estavam restritas ao forno e ao fogão, às limitações do lar, e sequer tinham direito a voz e voto —  estão tomando, com inteira justiça, por merecimento, luta e perante a complacência dos machos, o mundo em suas mãos.

Quando fui fazer, domingo passado, uma prova na Universidade Veiga de Almeida para gestão em jornalismo na EBC, veio a definitiva constatação: dos 600 inscritos para as 27 vagas existentes, nada menos do que 412 eram mulheres. Assustado, acuado, cheguei a percorrer cada sala de 30 alunos, e as relações anexadas em cada uma escancaravam a diferença. A sala mais equilibrada, a minha, era a da letra J dos Josés, que ainda não se entregaram às Joseanes e Janaínas já infiltradas.

Saí de lá convencido de que depois do negro e do deficiente, a próxima cota para ingresso na universidade e no mercado de trabalho será reservada ao homem. Ou tomamos vergonha na cara, ou nada mais nos restará a não ser entrar na fila do cinema para assistir o épico “O Planeta dos Macacos”, belo espetáculo de ficção onde nossa espécie ruma à subserviência, à extinção.

Pelo menos sairemos consolados de que, na vida real, perderemos o comando para uma espécie muito mais bonita, cheirosa, competente e charmosa. E, acreditem,  ainda vai ter homem acomodado que vai adorar levar chicotada.

 

*José Roberto Padilha, 59 anos, é técnico de futebol, jornalista e ex-jogador de futebol profissional, com passagens pelo Fluminense, Flamengo e Santa Cruz de Recife. Em 1971, defendeu a Seleção Brasileira de Futebol Sub-20, campeão do I Torneio de Cannes. Foi tri-campeão estadual pelo Fluminense, bi-campeão da Taça Guanabara e bi-campeão pernambucano, pelo Santa Cruz. Crônicas de um ex-jogador, seu 4º livro, que será publicado em dezembro pela KBR, recebeu medalha de bronze do I Premio João Saldanha de Jornalismo Esportivo 2010, promovido pela ACERJ (Associação de Cronistas Esportivos do Rio de Janeiro) e ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Atualmente é Secretário de Esporte e Lazer da Prefeitura do Município de Três Rios-RJ.

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

2 comentários em “Os próximos cotistas

  • 04/12/2011 em 14:48
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    Padilha, parabéns pela crônica. Só um detalhe, esse tal “comando” a que se refere no último parágrafo, nós já perdemos. Vamos começar a procurar as nossas cotas…rs.
    Abraço.

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