Os mansos também uivam

A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Augusto dos Anjos

 

Esta semana estou sendo ferida, e caso me omitisse quanto à dor infligida estaria sendo, simplesmente, hipócrita, ferindo de morte meu sério compromisso de autorradiográfica cronista, e em tempo real, como escrevi faz(endo) pouco.

Fui audaz por um momento breve e me derramei no Facebook. Mas foi somente o tempo de voltar atrás, covarde, apagar o alívio que a solidariedade traz.

Tive medo, devo confessar. Fui frágil. Refleti.

Veio um momento leve, de autoimunizadora ironia, mas por força da “lei”, retrocedi. Fui criada com esse atávico medo, fazer o quê. Inoculado ainda em menina pela moral mineira e pela amoralidade da ditadura militar: fiquei assim, com esse defeito inato. Nunca me curvo, mas me disfarço em brandura sendo irônica na postura.

Todos querem ter seus dias de James Joyce — autointitulado “coletor de injustiças” — mas, cá pra nós, tê-los de verdade, quem há de? Há os que comungam com Joyce uma falsa intimidade, impostura, dão-lhe os mais absurdos apelidos como o que ouvi no outro dia, “médico irlandês maluco” — médico? maluco? mal comparando, é como se eu procurasse refúgio no insano asilo com a arquitetura —, mas sempre, claro, sem o devido brilhantismo na literatura, um claro sinal.

Muitos são chamados, poucos os escolhidos. E entre os exibidos, só os fortes devem se candidatar à imortalização por escrito. Aos fracos, a lei.

Franquear-se à exibição pública do que nos vai no coração insensato é quase uma loucura, um risco, ato extremamente ameaçador, como entregar-se a um grande amor: quem se dá sem a necessária psíquica armadura sucumbe, e tanto mais enlouquece quanto mais pratica um jogo de esconde com os ditames do espírito, implacável ditadura. Mesmo à ficção, é necessário transparência no ato de escritura, limpeza de alma, candura. Mesmo na violência.

E há os clinicamente doidos. Os perturbados. Os que dissimulam. Os de sorriso suave sob os olhos loucos que ocultam seu coração duro. Os que se insinuam e ao assinar contrato contratam sua sina, sentença, mas para os quais o parágrafo é uma vivência tensa. Protejam-se deles — lobisomens de lua minguante. São os mais perigosos, os humilhados e os humilhantes.

Não me resguardei o suficiente. Abri minha casa ao  inimigo inculto. E agora estou aqui, praticando este texto acuado, igualmente dissimulado, desonesto, porque embora tenha tido o impulso não tive a coragem do manifesto.

No fundo no fundo, tudo terminará como sempre na ditadura do dinheiro. Para quem me magoa, nada, nenhuma compensação, fama ou glória — não tem o arcabouço mental para dar-se a isso — apenas o sujo dinheiro devolvido ao bolso de onde o sequestrou. Para mim, que fui magoada, a perda de tempo útil e o gasto extra com as agruras legais se elevarão como revoada, mas a dor de ter sido acusada, esta nunca passará. Me desforro através da literatura.

Está muito bem. Aceito as regras desse jogo e não é de hoje. Acatei-as há muito tempo, primeiro como autora e agora mais grave, como dublê de cronista e editora, e tendo por dentro do crânio como a agravar-me uma mente crítica da qual não consigo escapar, seu vício qual garra insiste em me dilacerar. Tudo o que faço é meu bom trabalho de editar, e o faço com a dedicação de uma mãe, de uma amante, podem perguntar. E ainda por cima vivo disso.

Pois vem a mim a mão abusada da justiça e me transforma em (ré)fem,  tenta me afogar nas próprias emoções conturbadoras com que me tira o ar. Não me há de sufocar.

Minhas entranhas, as mostro ao público. Porque mais do que drama de escritor, é este o cotidiano do verdadeiro artista. Me entrego. Mas não me deixo derrubar. Pois a liberdade do cérebro não há quem possa manietar. E tendo escrito…

Falei, falei, mas não disse nada, não é mesmo? Falhei. Desculpem. Fica para as entrelinhas: leia quem quiser, entenda quem puder.

Desejo procês um excelente domingo, meu derradeiro, antes do emblemático retorno a Minas. Depois dele, serei outra. Semana que vem não tem. Tô lá. Farreando em BH e todos estão convidados a farrear comigo. Até lá.

 

 

2 comentários em “Os mansos também uivam

  • 19/08/2012 em 14:04
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    Que nada ! Animo. Tudo isto é uma brincadeira! pode ser de mau gosto … porém ainda assim é. O grande físico tinha toda a razão quando falou que “A estupidez humana é a única coisa infinita”. Pessoalmente acredito em “Brigas” físicas, jurídicas e mentais… nada melhor que o uma luta para esquentar o sangue e beber um bom vinho, quando vencemos os abomináveis inimigos… na realidade nos fazem um favor…. Antigamente, nos bons velhos tempos, os homens que não tinham marcas de guerra eram relegados a segundo plano pela sociedade, eram covardes… vamos duelar…pela manhã!

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  • 19/08/2012 em 12:29
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    ser ou nao…e voce e’…admiro sempre o jeito franco de voce falar e as vezes invejo o tom claro e rapido de pensar…o resto e’…
    e principalmente o nao medo de se expor…a coisa mais dificil nos escritos…

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