Os idos de outubro

Alan chega para o café vestido de moleton da cabeça aos pés: malha de manga comprida, calça também comprida e meias, sei lá por que, nem no auge do inverno ele gosta de se vestir. Vou logo criticando o figurino incomum, eu critico tudo, certo, mas estamos em meados de outubro e o horário de verão acaba de começar, é o Hemisfério Sul, sabia, querido? Ele não quer saber, não é o calendário que lhe diz como viver, sentiu frio e pronto, eu que sou menopausada que me entenda com as minhas camisetas molhadas, e tome de aquecimento em nosso quarto, pô, peraí.

Chove lá fora, tudo úmido e cinza, graças a Deus (fora a confusão do diário, porque hoje é sexta e esta crônica só sai no domingo, vocês me entendem, desculpem aí se o dia estiver ensolarado e ainda por cima com a confusão do novo horário), quer dizer, finalmente passou aquele ardente perigo que dura uns três meses mais ou menos — e eu nem bem os vi passar, não custa lembrar —, quando a mata lá fora briga o tempo inteiro contra seu muito provável destino incendiário, ah, tá bom. Não foi só pra rimar, não, aqui na Serra longe do mar a coisa arde de verdade durante uma seca que nunca falha, nunca deixa de incomodar.

Depois vêm as chuvas, que são de novembro e com um pouco de sorte, de outubro como desta vez, mas nunca de março como Tom Jobim as fez, eternizou, digo, inspirado, aliás, pelo vasto lamaçal que ao final da estação da chuvas — verão para os não tão íntimos do nosso clima regional — tomava conta do sítio dele que ficava aqui perto, não sei  bem onde. Taí. Alan sempre diz que “tudo começa em algum lugar” (e ele sempre tem razão, mesmo quando eu afirmo que não), a gente só não sabe onde vai parar, como as águas de março do samba, por exemplo, nos últimos tempos promessa de morte e não de vida por conta das múltiplas inundações. Ui.

Março é um mês bem desgraçado, vamos combinar. Afinal de contas, é quando o ano de trabalho está marcado para começar, o ano letivo, o ano astrológico e mais outras drogas que já não lembro para atrapalhar, não a mim, que sempre gostei de trabalhar e estudar, tá bem, sou estranha mesmo. Mas por conta disso caí neste vício que é amar o português, embora contra todos os males do ofício só tenha aprendido a amar de verdade em inglês, vai entender.

Porque eu, cá entre nós, entendo cada vez menos, embora escreva — ou pelo menos, edite — a cada dia mais, numa campanha inaudita contra os maus machados que nos assolam, digo, o “Mal de Machado” — gente que pensa que domina a própria língua, sabem como é. Afinal de contas, a reclamação não é minha, mas de uma amiga que é copidesque profissional e desabafou comigo no outro dia, um mal universal que perturba o mundo editorial. Quem nunca sofreu por ênclise tire o primeiro hífen, ai que essa me doeu, desculpem-me, não consegui me controlar.

O caso é que hoje em dia a minha rotina oscila, bipolarmente, entre aprimorar o português alheio e me expressar num inglês que eu mal domino (é o que Alan diz), não custo a abominar, principalmente agora que enfrento sessões diárias, de  duas horas no máximo — homeopáticas para a gente não se pegar —, com meu ilustre sócio e marido de um lado da mesa, eu de outro, e um texto traduzido no meio, coisa que não desejo a ninguém. Haja cérebro para exercitar, porque o meu, já contei pra vocês, anda desesperado pra se desligar.

Estamos encalacrados ainda, podem acreditar, naquela mesma tradução a que me referi muitas crônicas atrás, Alan com um refinamento de diamante que nos impede de seguir adiante, nada parece adiantar. É um buraco negro que engole, tem engolido, pelo menos, qualquer tradutor que decide se arriscar, me acuda, Joaquim Maria, como custa caro caprichar, hein… Não aguento mais.

Enquanto a tradução prossegue em seu processo infinito de se apurar, nosso humor conjugal a persegue sempre a variar: crises domésticas fora, já ri e chorei inúmeras vezes com a mesmíssima passagem — que embora lógica em português soa absurda em inglês e parece não terminar nunca, mas vamos lentamente progredindo em nosso atentado, nosso encontro abençoado, digo, se de bênçãos eu realmente me valesse, entre o ponto e vírgula e o travessão, sem ponto, parágrafo, para nos consolar. É de amargar.

Nosso último debate, por falta absoluta de coincidências que nelas já não confio, girou em torno de uma concepção poético-elizabetana que Alan houve por bem imprimir a um texto que já se lapidou tanto, mas tanto, que acabou por engano não em brilhante, mas num safado telefone sem fio, não sei se choro ou rio: “destinos em marcha” viraram “fates in march”, depois “the ides of March”, que, como todo mundo sabe, é como Shakespeare descreve o assassinato de César no dia 15 de março, no calendário romano os famosos “idos de março” — “idos” significando não o “passado” como pode parecer, mas a “metade”, vinda do latim idus, quem ouve se engana —, e que na eternidade shakespeariana viraram maldição em boca de adivinho, “beware the Ides of March”, ah, tá bom, marche-se com um ruído desses. Meu destino é sofrer. Francamente.

E um bom domingo procês.

 

 

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