O mensalão dos filhos do demo

A política é como o show business: você tem uma estreia fantástica, desliza por algum tempo e termina num inferno.

Ronald Reagan

 

Voltando aos bons tempos da FACUPLAC (Faculdades Arranjadas Corruptos Unidos do Planalto Central), a nossa turma era ótima. Tinha o João Noves-Fora, um sortudo que ganhou doze vezes na loteria, brilhante mentor da “Comissão do Orçamento” — que viria a ser o protótipo do Mensalão. Ah, e o Grande Marcos Careca, que desde pequeno já o era. Não esqueço uma frase, escrita na lousa pelo inquestionável Professor de Filosofia da Arte de Furtar, Dr. Jader Ranário — aquele, cuja mulher pegou treze milhões de reais emprestados do BNDES (e nunca pagou) para construir piscinas para suas pererecas —, mas, vamos à frase: Qualquer grana que possa ser conseguida de forma escusa é indigna de ser obtida por meio do trabalho.

Marcos Careca não se conteve:

— Que absurdo, aclamado mestre! — discordou a brilhante cabeça, pensando nos batedores de carteira, nos traficantes, nos muambeiros e trombadinhas que exerciam o arriscado e trabalhoso ofício de aliviar o bolso alheio do peso da carteira.

E as aulas de oratória? — aparteia-me a memória um ex-colega, discípulo do Padre Vieira, que vitimado por febre virtuosa entrou para a Ordem dos Franciscanos e morreu prestando serviços humanitários na África do Norte. Quanto desperdício! Diz a lenda que Demóstenes, o grande orador ateniense, para se obrigar a treinar um discurso enfurnava-se no subsolo de casa e raspava metade dos cabelos da cabeça. Disciplinado, Demóstenes só deixava o porão depois que os cabelos crescessem e/ou quando sua oratória estivesse perfeita. Contam que, um dia, inimigos levaram Demóstenes às barras do Conselho de Ética. Foi difícil encontrar um presidente para dirigir a sessão; cinco recusaram a relatoria. Depois de muito debate, a penosa tarefa foi entregue ao senador que estava mais próximo da morte compulsória.

A sessão foi histórica. Composto por quinze membros, dentre os quais treze estavam com a ficha mais suja na Justiça do que pau de galinheiro, Demóstenes safou-se com este paradoxo: “Provarei que sou inocente. Se eu estiver mentindo que sou inocente perante Vossas Excelências, modelos da falta de ética, então sou culpado e devo ser absolvido por falta de ética. Se eu estiver falando a verdade ao afirmar que sou culpado, então fui inocente ao me aliar ao bicheiro Cachoeira, porém, tendo em vista que o réu não pode ser condenado por ser inocente, então devo ser absolvido por excesso de ética. Em ambas as situações, se menti ou se falei a verdade, sou inocente da acusação de quebra de decoro, tanto quanto vós, que não fostes condenados para que não se esvaziasse o Conselho”.

Demóstenes foi inocentado por unanimidade.

 

Adeamus ad montem fodere putas cum porribus nostrus. Ah, as aulas de latim, o tratamento respeitoso, como se estivéssemos no Senado Romano. Quanta cortesia entre os colegas: “Vossa Excelência é um excelentíssimo filho da puta!”. Ao que o nobre parlamentar replicava: “Dê lembranças à vossa mãe, quando vós a visitardes na zona do baixo meretrício”.

E as aulas de medicina legal: quanta ilegalidade praticávamos! Muito úteis para aprendermos a eliminar as pistas dos assassinatos que todo político está sujeito a cometer no curso do mandato.

 

Bismarck e as salsichas. As salsichas, como as leis, são feitas de todo tipo de carne, principalmente das menos nobres. Para conhecer de perto a elaboração das leis, ao final de cada semestre os alunos visitavam uma fábrica de salsichas, oportunidade imperdível para se conhecer o processo de transformação dos votos em normas legais, começando pelo anteprojeto, passando pelas comissões, conchavos, superfaturamentos de emendas parlamentares e favorecimentos — quando se embutiam no corpo da lei os artigos encomendados por meia dúzia de interessados —, até que a lei saísse limpinha na boca do CAIXA. A parte mais excitante da manipulação de leis era a oficina da fábrica, quando aprendíamos a arte dos grampos telefônicos, quebra de sigilo bancário, formação de Caixa 2, plantação de laranjas, instalação de microcâmeras, além da aula-bônus: “Como fraudar o painel de votação do senado. Ao término da cátedra, o educando, de quebra, estava apto a inserir modificações no texto de uma lei, mesmo depois de encerrada a votação da matéria.

Por fim, a experiência real com a Massa Falida, prática forense estudada no último semestre do curso, na cátedra denominada “Como enganar a comissão de ética”. Matéria divertidíssima, quando dançávamos, literalmente, no plenário! Quem não se lembra da Ângela Guaxinim? Pois bem, a parte mais sofrida da cadeira consistia em meter a mão na massa, mas antes tínhamos que estudar bem a receita, pra depois encontrar o ponto ótimo para se assar a Massa Falida. Da visita participaram o Roberto K. Jeca, o Larga O’Meu Queiroz, o Dudu Azedo, o Menino Malufinho, o Deflúvio do Nariz Suado, o vampiro de Banco de Leite senador Horroriz, o Rei do Gado Renúncio Encalhado e o Zé Diz Que Deu, Diz Que Dá, Diz que Deus dará, e se Deus negá, como é que vai ficá, ô nega? — desculpem, acabei me empolgando com a música do Chico Buarque.

A empresa escolhida pela Comissão de Perguntas Imbecis foi uma pizzaria chamada “Congresso Nacional”. Com o Manual de Direito Comercial na mão, Roberto K. Jeca, o aluno mais curioso da turma, metido a barítono, com sua voz de cantor de cabaré perguntou ao dono do estabelecimento que compromisso acarretaria a pontualidade nos pagamentos e se a mesada seria  paga antes ou depois das votações. O pizzaiolo ficou engasgado com tamanha afronta; emudecido, fez de conta que não tinha entendido que o aprendiz de mafioso estivesse a lhe exigir propina. “É a crise econômica”, justificou-se Queiroz, batendo nos ombros do dono do estabelecimento.

Enquanto alguns procuravam desculpas esfarrapadas para a compra e venda de votos, o aluno Marcos Careca entrou sorrateiramente pelos fundos da pizzaria. Na cozinha do restaurante havia uma mesa enorme e suja. E em cima dela, um monte de massa de trigo espalhada, tomates podres, mussarela embolorada e uma mala das grandes, contendo milhares de notas de cem reais  amassadas dentro de cuecas usadas, camisinhas usadas, pimentão, ovos gorados e cebolas vencidas: de tudo exalava um cheiro podre, de arder as narinas, mas  ao redor não se via um mísero cozinheiro. O proprietário seria o único funcionário, a quem, depois de liquidados os créditos trabalhistas e tributários, nada restara, exceto as dívidas — concluíram os estudantes, anotando os cifrões, entusiasmados, em seus Moleskines.

Nisso, saindo do banheiro, entrou na cozinha o ajudante do mestre-cuca. Deflúvio do Nariz Suado, vendo que se tratava de um ex-colega de partido, chamou-o pelo nome. Os curiosos arregalaram os olhos, espantados:

— Meu Deus! Será o Jezuíno?

Jezuíno fora aluno da Facuplac, expulso recentemente por causa do furto de cuecas da Lavanderia de Dólares. Zé Diz Que Deu foi o primeiro a experimentar o sabor da massa fedida:

— O que é isso? Hum, parece bom — disse o caipira do interior de São Paulo, lambendo os beiços.

— Sai daí, Zé. Sai logo daí, isso vai dar merda! — aconselhou Roberto K. Jeca, apontando a falange direita para o colega, em tom de ameaça.

Zé Diz Que Deu, fazendo cara de deboche, manteve uma expressão de quem não estava nem aí para a rabiola, mas no fundo sabia muito bem do que RKJ estava falando.

— Se fosse comigo, eu não saía. Eu dou um boi pra não entrar numa briga, mas quando entro dou uma boiada pra não sair! — intrometeu-se o Renúncio Encalhado.

— Pois eu já tô de partida. Prefiro perder uma teta do que a vacada inteira — revelou o vampiro de banco de leite, vulgo Horroriz.

— Será que a massa está falida? — perguntou Deflúvio do Nariz Suado, com a testa suada também; lá dentro fazia um calor dos diabos.

— É claro! Ocê num tá vendo, sô? — detonou o Careca, metendo a mão na massa e atirando a merda no ventilador de teto. Foi uma gritaria geral. Notas de cem pratas voaram pra tudo quanto é lado. Todos tentaram fugir, mas o fedor era tanto que emporcalhou a alma dos nobres aprendizes de pilantras até a terceira geração.

Dudu Azedo, um dos mais sensíveis, chegou a vomitar, dizendo ter sido enganado pelo Valfrido, enquanto o Marcos Careca rolava de rir pelo malfeito. Horroriz, fazendo cara de espantalho, gargalhava à tripa forra, e, usando luvas, esfregava a merda na cara do Encalhado:

— Você não quer ser Presidente do Senado? Então! Há que meter a mão na massa, nobre colega!

Larga O’Meu Queiroz quase teve um troço, chorava, limpava o terno com um lenço que tirou do bolso, enquanto se perguntava como ia explicar pra mamãe quando chegasse em casa com a roupa tão suja e fedorenta. Deflúvio foi mais esperto, e quando a coisa explodiu no ventilador ele já estava debaixo da mesa, escondendo os rastros dos “recursos não contabilizados”. Zé Diz que Deu tentou sair de mansinho pela porta dos fundos, mas foi seguido por Roberto K. Jeca, que o acompanhou, propondo-lhe uma divisão da grana meio-a-meio. Do lado de fora, os dois quase chegaram às vias de fato, por causa de um pirulito comprado com o dinheiro que roubaram da Casa de Massas. A coisa foi tão feia que os dois viriam a ser expulsos da Faculdade.

— Não se assustem, colegas, essa massa não é de nada! Experimentem, por fora ela é fedorenta, mas por dentro é saborosa — discursava o Menino Malufinho em cima da mesa, tirando a gosma que lhe escorria pelo nariz adunco com um punhado de notas de cem reais como se fosse papel higiênico, que depois ele alegremente ajuntava dentro de uma sacola de supermercado. Malufinho lambia a merda como se fosse calda de chocolate, dizendo: — Vou levar um pouco para o beu filho!

O Menino Malufinho estava certo, o acontecido não representaria nada de grave em seu currículo. Tudo não passara de uma brincadeira de criança, ninguém pagou um centavo pelos prejuízos.  E, quando perguntado sobre os milhões que escondeu debaixo do colchão, ele respondia: “Eu não roubei. Mas quem encontrar o dinheiro pode ficar com ele.”

O dinheiro da Pizzaria Congresso Nacional nunca foi recuperado. E ao final do dia, bastou um bom banho, com abundância de sabonete antiético, para que todos saíssem da Casa com as Mãos Limpas, prontos para outras estripulias.

 

Moral: no Direito, ao contrário do jogo do bicho, nem sempre vale o que está escrito.

Trilha Sonora: Highway to Hell – ACDC

 

Nota: esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com pessoas vivas, de carne e osso, são meras assombrações que povoam a mente do autor.

 

 

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