Os caçadores de onça

onçaQuem me trouxe esta história foi um amigo. Guilherme mora na região do pantanal mato-grossense, e apesar de não ter visto a cena, garante que de fato aconteceu.

Isso foi na década de 1950. Na verdade, naquela região já havia várias fazendas de gado nessa época, e os bichos, não fazendo distinção de manejo, começaram a atacar o gado. E sucedeu o que sucedeu.

No município das Grotas as onças começaram a caçar os bezerros, bezerras, vacas e qualquer semovente que se atrevesse a lhes atravessar o caminho, ou dele estivessem perto. Na fazenda das Vertentes, as danadas se tornaram uma praga.

Coronel Getúlio, dono da fazenda, se enfureceu ao ver mais um bezerro ser comido por uma das felinas. Mandou chamar Josué, seu encarregado, e pediu-lhe para colocar um anúncio no radio-volante, isto é, num programa de rádio feito ao vivo. Contratava-se o serviço e o fusca valente com a caixa de som no teto fazia o resto. Geraldão, o locutor, apregoava, com seu tom de tenor, as notícias e os avisos da região.

E assim foi feito. Josué levou o anúncio, e Geraldão divulgou a notícia a plenos pulmões:

— Atenção, meu povo das Grotas! Coronel Getúlio da fazenda das Vertentes precisa de caçador de onça! Paga o justo e mais um pouco. Procurar o mesmo na sede da fazenda!

O aviso foi dito à exaustão. E o povo ficou se perguntando quem seria o bruto que iria dar conta da tarefa. No interior do Brasil notícia corre ligeiro, e a partir do aviso, era só aguardar o que o destino ia trazer para dar um jeito nesse malefício, feito sem maldade, mas trazia prejuízo e tinha que terminar.

Tá certo que não era ecologicamente correto caçar onça, mas naquela época não se pensava nelas com carinho, e a ação das danadas, que tinham certeza daquele mundo ser delas, só trazia revolta e reação. O certo é que, passado uns dias, chegou uma chalana por aqueles lados, desceu o rio Paraguai e poitou na beirada da cidade das Grotas. De lá desceu um moço; era grande e com cara de poucos amigos, numa mão trazia um porrete de mandacaru, coisa que impunha respeito, na outra preso numa coleira um cachorro, ou pelo menos parecia um. Era um animal de porte pequeno, uma mistura dum sei lá do quê com alguma outra coisa. O bicho era atarracado, baixo e forte, branco e marrom, mas o que chamava a atenção era o tamanho da cabeça, grande e desproporcional em relação ao resto do corpo. Na boca, a focinheira mostrava que era de poucos amigos.

O moço apeou do barco e já foi anunciando:

— Meu nome é Tonho e este é o Pinduca, meu cachorro! Nós somos caçadores de onça, e vimos um anúncio de que há precisão de nossos serviços!

Josué, que andava pelas bandas, apressou em se anunciar:

— É verdade, seu moço! Meu patrão é que pôs o anuncio, queira me acompanhar!

Seguindo o peão, foi o moço, segurando o porrete e o cão numa mão. Com a outra, pegou um saco que trazia tudo que era seu, e seguiu seu contratante.

Coronel Getúlio, sentado na cadeira de balanço, viu o cortejo se aproximar. Josué apresentou o moço e deixou os dois a conversar:

— Mas o senhor caça onça?

— Caço, sim, senhor, eu e o Pinduca!

O cão, ao ouvir seu nome, latiu com raiva e determinação. Coronel Getúlio viu aquele arranjo e desconfiou:

— Mas você caça com este porrete e um cachorro? — perguntou, ressabiado.

— Verdade, Coronel! Mas não se preocupe com a desconfiança, o senhor só paga por animal morto!

O Coronel assentiu, mas alertou:

— Combinado! Mas vou levar a minha doze pro mode se algo falhar! — levantou-se, entrou na casa e de lá saiu com a cartucheira de confiança.

Tonho não se fez de rogado, e a se ver num descampado, soltou Pinduca da coleira e da mordaça. E gritou:

— Pega elas!

O cachorro se escafedeu numa corrida veloz, inimaginável para o seu tamanho. Atrás dele, os dois homens, um confiante, o outro desconfiado. Não demorou muito e ouviu-se um latido feroz.

— Vamo, coronel, Pinduca já pegou uma!

Chegaram os dois homens debaixo de um pé de para-tudo, fino e amarelo de flor, e embaixo dele o Pinduca enlouquecido, tentando aos pulos alcançar algo que estava no alto. Os homens olharam pra acima e viram uma onça enorme se equilibrando num galho.

Tonho não se fez de rogado, sacudiu a arvore sem dó, e enquanto o Coronel armava a espingarda, o felino despencou no chão.
Antes que ela pudesse reagir, Pinduca pulou nas costas da onça e entre gritos e mordidas começou a copular com a danada. A onça, enlouquecida, não conseguia se livrar daquele inferno, e enquanto aquele encontro inesperado ocorria, Tonho bateu com força o porrete na cabeça da onça. A fera morreu no susto e Pinduca perdeu o interesse.

Tonho olhou para o cão e ordenou:

— Pega outra!

E assim foi a tarde toda. Já tinham pego umas três, quando ouviram um urro que dizia que mais uma felina estava acuada. Chegaram debaixo de um pé de aroeira. tronco era enorme, e não tinha como balançar. O Coronel indagou, “E agora?”, olhando para cima e vendo a maior onça que já vira na vida, equilibrada no último galho da arvore.

— O negócio é o seguinte! — explicou Tonho. — Eu vou subir! O senhor põe dois cartuchos na doze, e fica de prontidão! Eu vou sacudir o galho, se a onça cair, o senhor deixa com o Pinduca. Agora, se for eu o desafortunado, o senhor atira no cão! — decretou com um olhar sério, e o coronel compreendeu de imediato a situação…

 

 

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