Oração para os que têm fome

O grande escritor, poeta e memorialista português Miguel Torga dizia, em seus maravilhosos Diários, que uma crônica pode ser um poema, e um poema pode ser uma crônica. A quilômetros de distância do enorme talento desse mestre da literatura lusitana, publico este poema, poema-protesto, primeiro do meu livro Alcoolicamente, editora Relume Dumará, obra premiada com a Bolsa para Escritores Brasileiros do Ministério da Cultura e que reuniu um time fantástico de amigos queridos. O saudoso pintor Rubens Gerchman desenhou a capa e ilustrou o livro; o agitador cultural, poeta, compositor e homem de mil instrumentos Hermínio Bello de Carvalho escreveu a orelha, e minha “prima”, a eterna Rachel de Queiroz, por pura amizade me presenteou com a contracapa. Segue, assim, minha oração para todos que têm fome:

 

Padre Nosso que estais no Céu,
Obrigado por vossa ceia,
Por vosso pão e vosso vinho,
Padre Nosso que estais do Céu,
Obrigado por vossa Igreja,
Com vossos padres, vossos vicários, vossos recados,
Obrigado por vossos paramentos,
Por vosso ouro, vossos tesouros, sem andores.
Obrigado por vosso mistério,
Por vossa Trindade que tanto faz por nós,
Nós, que numa terra esquecida,
Distante dos vossos domínios,
Distante dos vossos arcanjos,
Distante dos vossos demônios,
Distante dos vossos desejos,
Nós, que invocamos em vão o nome do Senhor.
Padre Nosso que estais do Céu,
Obrigado por tudo que nos tendes dado,
Obrigado pelos cegos sem reflexos,
Obrigado pelos tristes sem ternuras,
Obrigado pelos suicidas sem caminhos,
Obrigado pelas pestes que se repetem,
Obrigado pela vossa Santa Inquisição
Que persiste nas crianças que deixa nascer vossa Igreja.
Nascer para viver,
Viver de fome,
Morrendo de fome,
Padre Nosso que estais no Céu,
Obrigado por vosso pão,
Obrigado por vosso vinho,
Obrigado por vossa Santa Caridade.
Eternamente
Obrigado,
Amém.

 

 

 

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