O Vício

A agonia me acompanha enquanto acelero o carro. O farol vermelho irrita ainda mais quando consigo divisar o outro lado da avenida, com um congestionamento sem fim. A música já me parece um monte de ruídos desconexos e desligo o rádio com raiva. Sei que ainda terei um bom percurso a percorrer antes de chegar em casa, onde o alívio me aguarda.

Os motivos que me levaram a essa necessidade, hoje, foram de certa forma até irrisórios. Certas implicâncias me exasperam, e como nunca são de muito importância, sempre deixo passar, mas isso vai me azucrinando e tenho que descarregar de alguma forma. Opto por essa escolha, já que a única pessoa prejudicada nesse processo sou eu mesma: melhor do que esganar a funcionária… Pelo menos é o que considero, deixando de lado que todas as nossas ações sempre interferem na sociedade como um todo. Estamos irremediavelmente ligados.

Meu corpo todo começa a formigar e a movimentação é espontânea. As pernas balançam e as mãos batucam na direção. Vou ligar o rádio novamente. A música é uma de minhas favoritas e por alguns instantes sinto alívio, mas logo a ansiedade volta a castigar. Fecho os vidros e canto alto, praticamente me esgoelando, desafinadamente.

Finalmente, o farol abre e consigo passar, ficando somente com a parte traseira do carro no meio da avenida. Encosto o máximo possível no carro da frente e solto um gemido, acompanhado de um resmungo, criticando a prefeitura que não resolve o problema de transporte público; logo estou xingando o prefeito em voz alta: a culpa só pode ser dele, já que sua única providência eficaz é a taxação. Cretino.

Imagino meu chocolate, guardado dentro de meu armário, me aguardando, e a boca começa a salivar. Espero que não tenha ninguém em casa para que o momento seja só meu. Não gosto de compartilhá-lo com ninguém. Quando ofereço um pedaço, é sempre de má vontade, e quando tenho certeza de que a quantidade que está na despensa é bem grande.

Sei que não sou a única, muitas outras pessoas me acompanham nesse calvário, mas sempre que me dizem não resistir ao chocolate, sempre fazem um gesto com os dedinhos mostrando que a quantidade que consomem é irrisória, dizendo que à noite sempre comem um bombom.

UM BOMBOM!!!!!!! Cretinos, eles também!

Quem me dera comer somente um. Enquanto não vejo o fundo da caixa, não sossego.
Sou motivo de galhofa na família, pois dizem que escondo chocolate de meus próprios filhos. O pior é que isso é VERDADE!!! Procuro me consolar dessa vergonha dizendo para mim mesma que eles não ligam muito… pelo menos não tanto quanto eu. Vou confessar. Roubei ovo de Páscoa deles. Pronto! Falei!

Digo também que é um problema, para não dizer doença, hereditário, pois minha mãe e até meu avô eram chocólatras também.

Lembro-me de quando tudo começou. Meu pai trazia as guloseimas para casa quando vinha do trabalho e passava diante da fábrica de chocolate, ainda hoje é muito famosa, só para agradar minha mãe; e, lógico, trazia também para as filhas. Juntava dois vícios: a leitura e o chocolate, não poderia haver nada melhor no mundo. Interessante é que minhas outras irmãs não padecem do mesmo mal. Meu avô, o tal chocólatra, também quando vinha almoçar permitia que as netas o encontrassem na padaria, para que pudessem elas próprias escolher o que mais as agradasse.

Finalmente chego em casa, e saio correndo, sem mesmo pegar a bolsa do carro agarro o tal doce, me deito no sofá e começo a desembrulhar numa faina prazerosa os bombons. Logo uma montanha de papel celofane se forma na minha frente, muito maior do que a pilha de chocolate que consumi. Impressiona.

Tudo bem, penso comigo mesma. Amanhã corro uns dez quilômetros para compensar.

Tenho um sorriso no rosto. Estarei amorosa quando o marido chegar.

 

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Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

3 comentários em “O Vício

  • 02/12/2011 em 22:44
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    Querida Priscila: identifiquei-me em gênero, número e grau com o seu texto. Já que vc fez tantas confissões, gostaria de, também, confessar uma “fraqueza”. São 22:40h. de uma sexta-feira, tive um dia de trabalho cansativo, cheguei em casa há menos de uma hora atrás, abri o computador e li sua crônica. Ao final da leitura, adivinha qual foi a minha vontade… prefiro não dizer, heheheh… sei que vc já adivinhou e, assim como vc, vou torná-la realidade! heheheheh…
    Receba meu carinho e parabéns pela excelente escritora que vc é.
    Te admiro MUITO e sou sua fã de carteirinha.
    Tereza Boulos,

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  • 02/12/2011 em 18:23
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    Muito legal! E vc expurgando os demônios é muito corajosa. Tb escondo chocolates, ofereço de má vontade e já roubei ovo de páscoa dos filhos. Ah, ah, ah. Só a herança genética que ainda não consegui identificar. Tá muito bem (d) escrito. Bjs.

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  • 02/12/2011 em 18:04
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    Olá Priscila
    Este vício é uma perdição! Delicioso!
    E você descreve muito bem.
    Convenhamos. Colocar um bom (grande) pedaço de chocolate entre a língua e o céu da boca é tudo de bom! Nem vou me atrever a comparações!
    beijo grande

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