Ó tempos!

Não entendo essa história de as pessoas dizerem “no meu tempo”.  Como ainda não morri, nem essas pessoas estão se comunicando através de mensagens do além, deduzo que o meu tempo e, queiram ou não, o delas também, é agora.  E que história é essa de “bons tempos”?  Bons por quê?  Deve ser falta de memória ou informação.  A humanidade não é muito diferente hoje do que era há mil ou dois mil anos.

Já no que se refere à tecnologia, a diferença é enorme.  Para melhor!  Claro que  é uma opinião pessoal, mas nada impede os saudosistas de tocarem a vida como há trinta ou quarenta anos: podem usar filtro de barro e abrir mão da televisão a cabo, celular e viagens aéreas.  Só a título de ilustração, embora o dia-a-dia esteja repleto de exemplos semelhantes, vejam o caso dos banheiros.

Em criança, na minha casa, havia um banheiro para cinco pessoas.  Meu pai, que foi criado na roça, dizia que era maravilhoso porque ele tinha sete irmãos, além de uma tia e uma prima morando com eles, e era só um banheiro para todos, sendo que a latrina ficava lá fora, numa casinha no canto do quintal.

Quando eu fiz uns doze anos nos mudamos para uma casa mais moderna com dois — dois! — banheiros.  Um luxo.  Passei a dividir o banheiro apenas com os meus irmãos.  Apesar disso, é dessa época que  vem as minhas mais cruéis lembranças da fila de espera, culpa dos hormônios e das experiências embelezadoras da adolescência.

Agora, minha casa tem três banheiros e meus filhos um banheiro para cada um.  Eu continuo dividindo o meu com o marido.  Por pouco tempo.  Já avisei que ele vai usar o banheiro do corredor e que os meninos vão ter que dividir o outro banheiro.  Houve choro e ranger de dentes.  Não param de reclamar, ameaçaram até greve de fome.  Dei de ombros: melhor, se não comerem, o supermercado vai ficar mais em conta — ameaça  vã, onde já se viu adolescente deixar de comer?  Só se for chuchu grelhado e, mesmo assim, depois do almoço.

E não foi só na quantidade que os banheiros melhoraram.  Você se lembra do banheiro da casa da sua avó?  Ou dos banheiros dos restaurantes?  E os das estradas?

Acho que as pessoas reclamam para não perder o hábito.  Minha mãe diz que o mundo está “virado” e “no fim”, mas semana passada foi convidada para fazer figuração num vídeo do YouTube e topou na hora.  E continua reclamando da vida moderna.  Pode?  Acredito que a mãe dela fazia a mesma coisa, e é impossível jurar que um dia eu também não vá fazer o mesmo.  Mas, por enquanto, não me convidem para suspirar pelo passado.

 

 

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1 Resultado

  1. o nosso tempo é agora, isso mesmo
    adorei a cronica

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