O susto

A fazenda era a mais bonita da região, chamada das Vertentes. Se estendia a se perder de vista às margens do Rio São Francisco, no centro-oeste mineiro.

Coronel Amâncio era o dono e senhor. Criava gado de leite, de corte, plantava milho e café. Casado com Dona Santinha tinha tudo para ser feliz,mas a sombra do infortúnio rondava aquela família: apesar de toda a riqueza, o casal não fora abençoado com filhos. Causa do desgosto do Coronel,essa falta era motivo de tristeza profunda para sua esposa.

A vida seguia seu curso, de um lado riqueza e fortuna, de outro só desolação. Mas um dia, depois de uma promessa feita, veio a noticia tão esperada, dona Santinha estava esperando uma criança. No início se imaginou um mal estar passageiro, mas como este persistia, um fio de esperança surgiu no horizonte. O médico foi chamado e constatou a gravidez. A casa encheu-se de luz, refletindo o coração de seus donos.

O tempo seguiu sua toada, e num dia de sol nascia Maria, a filha tão esperada. A felicidade foi tanta que uma festa foi feita para celebrar a ocasião. Na mesma época nascia Antonio, filho do capataz, homem de confiança do patrão. A felicidade dos dois pais se estendeu pela fazenda e brindaram os pais, o patrão e o empregado, com cachaça da boa, a chegada das crianças.

O tempo não se fez de rogado e seguiu seu caminho ligeiro. Maria e Antonio cresciam juntos, brincavam e sorriam pelos campos e beiras de riacho. O que era amizade singela e sem maldade foi se transformando: igual grão no chão, cresceu e produziu um sabor, um sentimento forte brotou de seus corações. Já rapaz feito ,Antonio foi procurar o padrinho e senhor:

— Bênção, Padrinho!

— Deus te abençoe, meu filho!

— Eu queria falar com o senhor!

— Pois fale rapaz, que jeito é esse?

— É assunto sério!

O rapaz falava segurando com força o chapéu na mão. Se Maria se tornara uma moça linda, com sua pele alva contrastando com os longos cabelos negros da cor de seus olhos, seu jeito meigo conquistando e encantando a todos, Antonio não fazia feia figura. Era alto, moreno,com o queixo largo num rosto bem formado, onde se destacavam os olhos claros, de um verde cinza. O trabalho no campo lhe dera músculos e força, e aos 23 anos, era um belo rapaz.

— Diga! — Falou o Coronel, já algo preocupado.

— Quero sua permissão para namorar a Maria! — disse o rapaz, olhando firme para o homem mais velho.

O coronel não se assustou com o pedido, de há muito a mulher o alertara para as longas conversas que o jovem casal de amigos tinha diariamente.

— Antonio! Você vai respeitá-la e ter por ela o mesmo cuidado que tenho!

— Com certeza, padrinho! Sua filha é o amor de minha vida.

— Então, está consentido!

O homem velho e o moço apertaram as mãos. O namoro se tornou noivado, e depois deste o casamento foi marcado. Festa grande, felicidade de todos, a noiva linda, o noivo não se cabendo de contentamento, o Coronel com a esposa mais feliz que menino que ganha prenda.

Passada a festança, partiram os noivos para a lua de mel no rancho à beira do rio, cercado por flores e pássaros. Mas o inesperado aconteceu, e o casal voltou da lua de mel antes do previsto.

A menina, antes alegre e feliz, agora chorava pelos cantos, o rapaz emagreceu, deixando a barba por fazer. O Coronel, assustado com os acontecimentos, chamou o noivo para uma conversa:

— Antonio! O que aconteceu?

— Não posso falar padrinho, fico avexado!

— Fale logo rapaz, deixe de disse-me-disse!

— Coronel, Maria não quis se ater comigo! — falou, com o rosto vermelho de vergonha.

O Coronel coçou o queixo, algo pensativo, e sentenciou:

— Deixe que eu falo com ela!

Mandou chamar a filha. A menina entrou cabisbaixa, e quando soube o teor da conversa, começou a chorar.

— Minha filha, afinal, o que aconteceu?

A menina, tomando coragem, começou sua história:

— Pai, você sabe que amo Antonio de coração. Namoramos conforme os costumes, noivamos da mesma forma. Quando se aproximou o casamento, mãezinha me chamou e me explicou as coisas. Eu me preparei; no dia do casamento, depois da festa, fomos para o rancho. Eu fui me trocar, coloquei minha camisola e caminhei para concretizar meu amor.

— E então filha, o que ocorreu?

Maria em lágrimas explicou:

— Aí, meu pai, eu entrei no quarto… E o que eu vi! — disse essas palavras com um olhar de terror.

— O que, menina? Fala logo! — disse o pai, já desesperado.

— O Antonio! Nu! Em pelo, deitado no couro de uma Bezerra Holandesa, com o negócio maior que eu já vi na minha vida, em pé, parecendo pau de cerca. Ele me olhou e me chamou: “Vem cá, meu amor! Vem, meu doce!” O senhor, no meu lugar, iria?

— Eu? Nem morto!

— Então! Nem eu!

No dia seguinte, o Coronel, junto com a filha, procurou um advogado para cuidar da separação do casal.

 

 

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4 Resultados

  1. manuel funes disse:

    Por isso “Che” Acredito no “Test Drive”…

  2. paulo de faria pinho disse:

    Gostosa de ser lida, num estilo leve, divertida e com um final divertido, apesar de duro. Parabéns.

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