O sonho acabou

Ele abriu a porta do apartamento. Procurou o interruptor num gesto automático, entrou sem pressa e sem destino. Jogou a chave sobre a mesa, que tinha como única companhia duas cadeiras em lados opostos.

Tudo ali era pequeno e improvisado. Podia-se perceber que não havia esmero nem consideração com a decoração ou qualquer outra coisa. O apartamento de um quarto e sala dizia muito daquele momento.

Dirigiu-se a poltrona, que se destacava no ambiente: era dessas marrons que todo pai sonha em ganhar. Diante dela uma grande TV digital, único luxo onde tudo era simples e despojado.

Sentou-se diante dela e num gesto mecânico ligou o aparelho. O som de um show antigo encheu o ambiente, as imagens e o passado surgiram diante dele, num devaneio eletrônico. Se deixou divagar enquanto Cat Stevens cantava “It´s Wild World”. Esperou o fim da música e foi até a cozinha. Abriu a geladeira, que já conhecera dias melhores, e pegou uma garrafa pequena de uma cerveja. Abriu na própria mão e bebeu no bico. Sentiu o gosto amargo e gelado descer por sua garganta. Sentiu-se um pouco mais sozinho. Voltou para a sala e continuou a assistir o show.

Já era tarde, viu que estava ali há muito tempo, no chão as garrafas colocadas umas ao lado das outras comprovava isso. O celular tocou:

— Oi!

— É, estou em casa! Não, não tô com vontade de sair!

— Não! Acho que não vou. Não estou muito a fim de festa.

—  Ok, a gente se fala!

— Beijo!

Tomou mais um gole e pensou consigo mesmo que era sexta-feira, muita gente estava se divertindo e rindo, e ele ali, pensando na vida com pena de si mesmo. Riu de sua própria melancolia.

Não tinha jeito para o drama, mas também não se sentia feliz. Dia após dia, abrira aquela porta e pensara que estava em outro lugar, mas essa vida ficara para trás. Parecia na verdade que nunca tinha existido.

Riu de novo sozinho,seria cômico se não fosse trágico. Levantou-se devagar, tomou o último gole da garrafa e a pôs no chão. Desligou a televisão. Se dirigiu para o quarto, sentou-se na cama, pegou com as mãos o único porta-retrato que se encontrava na mesinha de cabeceira.

Ela sorria de um jeito que era só dela. Ele sorriu também, lembrou como era gostoso vê-la sorrir. Colocou-o de volta no lugar, apagou a luz e se deitou, sem se preocupar em se trocar. Fechou os olhos, mas os sonhos demoravam a chegar. Na verdade o melhor deles não voltaria jamais.

 

 

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