O som do amor

Estava sentada no chão da sala. Seus cabelos castanhos e longos caíam sobre o rosto de forma natural. De jeans e camiseta branca, tudo nela era simplicidade e despojamento.

A sala do apartamento não era grande, havia poucos móveis no ambiente: um sofá que já conhecera dias melhores, uma poltrona onde ela costumava ler, a estante com os livros que mantinha o som fora do chão e o pôster de um show de rock há muito acontecido compunham toda a decoração.

Como companhia, só Sita, a gata que gostava de ficar ao sol que, displicentemente, entrava pela janela da sala. Por ser sábado, nada era obrigação, mas o excesso de tempo tinha seu preço. Diante dela, a caixa de papelão decorada pelo papel francês se encontrava aberta. Nas mãos, algumas fotos; no chão, espalhados, vários objetos: bilhetes, um velho chaveiro com uma chave como companhia, um papel de bala Icekiss em que o amor era declarado. Tudo sem muito valor, mas cheio de significado.

Ela lia sem pressa:

Oi, sei que você não gosta de estar sozinha, pois é bonita demais para isso. Me liga: 9287-7632.
João

Ela sorriu sem querer; ele era assim, meio sem noção e engraçado. Ela não sabia por que afinal tinha ligado, mas na ocasião gostou mais da voz do que do bilhete. Se encontraram.

Mirando o chão, conclui: a foto dos dois sorrindo era a recordação de que mais gostava. Tudo era só alegria e amor, praia, final de ano, início de namoro. O tempo, que não era importante, se faz presente agora. Olha no verso da foto: verão de 2007, Búzios. Sorri de novo, tudo só loucura e prazer: nadar nus de madrugada, sentindo a água fria e os corpos quentes, voltar correndo para a casa alugada, enrolados apenas na toalha, rindo e brincando como crianças pequenas que fizeram arte. E depois se deixar ficar, olhando um para o outro, descobrindo no corpo alheio os detalhes, marcas e sinais, percorrendo com as mãos o doce trajeto do amor. A taça de vinho, o som de Chet Baker — que aprendera com ele a apreciar —, a sensação de plenitude e gozo que os olhos semicerrados mostravam sem pudor.

Sorri de novo, agora numa mistura de tristeza e saudade. A gata no colo dela, sem cerimônia, olha pedindo carinho. Ela a acaricia sem pressa. Olha para fora, como se quisesse entender o incompreensível. O apartamento é o mesmo, mas parece tão estranho, parece maior, sem cor, sem vida.

O vazio a envolve, e sem querer e a alcança. Levanta-se calmamente com o animal nas mãos: precisa do calor do bichinho, de seu afeto delicado. Abre a gaveta da mesinha ao lado da poltrona, pega um maço de cigarros ali esquecido. Acende sem culpa, sabendo que faz mal, mas já está se sentindo assim, então não faz diferença.

“Mais uma promessa rompida”, ele sempre dizia isso quando ela insistia em saber onde ele estava. Ele não gostava de brigas e discussões, ela não gostava de ser assim, mas a insegurança de um amor que não conhecia, e a atemorizava, acabara com sua confiança de jovem executiva. Voltara a ser aquela menina insegura da escola, a que amava sem ser correspondida. Soltou a fumaça, com força; ele não gostava que ela fumasse e ela prometera parar. Mas agora nada  fazia muito sentido.

Quando se sentou na poltrona, com os pés dobrados, como ele gostava de vê-la se sentar, sorriu com a lembrança. Ele se aproximava devagar e, contemplando-a, dizia: “Você fica linda sentada assim deste jeito!”

Ela nem tinha reparado que ele a olhava enquanto lia sua revista de domingo. Era só o prazer de estar junto, da cumplicidade conquistada. Depois ele se aproximava, tirava de suas mãos a revista, ela reclamava sem vontade, ele a beijava nos olhos e a puxava para o chão, brincando de paixão e amor.

Deu mais um trago no cigarro e o apagou com força na caixa de fósforos. Vantagens de morar sozinha, pensou, com ironia e tristeza. Sem vontade, se levantou e recolheu do chão o que estava espalhado. A sensação de não saber o que fazer e não ter para onde ir chegou de novo.

Uma música, de que ela se lembrava remotamente, insistia em tocar. Retornando dos devaneios, ela pegou o celular sem vontade, de um jeito mecânico. Sua voz sai por obrigação:

—  Alô!

— Cris? Sou eu, João!

 

 

4 comentários em “O som do amor

  • 18/07/2012 em 10:54
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    Verdade Manuel!
    Mas ficam as lembranças,os desejos realizados e alguns que se perderam no tempo.
    Abrs,
    Gustavo.

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  • 11/07/2012 em 19:15
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    Bom tempos…. até senti Saudade…. Oh…. Juventude divino Tesouro que vai para não voltar…..

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