O signo astral dos escritores: vida e obra*

O signo astral dos escritores aparece na sua vida e na sua obra?

Tudo começou com o Drummond, e a surpresa causada pela publicação dos seus poemas eróticos. Para alguns, pareceu que a figura tímida e sóbria do poeta não combinava com o assunto. Ah, mas ele é de Escorpião, comentou alguém.

Escorpião, o misterioso signo ligado ao sexo, às paixões e à morte… É claro que o signo de Escorpião não é só isso, nem as pessoas são a encarnação radical do seu próprio signo. Mas gostei de procurar na obra de alguns de seus autores, a pedido da Editora Record, traços do signo de cada um, a forma peculiar como cada um Pode expressar um caráter seu.

No caso de Drummond, por exemplo, além do erotismo que puxou o assunto, há outra marca muito forte desse signo: a reserva. E ainda encontramos um pouco de crueza e ironia misturadas ao lirismo, o que nos faz pensar em alguém que bem conhece as partes mais obscuras da própria alma e também da dos outros: coisas que Escorpião aprende nos muitos mergulhos em seu inferno particular. E tão profundo foi o nosso poeta, que Affonso Romano de Sant’ana — este, de Áries — revela, em Drummond: o gauche no tempo: …”ressalto que este trabalho, mais do que uma obrigação acadêmica, transformou-se numa autêntica aventura do espírito… decifrar o seu enigma, em certo momento, identificou-se com o decifrar o enigma de todo homem, e o meu próprio.”

Maravilha, para um ariano, embrenhar-se numa aventura de tal monta! Em principio, Affonso Romano não se parece muito ao ariano típico, aquele aventureiro audaz, destemido, independente e autossuficiente, como o homem de Marlboro acendendo seu cigarrinho numa selva cercado de perigos. Mas, como vimos, aventura é o que não lhe falta, e mesmo num trabalho acadêmico dá para notar um jeito muito sincero, direto e objetivo de dizer e pensar as coisas — como faria o homem de Marlboro. A favor do seu signo, há ainda o pioneirismo, presente na sua vida em numerosas ocasiões.

Touro. Signo da terra, da abundância, da riqueza, dos prazeres sensuais, da estabilidade que permite o crescimento e a prosperidade; da arte. O taurino Haroldo Costa, artista, jornalista, escritor e carnavalesco autêntico, parece bastante fiel ao seu signo. Aliás, fidelidade é uma das mais importantes características de Touro. Haroldo Costa, contando a história do Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro (em seu livro Salgueiro: Academia de Samba) dá a impressão de um amante falando da sua amada — a única. Seu amor é doce, dedicado e fiel, até que a morte os separe. Bem taurino.

Dalton Trevisan deixa transparecer algumas geminianices no seu livro O Vampiro de Curitiba. Gêmeos é um signo associado com a comunicação, a fala, a escrita, a curiosidade. É o interesse intelectual aplicado à esfera do comum da vida, o dia a dia, às informações que não estão nos tratados, mas que correm rapidamente de boca em boca, todos os dias. Ninguém faz aula de corte e costura para aprender a pregar um botão. É importante saber que a família do vizinho também briga, como a nossa. Saber das doenças dos outros, da morte. Dos casos amorosos, da sorte e do azar. Dá uma dimensão mais real da nossa humanidade. Se na nossa imaginação habitam vampiros estrangeiros, longínquos, um geminiano fala de um vampiro de Curitiba. Bem mais perto.

Geminiano gosta de brincar. Daí, sob títulos instigantes, como Ultimo aviso Contos dos bosques de Curitiba, desenrolam-se histórias impregnadas do que a gente já viveu, viu ou ouvi falar na nossa vida cotidiana, contadas com muita graça, humor e ironia.

Ler Zélia Gattai é uma delícia. Muito cancerianamente, em Chão de Meninos ela vai contando suas histórias e permitindo ao leitor uma intimidade tal que o transporta para dentro do livro, da sua casa, da sua vida. Câncer é o signo do aconchego, do ninho, do lar, da base provedora e eventualmente restauradora a que recorremos, para poder enfrentar as batalhas do mundo. O livro de Zélia é exatamente assim, talvez como ela mesma.

No caso de Jorge Amado, seu signo já dá uma bandeira e se deixa ver, um pouquinho, no próprio nome: Amado. Leão é o signo do amor. Diferente de gostar, diferente de tesão, diferente de paixão. Amor. Falando de si mesmo em Navegação de Cabotagem, o autor revela: “Nasci empelicado, a vida foi pródiga para comigo, deu-me mais do que pedi e mereci”. A vida nos retribui na medida do que damos de nós mesmos. Quem muito ama, recebe o mesmo de volta. É Amado.

O leonino de bem com a vida é um pouco como o Sol. Brilha naturalmente e extravasa generosamente o que tem de melhor. Leão ama os sentimentos nobres e rejeita séria e profundamente tudo o que é oriundo da mesquinharia humana. Aí, ele fica muito zangado. Essa zanga aparece num episódio do livro em que o autor fala da morte de Glauber Rocha, a quem muito amava: “… eu, Zélia e João Ubaldo derrotados, os únicos a amá-lo deveras em meio àquela multidão que lhe enchia o quarto de fumaça e ilusão”. E mais tarde: “Entupindo o quarto, a récua dos aproveitadores a conversar, a fumar, a cheirar, a corvejar, o desamor”. A convivência é pacífica entre amor, generosidade e severidade e indignação, no signo de Leão.

De Virgem é Dom Lucas Moreira Neves. O sacerdócio soa bem com esse signo, afim com o servir, a pureza, a mão na massa, o trabalho “sujo”, “pesado” ou “subalterno”… Não conhecia a sua obra nem pude me aprofundar em seu livro, Pôr-do-sol em Reritiba. Mas pelos títulos de outras obras suas, desconfio que o Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil é deveras um sacerdote nos moldes virginianos: Sacerdote a serviço da família, Vigilante desde a Aurora, Restaurar a família em Cristo etc.

O signo de Libra representa a metade da maçã, sempre em busca da outra metade; do outro na metade, para enfim se sentir completo e inteiro. Equilibrado. Nas palavras do editor de O Guia da Floresta, de Alex Polari de Alverga, libriano, esse é um livro sobre o encontro. Aqui, trata-se do encontrar a si mesmo, encontro esse mediado por um mestre espiritual (da Doutrina do Santo Daime, nesse caso), e propiciado pela colaboração de uma comunidade unida pelo mesmo propósito espiritual: encontro, união, colaboração, cooperação, são palavras-chave do signo de Libra. Terá sido coincidência que o primeiro romance de outro libriano famoso, Fernando Sabino, se chame O Encontro Marcado?

De Escorpião, já falamos.

Na apresentação que Jô Soares escreveu para o livro Pedaços De Mim, da sagitariana Leila Cordeiro, já podemos antever as marcas do signo do centauro apontando sua flecha para o alto, tentando abrir novas picadas para além do horizonte conhecido. Sagitário é o signo dos viajantes, dos que buscam em outros lugares, físicos ou não, novos conceitos e novas perspectivas para nortear a própria vida com mais liberdade e sabedoria. Isso requer uma disposição aberta, confiante, e às vezes até um pouco ingênua, como é comum nos sagitarianos. A respeito de Leila e seus pedaços, Jô declara: “Gostei também do jeito solto e verdadeiro com que você nos mostra seus anseios e inquietações; e, mais ainda, da coragem de abrir baús antigos e botar para fora recordações e sentimentos que nos seguem e perseguem através dos tempos.”

Ah, é verdade. Sagitário é um signo muito inquieto. É aquele que tem o bicho-carpinteiro. Num novo horizonte, o da poesia, Leila se lança com toda a sinceridade e integridade que são peculiares ao seu signo.

O signo de Capricórnio me trouxe uma grata surpresa: Rubem Braga. Rolei de rir com As boas coisas da Vida, de sua autoria. Mas Capricórnio não é um signo sisudo, que trata dos deveres, das regras, das limitações da economia, dos contornos rígidos da dura realidade? Sem dúvida. Mas não é por causa disso que se deixa de rir. A tristeza vem é quando a gente não se conforma com a existência dessas coisas, que parecem atrapalhar a nossa vida. Porém, capricorniano é justamente aquele que já as compreendeu desde cedo, e pode até tirar partido delas, de tão íntimo. Numa das crônicas, chamada “Aproveite sua paixão”, o Capricórnio aparece nítido. É a história de um amigo que, já em idade bem madura, está perdidamente apaixonado, num caso sem esperança. Tenho a impressão de que não passará nunca, geme o amigo. Passa sim, meu irmão; acaba passando, retruca Rubem. Não vou reproduzir toda a história, mas o aconselhamento, bem capricorniano, segue até o ponto em que, seguindo seus conselhos, o amigo poderá, em dois meses e meio, perder de oito a dez quilos e cerca de 45% da sua paixão atual. Eficiente e a favor da economia.

O poeta Ledo Ivo me desconcertou. Também pudera — é aquariano. Signo mesmo do excêntrico, do inesperado, da independência, da originalidade, do respeito às peculiaridades; da democracia — contra o egoísmo e a egolatria — signo do Ideal e da Síntese. Há um poema em Mar Oceano, de Lêdo Ivo, que ilustra bem essa capacidade de síntese do aquariano. Chama-se “A mancha irreparável” e diz, somente: Teu púbis: a ovelha negra/ no branco de teu corpo. Numa outra, brinca com o Eu: Eu, eu, eu…/ Tu, pronome indigno/ Não és nada/ apenas ventania/ No topo da escada. Aquário odeia a linearidade, salta, brinca com os significados, tira tudo do lugar, mas, surpreendentemente, no fim tudo faz sentido. Um sentido novo, recém-nascido, é claro.

Ao contrário de Aquário, que busca a peculiaridade, a essência no meio do Todo pasteurizado, Peixes busca no Todo, ou para além dele, uma unidade capaz de abranger tudo o que nele há.

Um pisciano sabe que cada parte do Universo é o mesmo Universo, só que em outra dimensão. Gilberto Freyre, pisciano, em seu Sobrados e Mucambos parece conhecer TUDO a respeito do assunto em questão. Parece que ele incorporou em si a época e o lugar a que se refere, de tal forma, que pode falar de TODOS os detalhes da paisagem social do Brasil patriarcal durante o século XVII e a metade do século XIX. Fala com tanta liberdade e intimidade que o assunto parece extravasar-se do espaço e tempo por ele delimitados para atingir a universalidade. O signo de Peixes é bem assim: dissolve as barreiras que a tudo separam, desfaz o isolamento, para que possamos compreender o Todo em qualquer uma das suas partes. Num pedaço de História ou em nós mesmos.

*Texto escrito para o jornal comemorativo dos 50 anos da Editora Record, que acabara de publicar o meu livro Iniciação à Astrologia.

 

 

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4 Resultados

  1. Parabéns, Rosangela. Um texto inteligente e escrito de forma agradável.

  2. Rakyul disse:

    Belo texto, gostei muito.

  3. noga disse:

    Hahaha, o mais engraçado é que esta semana escrevi sobre o Rubem na minha crônica de domingo. Não sabia que ele era capricorniano.
    http://www.porqueagenteeassim.com.br/2011/07/24/sofrer-pra-que/

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