O sapo encantado

Era uma vez uma Terra de Fantasias, cheia de sonhos, fadas, duendes e nibelungos, rica em oportunidades, onde tudo se realizava à sombra do baú da felicidade.

No entanto, sem avisar, uma crise econômica foi chegando sorrateira, e em duas, no máximo três tacadas, fulminou as esperanças dos moradores do Reino Encantado, que, endividados até o pescoço, venderam os próprios filhos para as fábricas de salsichas.

Fevereiro chegou, e com ele o carnaval trouxe um pouco da velha alegria. A mangueira entrou na avenida e venceu. Teve gente que desmaiou ao ver Dona Neuma e a velha guarda na comissão de frente.

Branca de neve, desconsolada em frente à tevê, naquele ano não desfilou. Fazia um ano, oito meses e dois dias que Branca não dava uma trepada. No início, casada com um príncipe poderoso, cheio da grana, Branca gozava gostoso, confirmando o estudo da Universidade de Newcastle.

Todavia, ao ficar pobre, o príncipe revelou-se um grande filho da pátria, um sangue-sugas que vivia de rendas. Foi tudo muito rápido. Com seis anos de casados, o nobre bardo caiu do cavalo, e com a crise na Zona do Euro, o príncipe viu derreter sua fortuna no Mercado de Ações; transtornado, pulou do segundo andar, batendo a cabeça no patamar da escada. O desgraçado não morreu, mas perdeu o jogo das pernas e passou a andar de muletas, além de ficar impotente. Tudo isso em apenas um parágrafo!

Pra completar a tragédia, uma pinta negra, cabeluda, apareceu na bunda branca de Branca, que desde menina fora lisinha dos pés à cabeça. Tudo em seu corpo, outrora rijo e formoso, agora despencava no ar: a bunda caía e os peitos idem. Definitivamente, Branca estava um bucho, mas o pior ainda estava para acontecer. E aconteceu. No dia de ação de graças faltou-lhe sangue nos pálidos bracinhos para sepultar os corpos de seus dois filhinhos, gêmeos, menino e menina de sete anos, vítimas de afogamento em decorrência do vazamento de merda da Usina de Esgoto Radioativo de Niterói, quando os pequenos, coitadinhos, voltavam da escola. Tragédias acontecem.

Era uma tarde amena de setembro, o vento batia nas folhas da bananeira, e, como de costume, o príncipe saíra pra jogar sinuca com os amigos, encher a cara de cachaça e passar a mão no traseiro das marafonas, não exatamente nesta ordem.

Depois do jantar, a princesa, que de bela conservara apenas o umbigo, tomou um comprimido de Abracur e pôs-se a caminhar por entre os arvoredos. Há meses que a das Neves, igual a um sobrinho de Minas, passava longas horas na mais completa solidão, monossilábica, fungando, cheirando, a meditar sobre a vida. A lua estava em minguante, brilhosa, e Branca ali, no jardim, sem Love, carente de um homem másculo, de preferência um negro dotado de cacete intumescente que lhe enchesse de esperma o útero, mãos, peitos e os nove furos de seu corpo leitoso.

Por que os contos de fadas são tão chatos e previsíveis? Sei lá. Senta aí, que lá vem história…

Pois bem, sozinha a cismar, Branca pousou o bracinho na cabeça de um anão de jardim, espécime talhado em pedra, sem roupas, peladinho, com o pintinho a mijar um fio de água. Narigudo, horrível, o anão lembrava o técnico Dunga.

“Snif, snif, snif”. De tanto chorar e fungar, uma lágrima escorreu do olho direito da ex-princesa e foi cair na cabeça da pequena estátua. De súbito, despertado pelo choro casto da outrora linda manceba, o pequeno menino de pedra, como acontecera com o boneco Pinóquio, ganhou vida e deu um salto, sem tirar as duas mãos do pinto, assustando assim sua benfeitora, que, instintivamente, colocou as mãos na perereca.

Olhando para Branca, como se agradecesse pela quebra do feitiço, o anão, de pau duro, começou a recitar nomes em língua estranha, entremeados por gargalhadas, como que tocado pelo espírito da garrafa de amontilado lançada do navio.

De fato, ressuscitado do mundo das imobilidades, o anão, em ponto de bala, voltara muito louco e sem vergonha ao mundo dos vivos. Inquieto. Pra quem já esteve ressecado, qualquer vida valia a pena, mesmo que fosse pequena. No caso de Branca, em não podendo contar com a tão sonhada bela e grande rola dos contos de safadas, dez centímetros de membro estavam de bom tamanho — por enquanto!

Foi uma tarde de sexo e loucuras. O pequeno não era bom de pica, bombava pouco, era muito afoito, mas fazia mesuras com a língua. E assim passaram-se semanas e meses, Branca se aliviando com o anão de jardim. Deu-se, porém, que o pequeno conheceu um grilo falante, e o grilo lhe falsificou um diploma de engolidor de espadas, com o qual o outro ingressou no serviço público, sem concurso. Branca ficou sabendo, anos depois, que o anão foi escalado para o mesmo departamento onde batia ponto o ex-mágico da taberna minhota.

Na repartição de obras públicas, o anão e o ex-mágico se divertiram pacas. Os dois esticavam as horas, deixando loucos os que não viam a hora de o relógio bater as cinco; também enfeitiçavam os paletós dos funcionários, que, deixados nas cadeiras, voavam pelos corredores, como fantasmas a procurar os ombros de seus donos entretidos a conversar fiado e a tomar incontáveis cafezinhos. Até que um dia o mágico e o anão passaram das medidas e fizeram surgir na repartição um leão, que acabou devorando a mulher do cafezinho. Por isso, os dois foram sumariamente despedidos.

E quanto ao sapo encantado?

Ah, já ia me esquecendo do título da história. Então, Branca de Neve, naquela mesma noite, com uma vontade venérea de urinar, resolveu se aliviar na beira da lagoa. Sob a luz da lua, ao som dos latidos de um cão pastor alemão, a princesa Branca abaixou a calcinha e fez xixi na cabeça de um sapo enorme, que de tão grande e imóvel mais parecia uma pedra.

O sapo, na verdade, era um ex-gay de novela, vítima da maldade da ex-madrasta de Branca, aquela feiosa vestida de preto, lembram-se? Mas o pobre bicho, diferente do que se deu com o anão, não voltou a ser gente ao receber o jato de urina quente. O sapo pulou na bunda branca de Neve, que, assustada, caiu na lagoa. O batráquio, inebriado pelo cheiro de perereca, saiu pulando e gritando nomes cabeludos.

Branca se recompôs, aprumou-se e ficou a admirar o sapo, parado, a inflar. Talvez ele fosse um príncipe. Estacado ao lado da fonte, o batráquio coaxava, abrindo e fechando a boca como se quisesse revelar um segredo à princesa. Contudo, Branca, apesar de ser fluente em alemão, não entendeu bulhufas da língua da intanha. De saco cheio, o bicho deu um salto e desapareceu em direção ao Castelo. Fazer o quê? Não sei.

Branca ficou preocupada, e, preocupada, pensou no príncipe — também não sei por que, se o marido de Branca não lhe dava a mínima. Não é por que estou escrevendo a história que sei de antemão o que se passa na cabeça dos personagens, tenham paciência.

A princesa teve um mau pressentimento e de repente se viu correndo, gritando e arrancando os cabelos, feito a histérica paciente do Dr. Sigmund Freud, Anna O., a que sonhava com ratos e cobras.

Chegando à soleira do castelo, Branca de Neve empurrou a porta, abrindo-a de par em par. Na sala, um forte cheiro de cachaça com linguiça, diamba, farofa e peido alemão. Esbaforida, divisou o pátio, percorreu as sacadas, não encontrou viv’alma. Gritava. Abriu portas e janelas do Castelo em ruínas, bateu na despensa, nos banheiros, debaixo da escada; vasculhou a adega, encontrando-a vazia, exceto pelas garrafas espalhadas, pelo cheiro de mofo e dois ratos velhos que no passado lhe haviam puxado a carruagem feita de abóbora. E nada.

Cansada, prestes a desistir, lembrou-se do quarto do casal, onde não ousara procurar, temendo o pior. Com o coração na mão, em silêncio, a princesa subiu as escadas e espiou pelo buraco da fechadura. Os maus presságios se confirmaram.

Na cama, igual à cena do filme “O último tango do Castelo”, o príncipe gordo no papel de Brando tinha ao lado uma sapona na pele de Maria Schneider — mas ela estava gorda e inchada!

Os olhos da princesa não acreditavam no que viam. Mas ela teve o sangue frio e a coragem de acompanhar a coisa até o final. Consumado o ato, a princesa chutou a porta, que se abriu num estrondo. No leito conjugal, o príncipe, peladão-peladão, fumava um cigarro de palha; ao seu lado esquerdo, pela metade, o…*

 

*Nota da redação: o conto também parece ter terminado pela metade. Vou reclamar com o autor e semana que vem publico o resultado.