O sapato

O sol ainda estava por despertar. Dona Cotinha saíra cedo, rumo ao ponto de ônibus. O caminho incluía atravessar a linha de trem e um bom pedaço de rua erma, sem iluminação adequada.

Na semidormência de dona Cotinha, eis que o ouvido avisa: Há alguém aí! Ela estacou de pronto e sentiu que tinha feito besteira, pois o perseguidor estava a se aproximar. Voltou a andar com passos rápidos, mas os passos eram fortes e a perseguiam. O medo foi tomando vulto e ao sentir o alguém, dona Cotinha se virou e encarou o meliante, um homem alto e de rosto amargo a sorrir de prazer por ver a vítima como que petrificada.

— Passa a bolsa! — e um passo a mais.

Dona Cotinha se desequilibrou e a marmita foi ao chão. Os respingos do molho de seu almoço perdido acabaram espirrando sobre seu sapato novo, o único sapato bom que dona Cotinha conseguira comprar, depois de longa data, depois de juntar os parcos vencimentos.

O medo sumiu de imediato, e a raiva avermelhou o singelo rosto da moça que estava sendo assaltada. Ela tirou da sacola a garrafa de suco e, segurando pelo gargalo, quebrou-a na parede. Não pensou duas vezes e partiu para cima do assaltante que, desconcertado, ainda tentou falar. Saíram apenas rogativas de “não me mate, dona”…

E dona Cotinha gritou:

— Couro por couro! — e o campeão dos cem metros surgiu naquele pobre larápio.

Passado o susto, ainda vimos no lugar a carteira do infeliz. Na delegacia, dona Cotinha contava a história, agora com tremor de mãos, e os guardas querendo rir.

A certeza do ocorrido é que o homem aprendeu a lição: Pode assaltar, mas não mexa com o sapato de uma mulher!

 

 

Edegerdo Hardt Junior

Edegerdo Hardt Junior nasceu em Jacareí, São Paulo, em 1974. Aos três anos foi morar em Taubaté, cidade onde vive até hoje. Descobriu o maravilhoso mundo da leitura com a mãe; no colégio descobriu a vontade latente de escrever, a que deu vazão por intermédio da poesia. Formado em advocacia, atuou profissionalmente em Taubaté por sete anos. Em 2010, com o falecimento de seu avô materno aos 100 anos de idade, ainda jornalista ativo, voltou a praticar outros gêneros de escrita que não o jurídico. Seu livro de estreia, Algo para pensar: uma aventura diária, será publicado em breve pela KBR.

2 comentários em “O sapato

  • 21/08/2012 em 18:54
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    Realmente…
    Minha irmã têm em casa quase cem pares…. e todos são “necessários”… rs rs rs

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  • 21/08/2012 em 14:02
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    Bom de ver humor nas coisas todas…

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